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Brasil Recado
para LulaDois líderes, um do PP
e outro do PL, ambos com receio de perder o cargo, ameaçam contar
o que sabem sobre o envolvimento do presidente no mensalão  Alexandre
Oltramari
Celso
Junior/AE
 | Dida
Sampaio/AE
 | A
AMEAÇA DE FALAR TUDO José Janene (à esq.)
e Sandro Mabel: os dois, num jantar, se irritaram com a tentativa do governo de
mudar os líderes e ameaçam – diante de testemunhas – falar da participação do
presidente |
Na semana passada, o presidente
do PL, Valdemar Costa Neto, o único parlamentar, até agora, que
renunciou ao mandato para fugir do julgamento de seus pares, deu entrevista à
revista Época. Nela, o ex-deputado afirmou que o presidente Lula
sabia do acerto financeiro pelo qual o PT deu 10 milhões de reais ao PL
na campanha de 2002 um acerto que, mais tarde, foi honrado com dinheiro
do valerioduto. A entrevista arranha o presidente Lula, mas talvez sua situação
seja até mais grave. Há três semanas, sete deputados reuniram-se
para um jantar em Brasília, e dois deles ameaçaram contar as conversas
que tiveram com Lula sobre o mensalão. A história foi apurada pelo
repórter Alexandre Oltramari, de VEJA, que conversou com três
pessoas que participaram do jantar. A seguir, o relato do repórter:
"Na noite de 26 de julho passado,
uma terça-feira, o líder do governo na Câmara, o petista Arlindo
Chinaglia, fez uma reunião de emergência com a cúpula de quatro
partidos aliados, todos brindados com o capilé do valerioduto. O encontro
ocorreu no apartamento do líder do PP, deputado José Janene. Entre
o início do convescote, por volta das 9 da noite, e o seu fim, em torno
das 2 da madrugada, sete deputados sentaram-se à mesa e um deles
subiu, com sapatos e tudo, em cima do sofá. Era o anfitrião. Desconfiado
de que o presidente Lula manobrava para apeá-lo da liderança do
PP, Janene surtou, trepou no sofá e, de dedo em riste para Chinaglia, mandou
um recado ameaçador ao presidente. 'Avisa àquele f.d.p. que, se
eu perder a liderança, e eu não estou nem falando do meu mandato,
mas só da liderança, eu vou contar tudo', berrou Janene. 'Vou contar
todas as conversas que tive com ele sobre esse caso', completou, referindo-se
aos pagamentos do mensalão. Antes que os presentes digerissem a gravidade
da ameaça, soou outro petardo. 'Eu também', endossou o líder
do PL, o deputado Sandro Mabel. 'Também falei várias vezes com ele
sobre isso', disse, reforçando a ameaça. Ed
Ferreira/AE
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FUJÃO E O ACORDÃO Valdemar, o único que, até
agora, renunciou para fugir da cassação, também queria o acordão – mas não deu
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Já se sabia
que o presidente Lula fora alertado sobre a existência do mensalão
em pelo menos cinco ocasiões, entre fevereiro de 2004 e março passado.
É a primeira vez, porém, que se tem notícia de que Lula pode
ter chegado ao ponto de negociar pessoalmente os pagamentos, tendo, portanto,
se envolvido com o assunto de forma muito mais profunda e mais comprometedora.
Além de Janene, Mabel e Chinaglia, estiveram no jantar o hoje ex-deputado
Valdemar Costa Neto, o líder licenciado do PMDB, José Borba, e os
deputados Nelson Meurer e João Pizzolatti, ambos do PP. Janene, o anfitrião,
abiscoitou pelo menos 4,1 milhões de reais das contas de Marcos Valério
no Banco Rural. Já Mabel é acusado de distribuir entre os deputados
do PL parte dos 10 milhões de reais retirados por Costa Neto, presidente
de seu partido. Apesar das evidências de que estão enlameados no
mensalão, os dois, Janene e Mabel, seguem firmes na liderança de
seus partidos. Celso
Junior/AE
 | RECEITA
DA PIZZA Arlindo Chinaglia, líder do governo na Câmara, chegou com
a receita pronta, mas acabou ouvindo berros e ameaças do deputado José Janene
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A ameaça
de Janene, secundada por Mabel, foi uma reação a um encontro de
Lula com o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, ocorrido na manhã
daquela mesma terça-feira 26 de julho. Nesse encontro, Lula sugeriu a Severino
que era recomendável renovar a elite da base aliada, trocando os líderes
atingidos pelas denúncias. Cordato, Severino prometeu examinar a idéia
e, à tarde, tentou convencer Janene a deixar a liderança do PP
mas esbarrou na oposição irada do deputado. A pelo menos dois interlocutores
com quem conversou naquela terça-feira, Janene avisou que não irá
cair sozinho. À noite, quando cedeu seu apartamento para a reunião,
a idéia era assar uma pizza. A receita: o PL retiraria o pedido de cassação
contra Roberto Jefferson, que, em troca, daria novo depoimento à CPI. Jefferson
diria que fora mal interpretado. Em vez de mensalão, ele diria que o dinheiro
era para pagar dívidas de campanha, corroborando a tese, mais amena, de
que ocorreu apenas um crime eleitoral. Mas, como os líderes não
confiam no governo, e ninguém confia em Roberto Jefferson, o acordo não
vingou. Agora só resta torcer para que Janene e Mabel estejam blefando."
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