Carta ao Leitor
Por que o Brasil resiste
Claudio
Rossi
 |
| Campo modernizado
Na economia globalizada
não existem ilhas de tranqüilidade, mas o Brasil se blindou
contra crises com estabilidade e uma agropecuária pujante |
As manchetes de
jornal da semana passada informavam que a crise financeira
se aprofundou no mundo e que o PIB brasileiro cresceu 6,1%
no segundo trimestre deste ano. Coisa rara ver essas duas
notícias juntas, uma negativa vinda de fora e outra
muito positiva gerada aqui dentro. Como explicar esse descasamento?
Não é sorte, nem Deus é brasileiro. As
manchetes de sinal trocado da semana passada são resultado
de trabalho e de decisões corretas tomadas por pessoas,
empresas e governos no Brasil nos últimos catorze anos.
A relativa imunidade atual do Brasil à epidemia de
pessimismo, desconfiança e fuga para a segurança
do capital volátil no mundo é um evento extraordinário.
O Brasil que pegava pneumonia a cada gripe dos centros financeiros
mundiais não existe mais. Continua ilusório
pensar que somos uma ilha de tranqüilidade cercada pelo
mar da procela, mas é forçoso reconhecer que
construímos defesas mais fortes do que as que tivemos
no passado.
O que fizemos de
certo? Entronizamos a estabilidade como patrimônio nacional.
Modernizamos o campo. Consertamos o telhado enquanto o sol
brilhava ao acumular reservas de mais de 200 bilhões
de dólares. E, se não houve condições
políticas de dar independência ao Banco Central,
pelo menos houve sabedoria do presidente Lula em preservar
a autonomia daquela instituição, descrita na
semana passada como uma das mais respeitadas atualmente no
mundo por Jim ONeill, economista inglês criador
da expressão Bric, a sigla que congrega os emergentes
de primeira linha Brasil, Rússia, Índia e China.
Com o controle da inflação, as políticas
sociais do governo e a oferta de crédito, tiramos da
pobreza mais de 20 milhões de pessoas, fortalecendo
o mercado interno, esse clássico amortecedor de crises
externas. O que fizemos até agora não é
apenas positivo. É a prova de que podemos e devemos
enfrentar com sucesso o muito que ainda há por fazer.
Para citar duas das propostas do seminário "VEJA
40 Anos O Brasil que Queremos Ser", a adoção
da Lei de Responsabilidade Fiscal pela União e o estabelecimento
constitucional do teto anual de aumento de 1% para os gastos
do governo.