Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

Índice
Stephen Kanitz
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Auto-retrato
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A mesma e triste
direita de sempre

Enquanto a esquerda entra em
colapso,
o outro lado persiste
nos velhos e históricos vícios

Que sucesso! A platéia ria, deleitada, desvanecia-se com as tiradas do palestrante, embevecia-se com seus arroubos. Aplaudia, aplaudia. Era o deputado Roberto Jefferson, apresentando-se num evento da Associação Comercial de São Paulo. Em princípio, como é de praxe nos eventos organizados pela entidade, também este seria realizado em seu próprio auditório. Mas, pelos telefonemas dos associados, pelo clima de expectativa e pela espécie de frisson que se adivinhava no ar, os organizadores sentiram, dias antes, que desta vez o auditório de oitenta lugares seria modesto demais. Alugaram o de um hotel próximo, o Jaraguá, que, além de acomodar 280 pessoas sentadas, dispõe do reforço de uma sala anexa com dois telões e outras 250 poltronas. E não só os lugares sentados foram todos ocupados, como havia gente de pé, num e noutro ambiente, a recepcionar o palestrante com o entusiasmo de uma platéia de adolescentes. Conclusão: a direita brasileira não tem jeito, mesmo.

Primeiro, antes que o(a) leitor(a) se sinta desnorteado(a), ou até chocado(a), explique-se o recurso à palavra "direita". Se a esquerda não tem nenhum problema em assumir-se como tal, por que a direita tem? Isso não faz bem à política brasileira. Contribui para disfarçar tendências e embaralhar o quadro partidário. Na França, onde se inventaram os conceitos de "esquerda" e "direita", não existe esse pudor. "Sou de direita", confessa-se, com a mesma naturalidade com que o outro lado se declara "de esquerda". Os direitistas são defensores da ordem e do status quo e se orgulham disso. Há também a extrema-direita, liderada por Jean-Marie Le Pen e defensora de bandeiras racistas, e esta sim tem adeptos envergonhados, que jamais dirão em quem votam. Mas o eleitor de Jacques Chirac não tem problemas em se assumir como de "direita", nem, antes dele, tinha o eleitor do general De Gaulle.

No Brasil, "direita" é praga. "Esquerda" é uma qualificação não só aceita como desejada, "centro-esquerda" também tem potencial para acolher multidões e "centro" não fica atrás. Já "direita"... Mais fácil encontrar quem se diga a serviço de Satanás. Com isso, a balança das tendências políticas brasileiras – as tendências políticas declaradas, bem entendido – apresenta-se como uma engenhoca defeituosa, grotescamente pensa para um só lado. É uma pena. Os conceitos de direita e esquerda, por mais que se procure desvalorizá-los, nestes últimos tempos, ainda são úteis para marcar posições e clarear o jogo político.

Também não deve causar espanto a identificação de uma platéia da Associação Comercial de São Paulo como "de direita". Pode-se presumir com segurança que a classe representada nessa entidade comunga, em sua maioria, dos princípios de ordem, de defesa da liberdade econômica e da aceitação das desigualdades sociais que caracteriza, grosso modo, o pensamento direitista. Acrescente-se que a Associação Comercial de São Paulo foi presidida durante muitos anos por um político que, embora tenha tanta ojeriza quanto todos os outros a declarar-se como tal, construiu toda a carreira como um baluarte da direita – o ex-prefeito e ex-governador Paulo Maluf. Reduto da "esquerda", ou da "centro-esquerda", é que a Associação Comercial não é.

Se já estamos entendidos que não é pecado nem ofensa chamar a "direita" de "direita", retomemos o fio da meada. A direita brasileira não se emenda, mesmo... Tem a tendência irresistível a deixar-se cativar pelos políticos de discurso mistificador e reputação suspeita. Roberto Jefferson é acusado de montar um esquema de corrupção nos Correios e em outros recantos da máquina estatal e paraestatal. E, no entanto, é recebido na Associação Comercial como o herói do momento. Mais condignamente o receberam os estudantes da Faculdade de Direito da USP, no mesmo dia – com vaias. O fato de ter contribuído decisivamente para estourar, com suas denúncias, um dos mais capilares esquemas de corrupção já montados no país não o redime. O Brasil ficará melhor no dia em que tiver uma direita decente, que escolha melhor seus ícones. E que, na questão dos bons costumes, se proponha a ser melhor do que o outro lado, e não se contente em gozar um momento delicioso como o atual com o risinho safado de quem diz: "Viu? Eles são como nós".

• • •

Quem mais fala nas CPIs em curso não é o depoente nem os inquisidores. É a campainha do presidente, pedindo silêncio. "É inacreditável", dizia o senador Delcidio Amaral, de dois em dois minutos, no depoimento do publicitário Duda Mendonça. Ele sofria como o mestre-escola diante de uma malta de baderneiros. Já é de desconfiar que algo não vai bem com um método de trabalho que permite sessões de dez, doze ou catorze horas. Não bastasse isso, tem a conversalhada da turma dos fundos e os celulares que não merecem descanso. A bagunça reinante explica a razão de tantas perguntas repetitivas. Uns não prestam atenção nos outros.

 
 
 
 
topovoltar