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Tales
Alvarenga
O silêncio do avestruz
"Para o intelectual de esquerda nesta
era pós-marxista e pós-petista, pensar
dói. Melhor se refugiar no silêncio"
Curiosíssimo ciclo de conferências
está previsto para os próximos dois meses no Rio,
em São Paulo, Belo Horizonte e Salvador. O tema do encontro
é uma confissão de impotência dos participantes.
O ciclo se chama "O silêncio dos intelectuais". Silêncio
dos intelectuais de esquerda diante da auto-implosão e do
funeral do PT, bem entendido. Os deputados interrogam, os jornalistas
denunciam, os acusados mentem na CPI e o cidadão comum balança
a cabeça incrédulo com a quadrilha que o PT organizou
para assaltar o Estado. Já os intelectuais se reúnem
para analisar o silêncio.
Há três tipos de
petistas caricatos e o intelectual de esquerda em geral é
um deles. Esses tipos são o emotivo, o ideológico
e o porquinho Prático. O emotivo é aquele sujeito
de bons sentimentos que votou no PT por acreditar que o Brasil ficaria
melhor num governo Lula. Esse petista está decepcionado.
Sente vergonha daqueles que o viram um dia entusiasmado com a pureza
do Partido dos Trabalhadores.
O petista ideológico é
um tipo que se sentiu fascinado pelo igualitarismo marxista na juventude
e não conseguiu se libertar dessa superstição
anacrônica na vida adulta. Ao contrário do emotivo,
acha que os valores de uma sociedade não se alteram para
melhor apenas com a boa vontade de um partido e da população
que o elegeu. É preciso, acha ele, mudar a própria
natureza da sociedade, expelindo a camada burguesa dominante, para
colocar em seu lugar a vanguarda dos trabalhadores, ou seja, eles
mesmos, os intelectuais de esquerda.
Há, por fim, o porquinho
Prático. Esse já foi emotivo e ideológico,
mas tudo isso acabou amaciado por sua arte de se adaptar à
realidade. São políticos e, como se sabe, nesse aspecto
todos os políticos são iguais. Porquinhos Práticos
são esses integrantes da cúpula do PT que estão
perdendo a cabeça por ter sido pilhados na quadrilha do mensalão.
Para ver como eles pensavam no passado, consulte na internet os
documentos do partido anteriores a 2002. Ou, melhor ainda, examine
os manuais marxistas, leninistas, maoístas e fidelistas usados
pelos professores do Movimento dos Sem Terra para doutrinar as crianças
nos seus acampamentos de lona. A cúpula do PT, com algumas
exceções como Lula, um dia foi assim.
Os que foram para o governo na
caravana lulista perceberam que só teriam chance de chegar
ao poder abrindo mão de seu repertório ideológico.
Trocaram a ideologia pelo poder. E foram com tanta ganância
ao banquete que engoliram de contrapeso alianças com a direita,
a política econômica neoliberal e até mesmo
a tentação de comprar sua permanência no governo
com dinheiro surrupiado do Estado e de "doadores" privados.
Para o puro intelectual de esquerda,
a travessia tem sido bem mais difícil. Por mais esgarçado
que tenha se tornado seu sistema de crenças, depois da conversão
da União Soviética e do Leste Europeu ao capitalismo,
ele ainda se excita em fazer a crítica fácil do neoliberalismo.
O intelectual de esquerda, que em geral é professor de faculdade,
viu desmanchar-se no ar sua última ilusão esquerdista
o governo do PT. Será interessante acompanhar o que
esse personagem dirá no ciclo de conferências "O silêncio
dos intelectuais". Pelo título do encontro, não espere
muita coisa. Para o intelectual de esquerda nesta era pós-marxista
e pós-petista, pensar dói. Melhor se refugiar no silêncio.
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