Edição 1820 . 17 de setembro de 2003

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Carta ao leitor
Comércio é riqueza


AFP

Plenário da OMC em Cancún: esperança para ricos e pobres

A palavra proteção para designar as barreiras tarifárias e outros obstáculos que encarecem ou dificultam as transações comerciais entre os países é um rótulo benigno para uma medida nociva. Uma reportagem da presente edição de VEJA sobre a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) realizada no balneário de Cancún, no México, na semana passada, mostra que há relação direta entre o volume de bens transacionados internacionalmente e o crescimento da riqueza mundial. Nem todo processo de troca produz vencedores e perdedores. No comércio mundial ainda há distorções que premiam uns e punem outros, mas, sempre que ele aumenta, o estoque de riqueza do planeta cresce e há uma diminuição das desigualdades. Portanto, quanto mais "proteção" os países erguerem ao comércio exterior na tentativa de sair vencedores em todas as transações, mais estarão contribuindo para o empobrecimento global.

A globalização econômica iniciada no fim da década de 80 e que teve seu pico no término dos anos 90 foi o mais recente período de aceleração do comércio e de relaxamento de barreiras ao trânsito de produtos e capitais da história. Foi o mais abrangente, mas não foi o único, nem o mais radical. A partir de 1846 e por quase um século, a Inglaterra praticamente aboliu as tarifas de importação. O Japão viveu sem barreiras comerciais durante boa parte do período histórico conhecido como Restauração Meiji (1868­1912). Outro exemplo radical e isolado foi o de Hong Kong nos 156 anos de dominação britânica, terminados em 1997 com a devolução do enclave à China. As experiências de liberação das fronteiras coincidiram nesses países com períodos de grande prosperidade. Não existe, é claro, unanimidade em admitir que a liberalização foi o fator primordial do processo de enriquecimento daqueles países. A noção de que o livre-comércio gera riqueza global, no entanto, é aceito à esquerda e à direita do espectro ideológico. Por isso, há uma torcida generalizada para que os países ricos e os emergentes cheguem a um acordo em Cancún. Se viesse a ocorrer uma súbita e radical liberalização do comércio global, mostra um estudo do Banco Mundial, haveria um aumento anual da renda planetária de quase 300 bilhões de dólares, o que tiraria da pobreza 114 milhões de pessoas até 2015. Embora isso não vá ocorrer em Cancún, qualquer passo nessa direção será muito bem-vindo.

 
 
 
 
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