Edição 1820 . 17 de setembro de 2003

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Entrevista: Alan Dershowitz
Guerrilheiro dos tribunais

O mais célebre advogado americano
diz que os EUA estão torturando prisioneiros,
que Yasser Arafat é criminoso e que os
acadêmicos de seu país são covardes


Gabriela Carelli

Stephanie Mitchell/Harvard Univ. News Office

"A senhora Arafat passa o dia sentada em sua luxuosa casa num subúrbio de Paris. O casal Arafat tem 300 milhões de dólares na conta"

As pessoas que gostam de cinema conhecem o advogado americano Alan Dershowitz, de 65 anos, na pele do ator Ron Silver no filme O Reverso da Fortuna, exibido no Brasil nos anos 90. Silver fez o papel de Dershowitz e o inglês Jeremy Irons o do seu cliente, o milionário Claus von Bulow, acusado de matar a esposa. Bulow foi absolvido, e o caso tornou Dershowitz uma celebridade. Era só o começo de uma carreira que faria dele o mais famoso advogado dos Estados Unidos. Professor de direito na Universidade Harvard, Dershowitz esteve à frente de quase todos os casos de alta exposição na imprensa e na televisão – se não de todos. Dershowitz fez parte do time de defesa que conseguiu a absolvição do astro de futebol americano O.J. Simpson, também acusado de matar a ex-mulher a punhaladas. Defendeu o boxeador Mike Tyson no caso de estupro que o levou à prisão. Bill Clinton o escolheu para chefiar a equipe de advogados no processo de impeachment que sofreu no auge do caso Monica Lewinsky, a estagiária com quem o presidente americano se envolveu sexualmente na Casa Branca. Nas eleições presidenciais de 2000, o candidato democrata Al Gore contratou Dershowitz como seu representante no polêmico caso de contagem de votos que acabaria levando o republicano George W. Bush à Presidência. Ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – O senhor está de novo sob os holofotes por ter defendido a tortura nos casos de investigação de atos terroristas. Mas tortura é um crime tão hediondo quanto o terrorismo, não?
Dershowitz – Distorceram minhas palavras. Nunca defendi a tortura. Sou contra a tortura. O que eu disse é que a tortura vem sendo usada pelos Estados Unidos em sua luta total contra o terror. O que está ocorrendo hoje em meu país é um dos piores tipos de crime de guerra que podem existir, a pior modalidade de combate. Estamos utilizando métodos brutais de interrogatório e não estamos admitindo isso publicamente. Diante desse fato, sugeri que se regularizasse essa prática, de modo que os interrogatórios possam ser conduzidos da maneira menos cruel possível. Sugeri isso não por concordar com a tortura, mas para que a sociedade tenha controle do que está acontecendo nas prisões onde se encontram os acusados de terrorismo.

Veja – Uma democracia pode tolerar a tortura sem se destruir?
Dershowitz – Em 1995, as autoridades filipinas obtiveram sob tortura a informação de um terrorista que permitiu desmantelar planos para matar o papa e derrubar onze jatos comerciais. Mas a democracia não pode usar métodos comparáveis aos dos governos do Oriente Médio, que aplicam a tortura nos porões e não dão satisfação ao povo. Os Estados Unidos são uma democracia, porém têm agido abusivamente na luta para acabar com o terror. A tortura e a violação de liberdades civis por parte dos EUA estão fazendo muito mal a esse país. Portanto, quero deixar claro que não fiz apologia da tortura. Defendi outra coisa. A tortura está sendo utilizada por nossas autoridades, e elas não dão sinais de que estejam dispostas a parar com essa prática. Então, que se estabeleçam regras democráticas para o uso da coerção física nos interrogatórios de acusados de terrorismo. Esse método só poderia ser utilizado, a meu ver, com autorização judicial, e só em casos extremos.

Veja – Nas últimas eleições presidenciais, o senhor representou o candidato democrata Al Gore no caso da apuração de fraude eleitoral na Flórida, que acabou sendo decidido em favor de George W. Bush. Gore teria sido um presidente melhor que o presidente George Bush?

Dershowitz – Não aprecio as táticas de Bush. Mas não posso dizer se Al Gore teria se saído melhor na Casa Branca. Com certeza ele teria projetado para o mundo uma imagem melhor dele e dos Estados Unidos. Da mesma forma que Bill Clinton o fez. Além disso, Gore é mais moderado e é alfabetizado. Ele fala menos e faz mais do que Bush.

Veja – O senhor se celebrizou por defender clientes célebres e polêmicos como Von Bulow, Mike Tyson e O.J. Simpson. O senhor faz isso por dinheiro?
Dershowitz – Mais da metade dos meus casos são gratuitos, envolvendo pessoas sem dinheiro, cuja vida está em perigo. Muitas delas foram ajudadas por mim quando já se encontravam no corredor da morte. Mesmo os casos célebres podem não render dinheiro. Um exemplo foi a defesa do Mike Tyson. Enquanto corria o julgamento, ele quebrou, e acabou falindo agora. Por isso, nem tentei cobrar a conta. Em resumo, se me procuram, eu defendo. Se me pagam bem, melhor.

Veja – Isso ajuda a exemplificar a máxima de que bons advogados defendem maus clientes?
Dershowitz – Claro. Quanto pior o criminoso, quanto mais hediondo o crime, mais ele precisa de um bom advogado. Essa é a minha profissão. Muitos de meus clientes são culpados, mas a civilização decidiu que é preciso provar a culpa por meio de um julgamento. A condenação só pode vir depois do julgamento. Certa vez, defendi um médico da Flórida acusado de matar sua mulher. Todos me diziam que ele era um facínora. Era uma pessoa odiada, e dava-se como certo que era culpado. Ocorre que ele era inocente, totalmente inocente. As provas usadas contra ele eram falsas. O ensinamento desse caso é que sempre há a possibilidade de que alguém esteja sendo acusado falsamente. Mais do que defender ou acusar com brilhantismo, o importante é que todo o sistema judicial funcione, para que se chegue ou se tente chegar à verdade.

Veja – Qual foi seu caso mais fácil?
Dershowitz – Entre meus casos célebres, o mais fácil foi o de O.J. Simpson. A acusação estava tão cheia de falhas e tão ruim que eles nos deram a vitória em uma bandeja de prata.

Veja – E o mais difícil?
Dershowitz – O mais difícil sem dúvida foi defender um russo acusado de traição em plena era soviética. Enfrentei os tribunais em Moscou, um país então inimigo. Nos Estados Unidos, o caso mais difícil foi o de Tyson. O júri claramente queria vê-lo na cadeia. Era de dar pena. Ele é um rapaz extremamente doce. Implorava para que eu conseguisse livrá-lo da jaula.

Veja – Doce? Mike Tyson pode ser doce?
Dershowitz – Durante o dia, nas reuniões, era um doce. Mas nunca estive com ele num quarto sozinho às 3 da manhã para saber como ele se comporta numa situação dessas.

Veja – Uma pesquisa recente mostrou que os Estados Unidos têm o maior índice de encarceramento do mundo. Um em cada grupo de 37 americanos está ou já esteve preso. O que se pode depreender dessa estatística?
Dershowitz – Várias coisas. A primeira é que nós consideramos crimes atitudes que em outros países são faltas tidas como irrelevantes. Por exemplo, o uso de drogas, mesmo as leves, e certos crimes sexuais. Há Estados aqui em que sexo homossexual dá cadeia. A lei permite em alguns Estados prender alguém apenas porque está fumando. Muitos se encontram na cadeia por coisas que não deveriam ser consideradas crimes mas são. A segunda é que há muita pobreza e desigualdade neste país. Se uma em cada 37 pessoas foi para a cadeia, uma em cinco são afro-americanas. A terceira é a politização do sistema judiciário. Os políticos aprenderam que estatísticas de encarceramento ajudam em eleições, têm apelo. Eles mostram que agiram para reduzir a violência. Politizamos também o sistema em si. Nossos juízes e promotores são eleitos. Eles tendem a pedir penas mais rigorosas para convencer a população de que são os melhores. Disso resulta que quem rouba um carrinho de golfe pode passar vinte anos na cadeia. Temos um péssimo sistema de Justiça nos Estados Unidos.

Veja – O senhor é chamado de "advogado superstar". Sua vida virou filme. O que o senhor acha da badalação?
Dershowitz – Cresci no Brooklyn. Foi lá que comecei minha carreira, defendendo gente simples. Nunca pensei que isso fosse acontecer, apesar de saber que seria advogado. Na América, os advogados por vezes se tornam famosos. Isso o leva para a televisão, faz de você capa de revista. Perco minha privacidade. Estou sempre viajando e em todo lugar as pessoas sabem quem eu sou. Claro que virar filme é um privilégio. Ron Silver me interpretou muito bem, fez um ótimo papel como advogado, mas foi péssimo no basquete. Eu jogo muito melhor que ele.

Veja – Por que o senhor escreveu seu novo livro, The Case for Israel (em tradução livre, A Favor de Israel)?

Dershowitz – A guerra americana contra o terrorismo ricocheteou e atingiu Israel, que passou a ser visto como um país criminoso, de métodos nazistas e a maior barreira para a paz no Oriente Médio. Isso é uma distorção que precisa ser corrigida. Sou contra muitas políticas israelenses, como os assentamentos e as ocupações, e defendo a coexistência de dois Estados na Palestina. A desinformação chegou a um ponto em que a opinião pública tem de ser esclarecida e entender que os judeus não são o diabo de que falam, mas um povo que está em guerra e que tem o direito de defender seus cidadãos.

Veja – Nem os ataques terroristas contra Israel parecem atrair a simpatia do mundo para o país. A que se deve isso?
Dershowitz – Há vários motivos, mas o principal é que as pessoas estão vendo as coisas de forma muito simplificada. É fácil acreditar que o terrorismo islâmico se justifica por causa da pobreza do povo palestino, dominado por Israel, um país criado a fórceps, que expulsou um povo de suas terras e conta ainda com o apoio do poderoso império americano. A realidade não é bem essa. Os palestinos são pobres e desesperados. Muitos são refugiados, assim como muitos judeus que começaram a imigrar para Israel no fim do século XIX. Mas a pobreza e o desespero não justificam a explosão de crianças em escolas e de civis em pontos de ônibus. Nada justifica o que está sendo feito. Se fosse assim tão fácil explicar as causas do terror, então os grandes terroristas do mundo seriam os tibetanos, os curdos ou os armênios. O Tibete está ocupado há muito mais tempo que a Cisjordânia e existem mais assentamentos de chineses ali do que de judeus na Palestina. Os tibetanos não matam crianças chinesas nem mandam as suas para a morte, assim como não as colocam em campos de treinamento. Eles também não seqüestram aviões para explodir prédios lotados de pessoas inocentes.

Veja – A justificativa moral é que o terror é a única arma de que os palestinos dispõem para enfrentar o poderio bélico de Israel...

Dershowitz – É uma grande mentira. Eles não têm dinheiro? Então pergunte à senhora Arafat se ela mandaria o filho explodir como homem-bomba na luta contra a pobreza de seu povo. A senhora Arafat passa o dia sentada em sua luxuosa casa num subúrbio de Paris. O casal Arafat tem 300 milhões de dólares na conta bancária. Isso é desespero? Quem comanda o terrorismo, quem faz os palestinos acreditar que eles devem se suicidar para salvar seu povo da opressão é gente que possui muito dinheiro. Arafat é um dos homens mais ricos do mundo. O terrorismo não é coisa do povo palestino, mas uma decisão de sua liderança política. Os líderes palestinos não querem dois Estados independentes na região. Eles querem os judeus fora de lá.

Veja – De onde vem a força de Yasser Arafat?
Dershowitz – Ele é um assassino de massa da pior espécie. Ele sabe como provocar a ira dos israelenses e dessa forma manipula a política de Israel. A ação de Arafat culminou na eleição de Ariel Sharon em Israel, um linha-dura que só piorou a imagem dos judeus perante o mundo. Nunca votaria em Sharon. Sou contra muitas de suas decisões e condeno os massacres em que ele se envolveu. Sou a favor da devolução das terras tomadas dos palestinos. Mas Israel é uma democracia, e o povo, amedrontado por Arafat, o escolheu. Isso contribuiu para que Israel ficasse com uma imagem distorcida. Israel está fazendo o que qualquer país faria numa guerra em defesa de seu povo. A Jordânia matou muito mais palestinos e ninguém a culpa.

Veja – O atentado à sede da ONU no Iraque que resultou na morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello foi um choque grande para os brasileiros. O senhor acha que as pessoas se sensibilizam mais para o problema quando o terror ataca um homem público conhecido e admirado?

Dershowitz – A questão não é essa. As pessoas nunca vão se sentir vítimas do terror enquanto não perderem um parente, uma mãe ou um filho num atentado hediondo como os que se cometem em Israel. Ou como aconteceu no ataque às torres gêmeas, há dois anos. O que se deve perguntar é por que esse homem brasileiro foi morto. Ele foi morto porque o governo brasileiro tem atitudes que encorajam o terrorismo. Nas votações da ONU, o Brasil sempre votou a favor dos palestinos. Por que o governo brasileiro nunca votou a favor dos tibetanos e dos curdos?

Veja – O senhor, que sempre foi um paladino do liberalismo, tem sido chamado de fascista desde que decidiu escrever sobre os problemas do Oriente Médio...

Dershowitz – Que coisa hipócrita. Quem diz isso deve se olhar no espelho. Passei a vida me dedicando aos direitos humanos. Sou moderado, liberal, metade de meus casos são gratuitos. Trabalhei de graça para quem precisou. Agora me perseguem e tenho até de andar com seguranças. Tenho cinco. Fascista e extremista é quem diz isso de mim. Escrevi meu livro até para encorajar o debate entre os acadêmicos que defendem a coexistência de dois Estados independentes na Palestina. O problema é que as universidades americanas estão tomadas por professores covardes quando se trata de condenar o terrorismo, que pensam estar ainda nos anos 60 defendendo a política de paz e amor.

Veja – O senhor defenderia Yasser Arafat em um tribunal?
Dershowitz – Jamais aceitaria o dinheiro de Arafat, por nada neste mundo. Mas, se eu fosse o único advogado do mundo para defendê-lo, o defenderia, sem cobrar um tostão. Prefiro vê-lo num tribunal sendo julgado por seus crimes a vê-lo livre e solto. Mas acho que ele nunca me contrataria.

 
 
 
 
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