Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

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Saúde
Um novo bicho-papão

O colesterol alto começa a manifestar-se
na população infantil. Até que ponto isso
é um problema


Giuliana Bergamo


Tarciso Matos

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A vida sedentária, as dietas gordurosas e a obesidade estão fazendo com que doenças típicas de adultos comecem a manifestar-se em crianças e adolescentes. Entre elas está o colesterol alto, uma ameaça à saúde do coração. Como o seu surgimento precoce é um fenômeno verificado nos últimos anos, faltam estudos epidemiológicos mais amplos. Os especialistas tampouco estabeleceram quais os níveis aceitáveis em meninos e meninas – os parâmetros utilizados atualmente são os mesmos aplicados aos adultos: o ideal é ter até 200 miligramas de colesterol por decilitro de sangue. Uma das primeiras pesquisas sobre a incidência da substância na população infantil brasileira foi concluída pelo laboratório Diagnósticos da América Medicina Diagnóstica. O trabalho levantou os exames de sangue de 25.000 crianças de até 12 anos realizados de 2003 para cá. O resultado é que 25% delas apresentavam níveis elevados de colesterol. O dado preocupa, mas deve ser lido com cautela, já que os autores da pesquisa não analisaram a condição clínica dos participantes – um aspecto essencial em se tratando de crianças atendidas num laboratório de análises, e não escolhidas aleatoriamente. O mérito do trabalho está mais em lançar um alerta.

O acúmulo de gordura no sangue das crianças é conseqüência direta da enorme mudança de hábitos ocorrida em todos os níveis sociais. Uma das mais drásticas aconteceu na dieta. Em dez anos, o arroz, o feijão e a salada praticamente desapareceram do prato das crianças brasileiras. Foram substituídos pelos hambúrgueres e batata frita (veja quadro). Com isso, a alimentação ganhou um excesso de gorduras saturadas e de proteínas, o que leva as taxas de colesterol às alturas. Além disso, em decorrência do corre-corre cotidiano, fazer uma refeição deixou de ser um ato controlado pelos pais para transformar-se, na maioria das vezes, numa atividade solitária diante da televisão ou da tela de um computador. "É importantíssimo que as crianças façam pelo menos uma refeição com os pais, para que estes tenham a oportunidade de controlar a alimentação dos pequenos e, assim, orientá-los sobre a importância de uma refeição saudável", diz a pediatra Isabela Giuliano, uma das coordenadoras do Grupo de Estudos em Cardiologia Pediátrica Preventiva da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Partindo do pressuposto, é claro, de que os pais saibam se a comida é saudável ou não.

Contribui ainda para o aumento do colesterol em crianças o sedentarismo. Estima-se que apenas um terço delas pratique mais de meia hora diária de atividades físicas moderadas. Elas deixaram de brincar ao ar livre para ficar na frente da televisão ou do computador. "É essencial que haja uma mudança radical nos hábitos de nossas crianças e adolescentes", diz o cardiologista Abel Pereira, pesquisador do Instituto do Coração, em São Paulo. Essa tarefa, ao contrário do que se crê, é mais fácil do que parece – desde que haja adultos dispostos a empreendê-la. "As crianças têm os hábitos menos arraigados e, portanto, é mais fácil modificá-los", diz a pediatra Isabela Giuliano. O paulistano Philippe Pessoa Sundfeld, de 15 anos, conta não ter sofrido muito para abandonar as frituras e bolachas quando tinha apenas 9 anos e recebeu o diagnóstico de colesterol alto. Apesar de estar no peso adequado, Philippe havia chegado à marca de 258 miligramas de colesterol por decilitro de sangue. A prática diária de esportes, como o basquete, não era suficiente para driblar a herança genética, o que só foi conseguido com a reeducação alimentar. Hoje, o seu colesterol é de 152.

Até os 2 anos, é normal que os níveis de colesterol sejam elevados. Trata-se de uma substância fundamental para a produção de hormônios como o GH, do crescimento. Além do mais, nessa idade, a gordura é muito importante para a formação de uma espécie de capa que recobre cada um dos neurônios, a mielina, sem a qual os impulsos nervosos não seriam transmitidos de uma célula a outra. A falta dele, portanto, pode levar a deficiências no desenvolvimento cognitivo e psicomotor. Mas já se sabe que um quarto das crianças de até 2 anos com colesterol alto apresentará o problema na idade adulta. São elas que preocupam os especialistas. Tanto que o Programa Nacional de Educação sobre Colesterol da Academia Americana de Pediatria preconiza que crianças com parentes de primeiro grau que tiveram doença coronariana antes dos 55 anos de idade devem começar a prevenção e o controle desse mal a partir dos 2 anos.

 



 
 
 
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