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Brasil Molecagem
no Plenário Em meio à crise, o Senado
aprova um aumento do salário mínimo que ameaça o
rigor fiscal e assusta investidores 
Chrystiane Silva e Carina Nucci
Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
 | FESTA
DA OPOSIÇÃO Mobilização uniu de ACM
(ao fundo), do PFL, a Heloísa Helena, do PSOL |
A crise política balançou
os indicadores financeiros na semana passada, mas não o suficiente para
preocupar investidores e empresários. Ainda assim, senadores de oposição
deram sua cota de contribuição para bagunçar os mercados.
Na última quarta-feira, num ato de molecagem parlamentar, o Senado aproveitou-se
da fragilidade política do governo e aprovou a elevação do
salário mínimo de 300 para 384,29 reais. Se aplicado, esse aumento
implicaria um rombo de 16,4 bilhões de reais nas contas públicas
neste ano. É mais do que o total de recursos disponíveis no orçamento
de 2005 para recuperar estradas e construir escolas e hospitais que não
devem passar de 13 bilhões de reais.
O novo mínimo ainda precisa ser aprovado pela Câmara dos Deputados
e, em última instância, pode ser vetado pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, que já o havia elevado para os atuais 300 reais por meio
de medida provisória em maio deste ano. Mas sua aprovação
parcial já é motivo de preocupação. Imaginava-se que
havia entre os parlamentares mais lúcidos do Congresso forte consenso em
torno do rigor fiscal e da definição de uma agenda mínima
de reformas. Ledo engano. O que se viu foi um consenso tresloucado em torno da
proposta dispensável de autoria do senador Antonio Carlos Magalhães.
Um amplo leque de senadores defendeu o novo mínimo, cada um com uma idéia
na cabeça. A esquerdista Heloísa Helena (PSOL), uma das maiores
entusiastas do projeto de ACM, realmente acredita na gastança pública
como alavanca da justiça social. Já os senadores do PSDB, que também
votaram a favor da proposta, parecem mais interessados em constranger o presidente
Lula, que será obrigado a arcar com o custo político de vetá-la
curiosamente, foi o PSDB que moldou o conceito de responsabilidade fiscal
nos anos 90. "O efeito moral dessa medida é devastador", diz Ilan Goldfajn,
sócio-diretor da Gávea Investimentos e ex-diretor do Banco Central.
Jonas Oliveira/Folha Imagem  |
INVERSÃO DE PRIORIDADES
Fila de caminhões no Porto de Paranaguá: o governo não
tem recursos para infra-estrutura | Em
tese ninguém em sã consciência deve ser contrário à
idéia de salários maiores para os trabalhadores brasileiros. Mas,
ao contrário do que sugere a lógica primária, a elevação
do mínimo não aumenta a renda da população pobre.
Provoca enormes distorções na distribuição de renda.
Primeiro, porque empresário nenhum, nem aqui nem em qualquer economia de
mercado do mundo, paga salário de acordo com o que manda o governo, mas
de acordo com a rentabilidade de sua empresa e o nível de oferta de mão-de-obra.
Quando o governo eleva o mínimo, os empresários que não puderem
arcar com o novo salário não hesitarão em demitir funcionários
ou contratá-los de modo informal, sem carteira assinada nem outros benefícios.
Além disso, a maioria dos que ganham um salário mínimo por
mês não é formada por trabalhadores pobres, mas por jovens
estagiários ou recém-formados que acabaram de entrar no mercado
de trabalho. Os pobres ganham menos que o mínimo. Afora isso, mais de 65%
das aposentadorias pagas pelo INSS são corrigidas pelo salário mínimo.
Quando ele sobe, também cresce o gasto da Previdência, que hoje já
consome 13 de cada 100 reais que o país produz.
Ao longo
de dez anos, o Brasil conseguiu consolidar a política macroeconômica
com um regime cambial flutuante, austeridade fiscal e ortodoxia na política
monetária. É esse tripé que tem sustentado os indicadores
econômicos e garantido estabilidade à economia em meio à chuva
de escândalos. "A economia está resistente, os únicos riscos
agora são a paralisação do Congresso ou o populismo fiscal",
avalia o economista José Alexandre Scheinkman, da Universidade Princeton.
A economia real também vai bem. Na semana passada, a balança comercial
registrou o maior superávit semanal deste ano. Enquanto a crise se arrastava,
bancos e empresas divulgaram lucros recordes. Bradesco, Itaú e Unibanco
os três maiores bancos privados do país lucraram quase
6 bilhões de reais, 60% a mais do que no primeiro semestre de 2004. A mineradora
Vale do Rio Doce divulgou um lucro de 5 bilhões de reais aumento
de nada menos que 93%. Diz o economista Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia
Mundial da Fundação Getulio Vargas e ex-presidente do Banco Central:
"Nessa crise o grande teste é resistir à tentação
de aumentar os gastos públicos". |