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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
O
perigo dos "6 Sigma"
"Um
único indivíduo instruído com um
bom laboratório nos
fins de semana
tem acesso a tecnologia
de destruição
capaz de dizimar o mundo"
Sempre
haverá pessoas malucas no mundo. E para cada 1.000
pessoas malucas haverá uma pessoa supermaluca, um "5 Sigma"*.
E entre cada 1.000
dessas haverá uma mais maluca ainda, gente a quem vou chamar
de "6 Sigma". Pessoas inteligentíssimas e competentes, mas
que estão longe do padrão normal.
Na
Idade Média, um desses malucos, de mal com a vida e o mundo,
poderia sair matando uns vinte inocentes no mercado principal, até
que os cavaleiros do rei lhe cortassem a cabeça. Nos anos
80, um terrorista matava 200 com uma bomba numa estação
de trem.
Hoje,
graças ao avanço da tecnologia, um maluco pode seqüestrar
um avião e matar 2.000 pessoas.
Daqui a alguns anos, correremos o enorme risco de um "6 Sigma" modificar
um vírus da gripe e misturá-lo com o vírus
da Aids, e então veremos 80% da população mundial
e brasileira ser dizimada, se não percebermos esse novo problema
que nos assola. A luta contra esse terror não é exclusivamente
americana, como muitos estão comodamente achando. Um vírus
aéreo da Aids lançado em Nova York em dois meses estaria
sendo respirado em Brasília.
Como
identificar um "6 Sigma" antes que ele faça um estrago grave
é um problema sério que o mundo poderá enfrentar
nos próximos cinqüenta anos. É um problema policial-sociológico-jurídico-político
absolutamente novo e exigirá soluções muito
impopulares.
Por
exemplo, como identificar essa gente maluca com nossos valores de
privacidade, sigilo e liberdade? Como identificar os "6 Sigma" sem
impor um Estado policial, numa cultura que abomina o "dedo-duro"?
Como prendê-los sem muitas provas de suas malucas futuras
intenções? Como condená-los à prisão
se ainda não cometeram o monstruoso crime?
Ilustração Alê Setti
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Depois
do 11 de setembro, esse perigo ficou mais claro para o mundo, mas
o governo americano mudou de enfoque e demarcou países como
o Iraque e a Coréia como perigosos, e não os futuros
"6 Sigma" espalhados por aí. Em minha modesta opinião,
isso é um erro. Saddam e seus filhos queriam poder e dinheiro.
Quem quer dinheiro e poder avalia seus limites. Bin Laden e seus
suicidas queriam vingança, e isso sim é um perigo
assustador. Vingança a qualquer preço, para si e para
os outros, e quem está disposto ao suicídio já
ultrapassou qualquer limite de razoabilidade.
Como
também queria vingança o criador do vírus Sobig.F,
que chegou a contaminar um em cada dezesseis e-mails, e preparava
um enorme ataque ao site da Microsoft, destruindo e-mails de médicos
a seus pacientes, pedidos de remédios e chats de apoio psicológico,
entre outras coisas.
Um
segundo erro da doutrina Bush é que ela quer implantar democracias
liberais no resto do mundo como solução. Mas democracias
liberais são justamente aquelas que não acreditam
em um Estado que controle a população, e sim numa
população que controle um Estado. Justamente o contrário
do que precisamos para proteger a nação de um "6 Sigma".
Os
Estados Unidos já implantaram redes neurais que supervisionam
movimentos de pessoas, de cheques e sinais estranhos na população.
Mas quem vai supervisionar o mundo? Os americanos, a ONU, cada país
por si ou a polícia montada canadense? É uma bela
encrenca a ser resolvida.
No
fundo, o que ocorre é que o mundo está avançando
em termos de tecnologia muito mais rapidamente do que em termos
de psicologia, sociologia e política. Um único indivíduo
instruído com um bom laboratório nos fins de semana
tem acesso a tecnologia de destruição capaz de dizimar
o mundo. Talvez o risco dos "6 Sigma" não seja tão
grande quanto estou supondo, e vão me criticar por alarmismo.
Eu também prefiro achar que não vai acontecer nada,
mas e se der zebra e não estivermos preparados?
Vão
dizer que o ser humano no fundo é bonzinho e não faria
mal a ninguém. Esquecem que todo dia hospitais, indústrias
de remédios, médicos e dentistas perdem arquivos valiosos
por causa de 7.000 vírus que andam
rodando por aí, plantados no sistema por alguém, sem
alvo definido, sem medir conseqüências. Eu sinceramente
preferiria discutir um pouco mais essa questão em vez de
ignorá-la como estamos fazendo.
Stephen
Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
*.Sigma
é uma medida estatística de desvio da normalidade.
Quanto mais Sigma, mais anormal. Estima-se que existam mais de 650.000
pessoas 5 Sigma no mundo e 1.650 pessoas
6 Sigma. O drama é que não se sabe quem são.
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