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Entrevista:
Alan Dershowitz
Guerrilheiro dos tribunais
O
mais célebre advogado americano
diz que os EUA estão torturando prisioneiros,
que Yasser Arafat é criminoso e que os
acadêmicos de seu país são covardes

Gabriela
Carelli
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Stephanie Mitchell/Harvard Univ. News
Office

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"A
senhora Arafat passa o dia sentada em sua luxuosa casa
num subúrbio de Paris. O casal Arafat tem 300 milhões
de dólares na conta"
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As
pessoas que gostam de cinema conhecem o advogado americano Alan
Dershowitz, de 65 anos, na pele do ator Ron Silver no filme O
Reverso da Fortuna, exibido no Brasil nos anos 90. Silver fez
o papel de Dershowitz e o inglês Jeremy Irons o do seu cliente,
o milionário Claus von Bulow, acusado de matar a esposa.
Bulow foi absolvido, e o caso tornou Dershowitz uma celebridade.
Era só o começo de uma carreira que faria dele o mais
famoso advogado dos Estados Unidos. Professor de direito na Universidade
Harvard, Dershowitz esteve à frente de quase todos os casos
de alta exposição na imprensa e na televisão
se não de todos. Dershowitz fez parte do time de defesa
que conseguiu a absolvição do astro de futebol americano
O.J. Simpson, também acusado de matar a ex-mulher a punhaladas.
Defendeu o boxeador Mike Tyson no caso de estupro que o levou à
prisão. Bill Clinton o escolheu para chefiar a equipe de
advogados no processo de impeachment que sofreu no auge do caso
Monica Lewinsky, a estagiária com quem o presidente americano
se envolveu sexualmente na Casa Branca. Nas eleições
presidenciais de 2000, o candidato democrata Al Gore contratou Dershowitz
como seu representante no polêmico caso de contagem de votos
que acabaria levando o republicano George W. Bush à Presidência.
Ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
O senhor está de novo sob os holofotes por ter
defendido a tortura nos casos de investigação de atos
terroristas. Mas tortura é um crime tão hediondo quanto
o terrorismo, não?
Dershowitz
Distorceram minhas palavras. Nunca defendi a tortura. Sou contra
a tortura. O que eu disse é que a tortura vem sendo usada
pelos Estados Unidos em sua luta total contra o terror. O que está
ocorrendo hoje em meu país é um dos piores tipos de
crime de guerra que podem existir, a pior modalidade de combate.
Estamos utilizando métodos brutais de interrogatório
e não estamos admitindo isso publicamente. Diante desse fato,
sugeri que se regularizasse essa prática, de modo que os
interrogatórios possam ser conduzidos da maneira menos cruel
possível. Sugeri isso não por concordar com a tortura,
mas para que a sociedade tenha controle do que está acontecendo
nas prisões onde se encontram os acusados de terrorismo.
Veja
Uma democracia pode tolerar a tortura sem se destruir?
Dershowitz
Em 1995, as autoridades filipinas obtiveram sob tortura a informação
de um terrorista que permitiu desmantelar planos para matar o papa
e derrubar onze jatos comerciais. Mas a democracia não pode
usar métodos comparáveis aos dos governos do Oriente
Médio, que aplicam a tortura nos porões e não
dão satisfação ao povo. Os Estados Unidos são
uma democracia, porém têm agido abusivamente na luta
para acabar com o terror. A tortura e a violação de
liberdades civis por parte dos EUA estão fazendo muito mal
a esse país. Portanto, quero deixar claro que não
fiz apologia da tortura. Defendi outra coisa. A tortura está
sendo utilizada por nossas autoridades, e elas não dão
sinais de que estejam dispostas a parar com essa prática.
Então, que se estabeleçam regras democráticas
para o uso da coerção física nos interrogatórios
de acusados de terrorismo. Esse método só poderia
ser utilizado, a meu ver, com autorização judicial,
e só em casos extremos.
Veja
Nas últimas eleições presidenciais,
o senhor representou o candidato democrata Al Gore no caso da apuração
de fraude eleitoral na Flórida, que acabou sendo decidido
em favor de George W. Bush. Gore teria sido um presidente melhor
que o presidente George Bush?
Dershowitz
Não aprecio as táticas de Bush. Mas não posso
dizer se Al Gore teria se saído melhor na Casa Branca. Com
certeza ele teria projetado para o mundo uma imagem melhor dele
e dos Estados Unidos. Da mesma forma que Bill Clinton o fez. Além
disso, Gore é mais moderado e é alfabetizado. Ele
fala menos e faz mais do que Bush.
Veja
O senhor se celebrizou por defender clientes célebres
e polêmicos como Von Bulow, Mike Tyson e O.J. Simpson. O senhor
faz isso por dinheiro?
Dershowitz
Mais da metade dos meus casos são gratuitos, envolvendo pessoas
sem dinheiro, cuja vida está em perigo. Muitas delas foram
ajudadas por mim quando já se encontravam no corredor da
morte. Mesmo os casos célebres podem não render dinheiro.
Um exemplo foi a defesa do Mike Tyson. Enquanto corria o julgamento,
ele quebrou, e acabou falindo agora. Por isso, nem tentei cobrar
a conta. Em resumo, se me procuram, eu defendo. Se me pagam bem,
melhor.
Veja
Isso ajuda a exemplificar a máxima de que bons
advogados defendem maus clientes?
Dershowitz
Claro. Quanto pior o criminoso, quanto mais hediondo o crime, mais
ele precisa de um bom advogado. Essa é a minha profissão.
Muitos de meus clientes são culpados, mas a civilização
decidiu que é preciso provar a culpa por meio de um julgamento.
A condenação só pode vir depois do julgamento.
Certa vez, defendi um médico da Flórida acusado de
matar sua mulher. Todos me diziam que ele era um facínora.
Era uma pessoa odiada, e dava-se como certo que era culpado. Ocorre
que ele era inocente, totalmente inocente. As provas usadas contra
ele eram falsas. O ensinamento desse caso é que sempre há
a possibilidade de que alguém esteja sendo acusado falsamente.
Mais do que defender ou acusar com brilhantismo, o importante é
que todo o sistema judicial funcione, para que se chegue ou se tente
chegar à verdade.
Veja
Qual foi seu caso mais fácil?
Dershowitz
Entre meus casos célebres, o mais fácil foi o de O.J.
Simpson. A acusação estava tão cheia de falhas
e tão ruim que eles nos deram a vitória em uma bandeja
de prata.
Veja
E o mais difícil?
Dershowitz
O mais difícil sem dúvida foi defender um russo acusado
de traição em plena era soviética. Enfrentei
os tribunais em Moscou, um país então inimigo. Nos
Estados Unidos, o caso mais difícil foi o de Tyson. O júri
claramente queria vê-lo na cadeia. Era de dar pena. Ele é
um rapaz extremamente doce. Implorava para que eu conseguisse livrá-lo
da jaula.
Veja
Doce? Mike Tyson pode ser doce?
Dershowitz
Durante o dia, nas reuniões, era um doce. Mas nunca estive
com ele num quarto sozinho às 3 da manhã para saber
como ele se comporta numa situação dessas.
Veja
Uma pesquisa recente mostrou que os Estados Unidos têm
o maior índice de encarceramento do mundo. Um em cada grupo
de 37 americanos está ou já esteve preso. O que se
pode depreender dessa estatística?
Dershowitz
Várias coisas. A primeira é que nós consideramos
crimes atitudes que em outros países são faltas tidas
como irrelevantes. Por exemplo, o uso de drogas, mesmo as leves,
e certos crimes sexuais. Há Estados aqui em que sexo homossexual
dá cadeia. A lei permite em alguns Estados prender alguém
apenas porque está fumando. Muitos se encontram na cadeia
por coisas que não deveriam ser consideradas crimes mas são.
A segunda é que há muita pobreza e desigualdade neste
país. Se uma em cada 37 pessoas foi para a cadeia, uma em
cinco são afro-americanas. A terceira é a politização
do sistema judiciário. Os políticos aprenderam que
estatísticas de encarceramento ajudam em eleições,
têm apelo. Eles mostram que agiram para reduzir a violência.
Politizamos também o sistema em si. Nossos juízes
e promotores são eleitos. Eles tendem a pedir penas mais
rigorosas para convencer a população de que são
os melhores. Disso resulta que quem rouba um carrinho de golfe pode
passar vinte anos na cadeia. Temos um péssimo sistema de
Justiça nos Estados Unidos.
Veja
O senhor é chamado de "advogado superstar". Sua
vida virou filme. O que o senhor acha da badalação?
Dershowitz
Cresci no Brooklyn. Foi lá que comecei minha carreira, defendendo
gente simples. Nunca pensei que isso fosse acontecer, apesar de
saber que seria advogado. Na América, os advogados por vezes
se tornam famosos. Isso o leva para a televisão, faz de você
capa de revista. Perco minha privacidade. Estou sempre viajando
e em todo lugar as pessoas sabem quem eu sou. Claro que virar filme
é um privilégio. Ron Silver me interpretou muito bem,
fez um ótimo papel como advogado, mas foi péssimo
no basquete. Eu jogo muito melhor que ele.
Veja
Por que o senhor escreveu seu novo livro, The Case
for Israel (em tradução livre, A Favor de Israel)?
Dershowitz A
guerra americana contra o terrorismo ricocheteou e atingiu Israel,
que passou a ser visto como um país criminoso, de métodos
nazistas e a maior barreira para a paz no Oriente Médio.
Isso é uma distorção que precisa ser corrigida.
Sou contra muitas políticas israelenses, como os assentamentos
e as ocupações, e defendo a coexistência de
dois Estados na Palestina. A desinformação chegou
a um ponto em que a opinião pública tem de ser esclarecida
e entender que os judeus não são o diabo de que falam,
mas um povo que está em guerra e que tem o direito de defender
seus cidadãos.
Veja
Nem os ataques terroristas contra Israel parecem atrair
a simpatia do mundo para o país. A que se deve isso?
Dershowitz
Há vários motivos, mas o principal é que as
pessoas estão vendo as coisas de forma muito simplificada.
É fácil acreditar que o terrorismo islâmico
se justifica por causa da pobreza do povo palestino, dominado por
Israel, um país criado a fórceps, que expulsou um
povo de suas terras e conta ainda com o apoio do poderoso império
americano. A realidade não é bem essa. Os palestinos
são pobres e desesperados. Muitos são refugiados,
assim como muitos judeus que começaram a imigrar para Israel
no fim do século XIX. Mas a pobreza e o desespero não
justificam a explosão de crianças em escolas e de
civis em pontos de ônibus. Nada justifica o que está
sendo feito. Se fosse assim tão fácil explicar as
causas do terror, então os grandes terroristas do mundo seriam
os tibetanos, os curdos ou os armênios. O Tibete está
ocupado há muito mais tempo que a Cisjordânia e existem
mais assentamentos de chineses ali do que de judeus na Palestina.
Os tibetanos não matam crianças chinesas nem mandam
as suas para a morte, assim como não as colocam em campos
de treinamento. Eles também não seqüestram aviões
para explodir prédios lotados de pessoas inocentes.
Veja
A justificativa moral é que o terror é a
única arma de que os palestinos dispõem para enfrentar
o poderio bélico de Israel...
Dershowitz
É uma grande mentira. Eles não têm dinheiro?
Então pergunte à senhora Arafat se ela mandaria o
filho explodir como homem-bomba na luta contra a pobreza de seu
povo. A senhora Arafat passa o dia sentada em sua luxuosa casa num
subúrbio de Paris. O casal Arafat tem 300 milhões
de dólares na conta bancária. Isso é desespero?
Quem comanda o terrorismo, quem faz os palestinos acreditar que
eles devem se suicidar para salvar seu povo da opressão é
gente que possui muito dinheiro. Arafat é um dos homens mais
ricos do mundo. O terrorismo não é coisa do povo palestino,
mas uma decisão de sua liderança política.
Os líderes palestinos não querem dois Estados independentes
na região. Eles querem os judeus fora de lá.
Veja
De onde vem a força de Yasser Arafat?
Dershowitz
Ele é um assassino de massa da pior espécie. Ele sabe
como provocar a ira dos israelenses e dessa forma manipula a política
de Israel. A ação de Arafat culminou na eleição
de Ariel Sharon em Israel, um linha-dura que só piorou a
imagem dos judeus perante o mundo. Nunca votaria em Sharon. Sou
contra muitas de suas decisões e condeno os massacres em
que ele se envolveu. Sou a favor da devolução das
terras tomadas dos palestinos. Mas Israel é uma democracia,
e o povo, amedrontado por Arafat, o escolheu. Isso contribuiu para
que Israel ficasse com uma imagem distorcida. Israel está
fazendo o que qualquer país faria numa guerra em defesa de
seu povo. A Jordânia matou muito mais palestinos e ninguém
a culpa.
Veja
O atentado à sede da ONU no Iraque que resultou
na morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello foi um choque
grande para os brasileiros. O senhor acha que as pessoas se sensibilizam
mais para o problema quando o terror ataca um homem público
conhecido e admirado?
Dershowitz
A questão não é essa. As pessoas nunca vão
se sentir vítimas do terror enquanto não perderem
um parente, uma mãe ou um filho num atentado hediondo como
os que se cometem em Israel. Ou como aconteceu no ataque às
torres gêmeas, há dois anos. O que se deve perguntar
é por que esse homem brasileiro foi morto. Ele foi morto
porque o governo brasileiro tem atitudes que encorajam o terrorismo.
Nas votações da ONU, o Brasil sempre votou a favor
dos palestinos. Por que o governo brasileiro nunca votou a favor
dos tibetanos e dos curdos?
Veja
O senhor, que sempre foi um paladino do liberalismo, tem
sido chamado de fascista desde que decidiu escrever sobre os problemas
do Oriente Médio...
Dershowitz
Que coisa hipócrita. Quem diz isso deve se olhar no espelho.
Passei a vida me dedicando aos direitos humanos. Sou moderado, liberal,
metade de meus casos são gratuitos. Trabalhei de graça
para quem precisou. Agora me perseguem e tenho até de andar
com seguranças. Tenho cinco. Fascista e extremista é
quem diz isso de mim. Escrevi meu livro até para encorajar
o debate entre os acadêmicos que defendem a coexistência
de dois Estados independentes na Palestina. O problema é
que as universidades americanas estão tomadas por professores
covardes quando se trata de condenar o terrorismo, que pensam estar
ainda nos anos 60 defendendo a política de paz e amor.
Veja
O senhor defenderia Yasser Arafat em um tribunal?
Dershowitz
Jamais aceitaria o dinheiro de Arafat, por nada neste mundo. Mas,
se eu fosse o único advogado do mundo para defendê-lo,
o defenderia, sem cobrar um tostão. Prefiro vê-lo num
tribunal sendo julgado por seus crimes a vê-lo livre e solto.
Mas acho que ele nunca me contrataria.
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