Edição 1820 . 17 de setembro de 2003

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Em foco: Gustavo Franco
O ocaso do esquerdismo

"Os mercados vão fazendo o movimento
virtuoso na exata
proporção do afastamento
que o governo faz do 'esquerdismo', centavo
por centímetro, bem devagarzinho"

O presidente da República declarou recentemente que nunca se sentiu confortável quando o tomavam como um esquerdista. Com efeito, seu governo nada tem de esquerdista, e não é outro o motivo pelo qual teve sucesso em debelar a ameaça de crise que se impôs, durante o período eleitoral, em boa medida porque se acreditava que teríamos um governo esquerdista, heterodoxo ou de rupturas.

As declarações do presidente são perfeitamente consistentes com a orientação da política econômica e também com as escolhas para a agenda com o Legislativo. Por paradoxal que pareça, diante dessa evidência, fica claro que este é um governo social-democrata light, como o anterior, mas ainda em fase de definições, remoção de tecidos radicais e esclarecimentos.

A interação com o Parlamento na votação das reformas apenas reforça essa impressão, pois é a coalizão governista aí formada que vai, em última instância, dar personalidade ao governo. Na votação da reforma previdenciária, o governo teve 358 votos, oitenta dos quais (22%) do PT e 61 (17%) vindos dos partidos genuinamente de esquerda (PSB, PDT, PC do B, PPS e PV). O chamado "centrão" (PMDB, PTB, PL, PP) forneceu vistosos 152 votos, ou 42% do total, e a oposição (PSDB e PFL) adicionou 62 votos, os mesmos 17% dados pelos esquerdistas "autênticos".

Na votação da reforma tributária, os números sobem para o PT, que agora fornece 87 votos, mas quase nada para os "autênticos", que vão a 62. Como o governo conseguiu um total maior, 378, esse bloco obteve os mesmos 39% do total nas votações das duas reformas. A mudança definidora ocorre com o aumento dos votos dados pelo "centrão", que chegam a 186, ou 49,2% do total, na reforma tributária. Esse aumento mais que compensa a redução dos votos dados pela oposição, que diminui sua contribuição para 39 votos dos 62 anteriores.

Ilustração Ale Setti


O condomínio governista, portanto, tem o "centrão" como sócio majoritário, tal como no governo passado, de modo que o esquerdismo parece condenado a um canto escuro do governo, ou ao desembarque, o que for mais consistente com a maior e imprescindível presença do "centrão" no ministério.

Essas considerações são da maior importância quando o mercado está testando limites, seja para a queda dos juros, seja para a elevação nas bolsas, títulos da dívida externa e risco Brasil. O movimento "virtuoso" que ocorreu das eleições até aqui tem sido espetacular: câmbio e juros para baixo, bolsa furando os 16.000 pontos, o risco Brasil vindo de 2.000 para 700 pontos, tudo na direção correta. E todo esse movimento gerado pela percepção cada vez mais generalizada de que este não é um governo esquerdista.

No mercado, as pessoas se perguntam se esse movimento virtuoso já se esgotou ou se vamos mais adiante. O risco Brasil ainda está num nível muito alto, o mesmo em que andou no ápice da crise da Ásia. Pode perfeitamente chegar a 300 ou 200 pontos, e com isso a bolsa subir bem mais do que já subiu. Os investimentos diretos podem voltar e o dólar derreter, o que permitirá ao Banco Central recompor suas reservas e livrar-se do FMI.

Tudo isso pode ocorrer se o governo continuar no mesmo caminho e se afastar mais e mais desse "esquerdismo", que, como agora sabemos com certeza, sempre incomodou o presidente.

Para as agências de classificação de risco, atores fundamentais na definição do tamanho do risco Brasil, houve uma descoberta fundamental, ainda longe de ser inteiramente confirmada e digerida: a de que a "esquerda" brasileira é como a européia. Se isso é verdade, as avaliações do risco Brasil precisam ser drasticamente melhoradas para refletir o fato de que o Brasil é um país "de centro", onde oposição e situação têm mais ou menos as mesmas agendas, e, portanto, a possibilidade de "rupturas" é remota.

Os mercados podem ser irracionais em muitas ocasiões, mas em outras exibem uma sabedoria estonteante, como no momento atual, em que vão fazendo o movimento virtuoso na exata proporção do afastamento que o governo faz do "esquerdismo", centavo por centímetro, bem devagarzinho.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.comwww.gfranco.com.br)

 
 
 
 
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