Edição 1820 . 17 de setembro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O outro 11 de setembro

A tragédia chilena, sua brutalidade,
o efeito cruel de não ter fim – e as
datas que coincidem na história

"E aí vêm os aviões..."

Esta foi a frase que encerrou o último pronunciamento pelo rádio do presidente chileno Salvador Allende. Era a manhã do dia 11 de setembro de 1973, uma terça-feira. Os quartéis insurgiam-se, os tanques precipitavam-se às ruas. Allende, com um fuzil na mão e um capacete na cabeça, acessórios estranhos a um político de terno e gravata, que nunca apreciara se fantasiar de militar, esforçou-se enquanto pôde em dizer pelas ondas do rádio que não renunciaria nem permitiria que o tirassem vivo do Palácio de La Moneda. De repente, o barulho dos aviões veio aumentar-lhe o flagelo. Seu desalentado comentário foi aquele: "E aí vêm os aviões". Em instantes, começava o bombardeio do palácio. Um par de horas depois, o corpo de Allende jazia num sofá à entrada do salão de recepções do La Moneda. Até hoje não foram dirimidas por inteiro as suspeitas de que tenha sido assassinado, mas o mais provável é que, como se divulgou desde o início, tenha se suicidado. O suicídio foi seu último gesto de resistência.

O golpe do Chile está fazendo trinta anos. O reinado de horror implantado pelos militares começou naquele mesmo dia. "Ficar na rua poderia significar prisão ou fuzilamento", escreveu o ex-ministro José Serra, na época exilado em Santiago, num artigo publicado na Folha de S.Paulo. Para Serra, comparado ao que ocorreu no Chile, "o golpe de 1º de abril de 1964 no Brasil parecia um delicado chá de senhoras". O drama chileno tem características emblemáticas da história da América Latina. Começando pelos erros do próprio Allende, era pretensão demais, ou ilusão demais, imaginar que uma vitória com não mais de 36,6% dos votos, como a obtida na eleição presidencial de 1970, o credenciasse a executar um programa de reformas radicais. O candidato da direita, Jorge Alessandri, obtivera 34,9%, e o do centro, o democrata-cristão Radomiro Tomic, 27,8%. Era uma época em que os sonhos dos anos 60 não se haviam dissipado. As utopias estavam ainda no ar, como os vírus e os passarinhos. Explica-se talvez por aí que a facção comandada por Allende tenha suposto que seria capaz de virar o país de pernas para o ar sem o aval de dois terços da população.

Isso não justifica o golpe nem, sobretudo, a brutalidade do golpe. Não ousemos pintar, em sua inteireza, o que foi a tragédia chilena. Limitemo-nos a dois pontos. O primeiro foi o uso do Estádio Nacional, o maior do país, como campo de concentração dos prisioneiros. Nos dias que se seguiram à deposição de Allende, eles foram ali amontoados aos milhares. Nesse estádio o Brasil ganhara sua segunda Copa do Mundo, em 1962. Agora, em vez dos dribles de Garrincha, ele abrigava o campeonato das torturas e dos assassinatos. O segundo ponto é a proliferação dos "desaparecidos". Não foi o golpe chileno que inventou tal figura – no Brasil ela já se manifestara –, mas foi ele que lhe conferiu escala e notoriedade mundial. O estádio, lugar de diversão, convertido em centro de triturar gente e a fabricação de desaparecidos elevada ao nível de rotina dão conta do caráter macabro do regime que se instalou em Santiago.

Entre os chilenos, apesar da normalidade política que têm vivido nos últimos anos, e de certa bem-aventurança econômica, cada 11 de setembro é ainda dia de tensão e de expressão de fundas divisões. Duas bombas explodiram no país, na semana passada, causando danos pequenos, mas suficientes para lembrar a data. O presidente Ricardo Lagos tem feito esforços no sentido de atender às reivindicações dos familiares das vítimas da ditadura, e anunciou um plano pelo qual as indenizações terão seu valor aumentado e se abrirão brechas na lei de anistia de forma a permitir investigações e processos. Mas Lagos já avisou que tem limites que não pode transpor e que este é um capítulo da história chilena "que nunca pode ser fechado". Eis o efeito talvez mais cruel da tragédia: o de que ela nunca tem fim.

O 11 de setembro no Chile foi um momento de loucura política similar ao que se daria num outro 11 de setembro, quase três décadas depois, nos Estados Unidos. Há datas que são como armadilhas escondidas no calendário. Ficam quietas, esperando as hecatombes, que caem nelas como presas indefesas. O dia 24 de agosto é o da erupção do Vesúvio que soterrou Pompéia, na Antiguidade, e, muitos séculos depois, o da Noite de São Bartolomeu, que determinou o massacre dos protestantes, na França das guerras religiosas. Faltava ao 24 de agosto, depois de ter deixado sua marca em tais magnos eventos, aprontar alguma em um obscuro país do Hemisfério Sul. No dia 24 de agosto de 1954 o presidente Getúlio Vargas suicidou-se. Com o 11 de setembro ocorreu o contrário. Primeiro atacou num periférico país do Sul. Depois deixou sua marca na principal cidade do principal país. Em ambos os casos, o 11 de setembro caiu numa terça-feira, e houve outras coincidências. "E aí vêm os aviões" é uma frase que poderia ter sido dita em Nova York, 28 anos depois de ter sido pronunciada por Allende.

 
 
 
 
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