Edição 1820 . 17 de setembro de 2003

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Música
A Heloísa Helena do rock

Chrissie Hynde, a líder dos Pretenders,
adora um protesto. Mas seu radicalismo
já não é o mesmo


Sérgio Martins


PARA OUVIR
Don’t Get Me Wrong
I Got You Babe
Night In My Veins
Precious
Tattooed Love Boys
Stop Your Sobbing
Kid
Lie to Me

A cantora e guitarrista americana Chrissie Hynde adora armar um barraco. Vegetariana radical, daquelas que se recusam a comer legumes cozidos em panelas "contaminadas" por carne, ela costuma organizar protestos contra empresas que acredita dispensarem tratamento cruel aos animais. Seu primeiro grande alvo foram as redes de fast food. Nos anos 80, ela disse num congresso de vegetarianos que gostaria de bombardear as lojas do McDonald's. Dias depois, um meliante tomou a bravata ao pé da letra e jogou uma bomba numa filial da rede, em Londres. A cantora teve de assinar uma retratação para escapar da cadeia. Recentemente, ela participou de protestos contra a KFC. Enquanto bradava palavras de ordem diante da lanchonete, em Paris, ouviu insultos do gerente e tomou safanões da polícia. Outra cruzada sua foi contra a Gap. Chrissie acusa a confecção de comprar couro no mercado negro asiático. "Eles colocam pimenta nos olhos dos bichinhos para que morram mais rápido. Tenho tudo registrado em vídeo", denuncia. Há três anos, uma turba liderada pela cantora invadiu e quebrou as vidraças de uma Gap em Nova York. Ela foi presa e pagou fiança de 1 000 dólares. Chrissie é, em suma, a versão roqueira de Heloísa Helena. Como a senadora alagoana, que certa vez ameaçou o ex-ministro José Serra com uma espátula de abrir cartas, Chrissie recorre a métodos heterodoxos para defender seus pontos de vista. Quando não está dando vazão a seu radicalismo ecológico, ela brinda o público com verdadeiras aulas de rock. A cantora e seu grupo, os Pretenders, irão se apresentar no dia 23 em São Paulo e no dia 26 em Brasília. No repertório, as canções mais significativas dos 25 anos de carreira do grupo, além dos dois últimos lançamentos dos Pretenders, que chegam nesta semana ao Brasil – o CD Loose Screw e o DVD Loose in LA.

Chrissie, de 52 anos, nasceu no Estado americano de Ohio. Na adolescência, ela tomou duas decisões que iriam mudar sua vida. A primeira foi abolir a carne do cardápio. "É o segredo de ser uma cinqüentona de corpinho esbelto", orgulha-se. A outra foi mudar-se para Londres. A cantora chegou à cidade nos anos 70, durante a explosão do movimento punk. Trabalhou como garçonete, vendedora e jornalista até criar os Pretenders, em 1978. Além de se tornar um dos ícones do período, a banda consolidou a imagem de Chrissie como uma das personalidades mais fortes da história do rock. Ela superou a morte de dois músicos por overdose de drogas, três casamentos fracassados e interrompeu as turnês do grupo por quase uma década para ficar perto das filhas – hoje com 20 e 18 anos.

Na vida pessoal, Chrissie é menos durona do que aparenta. Recém-separada do terceiro marido, o escultor colombiano Lucho Brieva, ela assume o fracasso da relação. "Sou carinhosa, mas tenho o dom de destruir meus casamentos." Algumas atitudes mais radicais têm sido revistas. Por exemplo, a de discriminar modelos e artistas que usem casacos de pele. "Conheci Kate Moss no casamento de Paul McCartney e nos demos muito bem. Até duetamos num karaokê", diz. "Não é porque ela veste pele em desfiles que tenho de destratá-la." A polidez de Hynde tem razões íntimas. Sua filha Natalie está se iniciando como modelo e certamente terá de se defrontar com casacos de pele. Mas que ninguém pense que Chrissie um dia deixará de lado a irreverência, uma de suas principais qualidades. "Quero outro amante latino. Se Marilyn Monroe tivesse provado um, como eu, ela nunca cantaria aquela besteira de que os diamantes são os melhores companheiros das mulheres."

 

 

 
 
 
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