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Edição 2078

17 de setembro de 2008
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Diogo Mainardi
O bóson de Morales

"Evo Morales é uma espécie de Big Bang da política. Ele representa o choque de um próton da tribo aimará com outro próton do sindicato dos cocaleros, que colidem na velocidade de um trem de Cochabamba"

"Sem medo de ninguém, sem medo do império, hoje, diante do povo boliviano, declaro o senhor Goldberg persona non grata."

Foi assim que, na quarta-feira, Evo Morales anunciou a expulsão do embaixador dos Estados Unidos. Onde está Francis Fukuyama numa hora dessas? O caudilho andino é a prova irrefutável de que a História nunca chega ao fim. Ela é como a motocicleta de pilha do Surfista Prateado: bate no rodapé e volta.

No mesmo dia, em Genebra, entrou em funcionamento o LHC, o maior acelerador de partículas do mundo. A idéia dos cientistas europeus é reproduzir os acontecimentos do Big Bang. Evo Morales é uma espécie de Big Bang da política. Ele representa o choque de um próton da tribo aimará com outro próton do sindicato dos cocaleros, que colidem na velocidade de um trem de Cochabamba. O resultado desse extraordinário experimento antropológico é um retorno ao início dos tempos. O antiamericanismo é a matéria negra da América Latina. Seu estudo permitirá responder àquela pergunta primordial: de onde nós viemos? Nós viemos dali, do tiranete do charango, com sua farda de alpaca bordada e seu atavismo pré-colombiano.

No ano passado, em Chapare, seu principal reduto eleitoral, Evo Morales já havia demonstrado seu espírito intrépido, pronunciando, no idioma quíchua, a frase pela qual será eternamente recordado, mesmo depois de ser deposto e preso:

"Viva a coca, morte aos ianques!".

Os ianques, representados pelo senhor Goldberg, "um especialista em promover conflitos separatistas", todos os anos garantem 100 milhões de dólares de ajuda financeira à Bolívia. Evo Morales deve ter feito suas contas. E concluiu que a coca vale mais. Pelo menos para ele e para o seu bando.

O timoneiro venezuelano Hugo Chávez imediatamente apoiou a medida de Evo Morales, chamando os Estados Unidos de "império agressor e genocida". Ele disse também que os americanos planejam dar um novo golpe de estado na Venezuela, supostamente depois de matá-lo. O alerta de Hugo Chávez foi dado no mesmo dia em que os promotores de um tribunal de Miami apresentaram grampos demonstrando que ele, pessoalmente, fizera de tudo para acobertar o caso da maleta com
800 000 dólares. Alguém talvez ainda se lembre do episódio. Em agosto de 2007, uma maleta com 800 000 dólares foi apreendida num aeroporto argentino. De acordo com todas as testemunhas do caso, o dinheiro foi doado ilegalmente pela estatal venezuelana de petróleo, a PDVSA, à campanha presidencial de Cristina Kirchner. Hugo Chávez assegurou que o julgamento em Miami foi comprado por um grupo de empresários: "É tudo um show".

Sem medo de ninguém, sem medo do império, a América Latina continua a acelerar as partículas do atraso. É o bóson de Morales, o bóson de Chávez, o bóson de Kirchner, o bóson de Lula. Viva o bóson!

 



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