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Brasil
Um governo infestado
de gafanhotos
Com dúzias de autoridades e 5.000
cidadãos humildes, Roraima recria
a pragada
corrupção

Malu Gaspar, de Boa Vista
Roberto Jayme
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ex-governador Neudo Campos: a praga começou no seu governo |
O
governador de Roraima, Flamarion Portela, o único da atual
safra de governadores a filiar-se ao PT depois da posse, teve uma
discreta audiência com o ministro José Dirceu, no Palácio
do Planalto, na noite de quinta-feira passada. Oficialmente, o governador
desembarcou em Brasília com três assuntos na bagagem:
problemas fundiários, demarcação de terras
indígenas e liberação de verbas federais. A
parte mais quente da agenda, porém, estava oculta e dizia
respeito a um desconcertante desvio de dinheiro público em
seu Estado, cujos meandros estão sendo revelados por uma
profunda investigação oficial. Com uma economia precária,
Roraima responde por apenas 0,1% do PIB brasileiro e sua sobrevivência
é garantida por recursos de Brasília, que banca mais
de 80% das despesas do Estado. Apesar da penúria, o governo
estadual concebeu, implantou e manipulou clandestinamente, por pelo
menos cinco anos, uma abusada tecnologia de desfalque na folha salarial
do funcionalismo público. Estima-se que o esquema tenha sugado,
em média, 70 milhões de reais por ano uma enormidade,
equivalente a mais de 10% do orçamento do Estado e
se tornado epidemia, um caso de corrupção institucionalizada.
O desvio, que está sendo investigado por equipes da Polícia
Federal e dos Ministérios Públicos Estadual e Federal,
tinha uma abrangência notável. Entre os 42.000 servidores
estaduais, havia 5.000 funcionários "gafanhotos", como se
diz no vocabulário local, numa alusão ao inseto que
come folhas no caso, folhas de pagamento. Os gafanhotos tinham
o nome incluído na folha do Estado, mas em geral nem sabiam
disso, e o grosso do salário deles era embolsado por terceiros.
Maria Ivanilde Arruda, 40 anos, era um gafanhoto. No início
de 2002, ela pediu ajuda a um deputado estadual. Para ganhar o auxílio
financeiro, Ivanilde teve de comparecer a um cartório, acompanhada
pelo "pessoal do deputado", e precisou "assinar um papel". Sem saber,
virara servidora pública e, ao mesmo tempo, passara uma procuração
aos assessores do deputado. No fim do mês, os assessores sacavam
o salário de Ivanilde, de 1.000 reais, davam-lhe entre 100
e 200 reais e embolsavam o resto. "Se eu ganhasse 1.000 reais, não
tinha passado tanto aperreio", disse ela, ao descobrir o rolo.
Nonato Souza/Folha de Boa de Vista
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Ana Araujo
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governador Flamarion Portela (à esq.), a Amazon,
que pagava a gafanhotada, e a fila para o primeiro grande concurso
público do Estado |
Ana Araujo
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Entre os 5.000 gafanhotos, 176 nem moravam em Roraima. Espalhavam-se
por dezoito Estados do Brasil. Apesar da quantidade de envolvidos
e do espraiamento geográfico, o esquema aparentemente beneficiava
um grupo restrito. Até agora, os investigadores examinaram
as procurações outorgadas por 1.366 gafanhotos e,
surpresos, descobriram que os outorgados formam um grupo reduzidíssimo:
sessenta pessoas. Analisando-se quem são, fez-se outra descoberta
interessante. A esmagadora maioria dos procuradores era formada
por parentes ou funcionários de vinte deputados estaduais,
dois dos quais são hoje altos auxiliares de Flamarion Portela
e três, conselheiros do Tribunal de Contas do Estado. São
esposas, irmãos, filhos, primos, sobrinhos e filhos adotivos,
além de secretárias e assessores. O campeão
é o deputado estadual Jalser Renier Padilha, 31 anos, que
começou a carreira parlamentar como radialista e hoje mora
numa das residências mais suntuosas de Boa Vista, com piscina
coberta e aquário no chão do quarto. Duas assessoras
do jovem deputado detêm procurações de 135 gafanhotos,
cujos salários somam 243.000 reais mensais.
O
deputado admite que indicava quem lhe pedia ajuda para um emprego
público, mas diz que jamais soube das procurações
em poder de suas assessoras. "Eu indico as pessoas, e o Estado amadurece
a idéia de empregar ou não", diz ele. "Roraima é
um Estado muito pobre, não tem outra fonte de receita a não
ser a economia do contracheque." A turma ligada ao presidente da
Assembléia Legislativa, Antonio Mecias Pereira de Jesus,
reúne procurações de 111 gafanhotos, num total
salarial de 213.000 reais por mês. Nenhum dos deputados cujos
parentes aparecem entre os sessenta procuradores fatura menos de
40.000 reais. Entre os conselheiros do Tribunal de Contas, a maior
remuneração é de 51.000 reais mensais
no caso, de procuradores aparentados do conselheiro Henrique Machado,
ex-deputado estadual. Apesar do tamanho que já assumiu, com
a tomada de 480 depoimentos num único mês, a investigação
está longe do fim. Falta abrir cinqüenta caixas de documentos
apreendidos na Amazon Service Bank, empresa que, contratada pelo
governo estadual, fazia o pagamento aos procuradores dos gafanhotos.
Fotos Ana Araujo
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Ana Araujo
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mansão e seu dono, o deputado Jalser Padilha: 243.000
reais por mês |
"A
certeza da impunidade era tanta que não houve preocupação
em esconder os documentos", afirma o delegado Julio Baida Filho,
que preside o inquérito da Polícia Federal. "A fraude
está amplamente documentada." Desde o ano passado, quando
Neudo Campos governava Roraima, sabia-se da existência de
irregularidades na folha salarial, mas o que viera a público
era apenas um pequeno pedaço do esquema. Falava-se, na época,
que vinte pessoas tinham procuração em nome de pouco
mais de 300 servidores e embolsavam, por ano, 7 milhões de
reais. As investigações mostram que o negócio
era tão mais amplo que ganhou ares de um caso exemplar de
espoliação do bem público em que somente
sessenta pessoas, ligadas a duas dúzias de autoridades, engambelam
milhares de cidadãos humildes e privatizam um naco respeitável
do Erário. São tantos os tentáculos, e tantos
os envolvidos para um Estado com apenas 330 000 habitantes, que,
nos bares e restaurantes de Boa Vista, é comum flagrar grupos
discutindo o assunto e especulando quem, entre os sentados
às mesas vizinhas, pode estar implicado no caso.
Segundo as investigações, a praga começou a
infestar o Estado em 1998, às vésperas do ínicio
do segundo mandato de Neudo Campos, que autorizava a contratação
da gafanhotada indicada por parlamentares. "Admitir funcionários
é uma coisa, saber que eles não trabalhavam é
outra. Para mim, todos trabalhavam", diz o ex-governador. O vice,
na época, era o próprio Flamarion Portela, o atual
governador que concorreu ao cargo pelo PSL e, depois de empossado,
se bandeou para o PT. Na quarta-feira passada, o governador concordou
em receber VEJA em seu gabinete em Boa Vista, mas não apareceu
no encontro. Depois disso, a revista voltou a procurar sua assessoria
para tentar um novo contato em Boa Vista ou em Brasília,
para onde o governador embarcara no meio da semana. Apesar das tentativas,
Flamarion Portela não conversou com VEJA. Seu assessor de
imprensa, Péricles Peruschi, disse que, na audiência
com o ministro José Dirceu, o governador nem sequer tocaria
no assunto dos gafanhotos, dado que se trata de uma herança
da gestão anterior. "O Flamarion é só um espectador
nesse processo", explicou.
Em
depoimento prestado ao Ministério Público, Carlos
Levischi, diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, uma lavoura
com 800 gafanhotos, contou que o ex-governador Neudo Campos determinava
a cota de gafanhotos de cada deputado estadual, mas, em sua ausência,
quem comandava o esquema era o vice, Flamarion Portela. A investigação
constatou ainda que, desde abril de 2002, quando Flamarion assumiu
o governo na licença eleitoral de Neudo Campos, a gafanhotada
não apenas seguiu comendo a folha salarial como até
se multiplicou. Em dezembro, a remuneração dos gafanhotos
somava 24 milhões de reais, o dobro do início do ano.
Além disso, o atual governo nomeou, para cargos importantes,
pelo menos quatro pessoas acusadas de envolvimento direto no caso,
incluindo aí o atual titular da Secretaria da Fazenda, cargo
estratégico na disseminação da praga dos insetos.
Agora, depois de um acordo com o Ministério Público,
o atual governador está fazendo os primeiros concursos da
história de Roraima, e o maior já abriu inscrições
para o preenchimento de 8.000 vagas, num procedimento que, se feito
com lisura, poderá salvar a lavoura.
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