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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A mesma e triste
direita de sempre
Enquanto a esquerda
entra em
colapso, o outro lado persiste
nos velhos e históricos vícios
Que sucesso! A platéia ria, deleitada,
desvanecia-se com as tiradas do palestrante, embevecia-se com seus
arroubos. Aplaudia, aplaudia. Era o deputado Roberto Jefferson,
apresentando-se num evento da Associação Comercial
de São Paulo. Em princípio, como é de praxe
nos eventos organizados pela entidade, também este seria
realizado em seu próprio auditório. Mas, pelos telefonemas
dos associados, pelo clima de expectativa e pela espécie
de frisson que se adivinhava no ar, os organizadores sentiram, dias
antes, que desta vez o auditório de oitenta lugares seria
modesto demais. Alugaram o de um hotel próximo, o Jaraguá,
que, além de acomodar 280 pessoas sentadas, dispõe
do reforço de uma sala anexa com dois telões e outras
250 poltronas. E não só os lugares sentados foram
todos ocupados, como havia gente de pé, num e noutro ambiente,
a recepcionar o palestrante com o entusiasmo de uma platéia
de adolescentes. Conclusão: a direita brasileira não
tem jeito, mesmo.
Primeiro, antes que o(a) leitor(a) se sinta
desnorteado(a), ou até chocado(a), explique-se o recurso
à palavra "direita". Se a esquerda não tem nenhum
problema em assumir-se como tal, por que a direita tem? Isso não
faz bem à política brasileira. Contribui para disfarçar
tendências e embaralhar o quadro partidário. Na França,
onde se inventaram os conceitos de "esquerda" e "direita", não
existe esse pudor. "Sou de direita", confessa-se, com a mesma naturalidade
com que o outro lado se declara "de esquerda". Os direitistas são
defensores da ordem e do status quo e se orgulham disso. Há
também a extrema-direita, liderada por Jean-Marie Le Pen
e defensora de bandeiras racistas, e esta sim tem adeptos envergonhados,
que jamais dirão em quem votam. Mas o eleitor de Jacques
Chirac não tem problemas em se assumir como de "direita",
nem, antes dele, tinha o eleitor do general De Gaulle.
No Brasil, "direita" é praga. "Esquerda"
é uma qualificação não só aceita
como desejada, "centro-esquerda" também tem potencial para
acolher multidões e "centro" não fica atrás.
Já "direita"... Mais fácil encontrar quem se diga
a serviço de Satanás. Com isso, a balança das
tendências políticas brasileiras as tendências
políticas declaradas, bem entendido apresenta-se
como uma engenhoca defeituosa, grotescamente pensa para um só
lado. É uma pena. Os conceitos de direita e esquerda, por
mais que se procure desvalorizá-los, nestes últimos
tempos, ainda são úteis para marcar posições
e clarear o jogo político.
Também não deve causar espanto
a identificação de uma platéia da Associação
Comercial de São Paulo como "de direita". Pode-se presumir
com segurança que a classe representada nessa entidade comunga,
em sua maioria, dos princípios de ordem, de defesa da liberdade
econômica e da aceitação das desigualdades sociais
que caracteriza, grosso modo, o pensamento direitista. Acrescente-se
que a Associação Comercial de São Paulo foi
presidida durante muitos anos por um político que, embora
tenha tanta ojeriza quanto todos os outros a declarar-se como tal,
construiu toda a carreira como um baluarte da direita o ex-prefeito
e ex-governador Paulo Maluf. Reduto da "esquerda", ou da "centro-esquerda",
é que a Associação Comercial não é.
Se já estamos entendidos que não
é pecado nem ofensa chamar a "direita" de "direita", retomemos
o fio da meada. A direita brasileira não se emenda, mesmo...
Tem a tendência irresistível a deixar-se cativar pelos
políticos de discurso mistificador e reputação
suspeita. Roberto Jefferson é acusado de montar um esquema
de corrupção nos Correios e em outros recantos da
máquina estatal e paraestatal. E, no entanto, é recebido
na Associação Comercial como o herói do momento.
Mais condignamente o receberam os estudantes da Faculdade de Direito
da USP, no mesmo dia com vaias. O fato de ter contribuído
decisivamente para estourar, com suas denúncias, um dos mais
capilares esquemas de corrupção já montados
no país não o redime. O Brasil ficará melhor
no dia em que tiver uma direita decente, que escolha melhor seus
ícones. E que, na questão dos bons costumes, se proponha
a ser melhor do que o outro lado, e não se contente em gozar
um momento delicioso como o atual com o risinho safado de quem diz:
"Viu? Eles são como nós".
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Quem mais fala nas CPIs em curso não
é o depoente nem os inquisidores. É a campainha do
presidente, pedindo silêncio. "É inacreditável",
dizia o senador Delcidio Amaral, de dois em dois minutos, no depoimento
do publicitário Duda Mendonça. Ele sofria como o mestre-escola
diante de uma malta de baderneiros. Já é de desconfiar
que algo não vai bem com um método de trabalho que
permite sessões de dez, doze ou catorze horas. Não
bastasse isso, tem a conversalhada da turma dos fundos e os celulares
que não merecem descanso. A bagunça reinante explica
a razão de tantas perguntas repetitivas. Uns não prestam
atenção nos outros.
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