Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

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Tales Alvarenga
O silêncio do avestruz

"Para o intelectual de esquerda nesta
era pós-marxista e pós-petista, pensar
dói. Melhor se refugiar no silêncio"

Curiosíssimo ciclo de conferências está previsto para os próximos dois meses no Rio, em São Paulo, Belo Horizonte e Salvador. O tema do encontro é uma confissão de impotência dos participantes. O ciclo se chama "O silêncio dos intelectuais". Silêncio dos intelectuais de esquerda diante da auto-implosão e do funeral do PT, bem entendido. Os deputados interrogam, os jornalistas denunciam, os acusados mentem na CPI e o cidadão comum balança a cabeça incrédulo com a quadrilha que o PT organizou para assaltar o Estado. Já os intelectuais se reúnem para analisar o silêncio.

Há três tipos de petistas caricatos e o intelectual de esquerda em geral é um deles. Esses tipos são o emotivo, o ideológico e o porquinho Prático. O emotivo é aquele sujeito de bons sentimentos que votou no PT por acreditar que o Brasil ficaria melhor num governo Lula. Esse petista está decepcionado. Sente vergonha daqueles que o viram um dia entusiasmado com a pureza do Partido dos Trabalhadores.

O petista ideológico é um tipo que se sentiu fascinado pelo igualitarismo marxista na juventude e não conseguiu se libertar dessa superstição anacrônica na vida adulta. Ao contrário do emotivo, acha que os valores de uma sociedade não se alteram para melhor apenas com a boa vontade de um partido e da população que o elegeu. É preciso, acha ele, mudar a própria natureza da sociedade, expelindo a camada burguesa dominante, para colocar em seu lugar a vanguarda dos trabalhadores, ou seja, eles mesmos, os intelectuais de esquerda.

Há, por fim, o porquinho Prático. Esse já foi emotivo e ideológico, mas tudo isso acabou amaciado por sua arte de se adaptar à realidade. São políticos e, como se sabe, nesse aspecto todos os políticos são iguais. Porquinhos Práticos são esses integrantes da cúpula do PT que estão perdendo a cabeça por ter sido pilhados na quadrilha do mensalão. Para ver como eles pensavam no passado, consulte na internet os documentos do partido anteriores a 2002. Ou, melhor ainda, examine os manuais marxistas, leninistas, maoístas e fidelistas usados pelos professores do Movimento dos Sem Terra para doutrinar as crianças nos seus acampamentos de lona. A cúpula do PT, com algumas exceções como Lula, um dia foi assim.

Os que foram para o governo na caravana lulista perceberam que só teriam chance de chegar ao poder abrindo mão de seu repertório ideológico. Trocaram a ideologia pelo poder. E foram com tanta ganância ao banquete que engoliram de contrapeso alianças com a direita, a política econômica neoliberal e até mesmo a tentação de comprar sua permanência no governo com dinheiro surrupiado do Estado e de "doadores" privados.

Para o puro intelectual de esquerda, a travessia tem sido bem mais difícil. Por mais esgarçado que tenha se tornado seu sistema de crenças, depois da conversão da União Soviética e do Leste Europeu ao capitalismo, ele ainda se excita em fazer a crítica fácil do neoliberalismo. O intelectual de esquerda, que em geral é professor de faculdade, viu desmanchar-se no ar sua última ilusão esquerdista – o governo do PT. Será interessante acompanhar o que esse personagem dirá no ciclo de conferências "O silêncio dos intelectuais". Pelo título do encontro, não espere muita coisa. Para o intelectual de esquerda nesta era pós-marxista e pós-petista, pensar dói. Melhor se refugiar no silêncio.

 
 
 
 
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