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Em
foco: Gustavo Franco
O
ocaso do esquerdismo
"Os
mercados vão fazendo o movimento
virtuoso na exata proporção
do afastamento
que o governo faz do 'esquerdismo', centavo
por centímetro, bem devagarzinho"
O presidente da República declarou recentemente que nunca
se sentiu confortável quando o tomavam como um esquerdista.
Com efeito, seu governo nada tem de esquerdista, e não é
outro o motivo pelo qual teve sucesso em debelar a ameaça
de crise que se impôs, durante o período eleitoral,
em boa medida porque se acreditava que teríamos um governo
esquerdista, heterodoxo ou de rupturas.
As declarações do presidente são perfeitamente
consistentes com a orientação da política econômica
e também com as escolhas para a agenda com o Legislativo.
Por paradoxal que pareça, diante dessa evidência, fica
claro que este é um governo social-democrata light, como
o anterior, mas ainda em fase de definições, remoção
de tecidos radicais e esclarecimentos.
A interação com o Parlamento na votação
das reformas apenas reforça essa impressão, pois é
a coalizão governista aí formada que vai, em última
instância, dar personalidade ao governo. Na votação
da reforma previdenciária, o governo teve 358 votos, oitenta
dos quais (22%) do PT e 61 (17%) vindos dos partidos genuinamente
de esquerda (PSB, PDT, PC do B, PPS e PV). O chamado "centrão"
(PMDB, PTB, PL, PP) forneceu vistosos 152 votos, ou 42% do total,
e a oposição (PSDB e PFL) adicionou 62 votos, os mesmos
17% dados pelos esquerdistas "autênticos".
Na votação da reforma tributária, os números
sobem para o PT, que agora fornece 87 votos, mas quase nada para
os "autênticos", que vão a 62. Como o governo conseguiu
um total maior, 378, esse bloco obteve os mesmos 39% do total nas
votações das duas reformas. A mudança definidora
ocorre com o aumento dos votos dados pelo "centrão", que
chegam a 186, ou 49,2% do total, na reforma tributária. Esse
aumento mais que compensa a redução dos votos dados
pela oposição, que diminui sua contribuição
para 39 votos dos 62 anteriores.
Ilustração Ale Setti
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O condomínio governista, portanto, tem o "centrão"
como sócio majoritário, tal como no governo passado,
de modo que o esquerdismo parece condenado a um canto escuro do
governo, ou ao desembarque, o que for mais consistente com a maior
e imprescindível presença do "centrão" no ministério.
Essas considerações são da maior importância
quando o mercado está testando limites, seja para a queda
dos juros, seja para a elevação nas bolsas, títulos
da dívida externa e risco Brasil. O movimento "virtuoso"
que ocorreu das eleições até aqui tem sido
espetacular: câmbio e juros para baixo, bolsa furando os 16.000
pontos, o risco Brasil vindo de 2.000 para 700 pontos, tudo na direção
correta. E todo esse movimento gerado pela percepção
cada vez mais generalizada de que este não é um governo
esquerdista.
No mercado, as pessoas se perguntam se esse movimento virtuoso já
se esgotou ou se vamos mais adiante. O risco Brasil ainda está
num nível muito alto, o mesmo em que andou no ápice
da crise da Ásia. Pode perfeitamente chegar a 300 ou 200
pontos, e com isso a bolsa subir bem mais do que já subiu.
Os investimentos diretos podem voltar e o dólar derreter,
o que permitirá ao Banco Central recompor suas reservas e
livrar-se do FMI.
Tudo isso pode ocorrer se o governo continuar no mesmo caminho e
se afastar mais e mais desse "esquerdismo", que, como agora sabemos
com certeza, sempre incomodou o presidente.
Para as agências de classificação de risco,
atores fundamentais na definição do tamanho do risco
Brasil, houve uma descoberta fundamental, ainda longe de ser inteiramente
confirmada e digerida: a de que a "esquerda" brasileira é
como a européia. Se isso é verdade, as avaliações
do risco Brasil precisam ser drasticamente melhoradas para refletir
o fato de que o Brasil é um país "de centro", onde
oposição e situação têm mais ou
menos as mesmas agendas, e, portanto, a possibilidade de "rupturas"
é remota.
Os mercados podem ser irracionais em muitas ocasiões, mas
em outras exibem uma sabedoria estonteante, como no momento atual,
em que vão fazendo o movimento virtuoso na exata proporção
do afastamento que o governo faz do "esquerdismo", centavo por centímetro,
bem devagarzinho.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
– www.gfranco.com.br)
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