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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O outro 11 de setembro
A
tragédia chilena, sua brutalidade,
o efeito cruel de não ter fim – e as
datas que coincidem na história
"E
aí vêm os aviões..."
Esta
foi a frase que encerrou o último pronunciamento pelo rádio
do presidente chileno Salvador Allende. Era a manhã do dia
11 de setembro de 1973, uma terça-feira. Os quartéis
insurgiam-se, os tanques precipitavam-se às ruas. Allende,
com um fuzil na mão e um capacete na cabeça, acessórios
estranhos a um político de terno e gravata, que nunca apreciara
se fantasiar de militar, esforçou-se enquanto pôde
em dizer pelas ondas do rádio que não renunciaria
nem permitiria que o tirassem vivo do Palácio de La Moneda.
De repente, o barulho dos aviões veio aumentar-lhe o flagelo.
Seu desalentado comentário foi aquele: "E aí vêm
os aviões". Em instantes, começava o bombardeio do
palácio. Um par de horas depois, o corpo de Allende jazia
num sofá à entrada do salão de recepções
do La Moneda. Até hoje não foram dirimidas por inteiro
as suspeitas de que tenha sido assassinado, mas o mais provável
é que, como se divulgou desde o início, tenha se suicidado.
O suicídio foi seu último gesto de resistência.
O
golpe do Chile está fazendo trinta anos. O reinado de horror
implantado pelos militares começou naquele mesmo dia. "Ficar
na rua poderia significar prisão ou fuzilamento", escreveu
o ex-ministro José Serra, na época exilado em Santiago,
num artigo publicado na Folha de S.Paulo. Para Serra, comparado
ao que ocorreu no Chile, "o golpe de 1º de abril de 1964 no
Brasil parecia um delicado chá de senhoras". O drama chileno
tem características emblemáticas da história
da América Latina. Começando pelos erros do próprio
Allende, era pretensão demais, ou ilusão demais, imaginar
que uma vitória com não mais de 36,6% dos votos, como
a obtida na eleição presidencial de 1970, o credenciasse
a executar um programa de reformas radicais. O candidato da direita,
Jorge Alessandri, obtivera 34,9%, e o do centro, o democrata-cristão
Radomiro Tomic, 27,8%. Era uma época em que os sonhos dos
anos 60 não se haviam dissipado. As utopias estavam ainda
no ar, como os vírus e os passarinhos. Explica-se talvez
por aí que a facção comandada por Allende tenha
suposto que seria capaz de virar o país de pernas para o
ar sem o aval de dois terços da população.
Isso
não justifica o golpe nem, sobretudo, a brutalidade do golpe.
Não ousemos pintar, em sua inteireza, o que foi a tragédia
chilena. Limitemo-nos a dois pontos. O primeiro foi o uso do Estádio
Nacional, o maior do país, como campo de concentração
dos prisioneiros. Nos dias que se seguiram à deposição
de Allende, eles foram ali amontoados aos milhares. Nesse estádio
o Brasil ganhara sua segunda Copa do Mundo, em 1962. Agora, em vez
dos dribles de Garrincha, ele abrigava o campeonato das torturas
e dos assassinatos. O segundo ponto é a proliferação
dos "desaparecidos". Não foi o golpe chileno que inventou
tal figura no Brasil ela já se manifestara ,
mas foi ele que lhe conferiu escala e notoriedade mundial. O estádio,
lugar de diversão, convertido em centro de triturar gente
e a fabricação de desaparecidos elevada ao nível
de rotina dão conta do caráter macabro do regime que
se instalou em Santiago.
Entre
os chilenos, apesar da normalidade política que têm
vivido nos últimos anos, e de certa bem-aventurança
econômica, cada 11 de setembro é ainda dia de tensão
e de expressão de fundas divisões. Duas bombas explodiram
no país, na semana passada, causando danos pequenos, mas
suficientes para lembrar a data. O presidente Ricardo Lagos tem
feito esforços no sentido de atender às reivindicações
dos familiares das vítimas da ditadura, e anunciou um plano
pelo qual as indenizações terão seu valor aumentado
e se abrirão brechas na lei de anistia de forma a permitir
investigações e processos. Mas Lagos já avisou
que tem limites que não pode transpor e que este é
um capítulo da história chilena "que nunca pode ser
fechado". Eis o efeito talvez mais cruel da tragédia: o de
que ela nunca tem fim.
O
11 de setembro no Chile foi um momento de loucura política
similar ao que se daria num outro 11 de setembro, quase três
décadas depois, nos Estados Unidos. Há datas que são
como armadilhas escondidas no calendário. Ficam quietas,
esperando as hecatombes, que caem nelas como presas indefesas. O
dia 24 de agosto é o da erupção do Vesúvio
que soterrou Pompéia, na Antiguidade, e, muitos séculos
depois, o da Noite de São Bartolomeu, que determinou o massacre
dos protestantes, na França das guerras religiosas. Faltava
ao 24 de agosto, depois de ter deixado sua marca em tais magnos
eventos, aprontar alguma em um obscuro país do Hemisfério
Sul. No dia 24 de agosto de 1954 o presidente Getúlio Vargas
suicidou-se. Com o 11 de setembro ocorreu o contrário. Primeiro
atacou num periférico país do Sul. Depois deixou sua
marca na principal cidade do principal país. Em ambos os
casos, o 11 de setembro caiu numa terça-feira, e houve outras
coincidências. "E aí vêm os aviões" é
uma frase que poderia ter sido dita em Nova York, 28 anos depois
de ter sido pronunciada por Allende.
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