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Brasil Uma
reforma-tampão Nenhum sistema político
é imune à corrupção, mas o Congresso discute
nesta semana medidas para tornar as campanhas mais baratas e transparentes

Carlos Graieb
Celso Junior/AE  |
CAMPO MINADO
Parlamentares na Câmara dos Deputados: mudanças profundas nas leis
partidárias e eleitorais não devem sair agora |
Em meio à escalada da crise
que envolve o financiamento ilegal de campanhas eleitorais (entre as quais, a
de Lula à Presidência em 2002) e a cooptação de partidos
para a base de apoio ao governo com um "mensalão", a reforma do sistema
político nacional voltou a ser assunto em Brasília na semana passada.
O principal acontecimento foi a apresentação de um projeto de lei
pelo senador Jorge Bornhausen, do PFL de Santa Catarina, visando a limitar os
custos e a ampliar a transparência financeira das campanhas políticas
já nas eleições do ano que vem. Entre outros dispositivos,
o projeto reduz o tempo da propaganda eleitoral, bane os showmícios e cria
tetos para doações. Várias lideranças apóiam
a iniciativa de Bornhausen. Isso abre caminho para que ela seja aprovada no Senado
ainda nesta semana e então enviada à Câmara dos Deputados.
Para ter aplicação em 2006, qualquer mudança nas regras eleitorais
deve ser promulgada até o fim de setembro, um ano antes do pleito. Mas
essa não é a única proposta em discussão.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral,
ministro Carlos Velloso, reuniu uma comissão de juristas para dar forma
a sugestões que serão apresentadas ao Congresso nos próximos
dias, a tempo de encontrar espaço numa nova lei. Entre elas, a criação
de incentivos para as doações legais permitindo o seu desconto
no imposto de renda e punições mais rigorosas para as doações
ilícitas. "As penas para quem faz caixa dois são muito brandas.
Temos de endurecer", diz Velloso. Finalmente, encontra-se na Câmara um velho
projeto de reforma política pronto para ser votado. Mas é improvável
que ele entre em pauta, pois as transformações que propõe,
como o financiamento público exclusivo das campanhas políticas,
são profundas e polêmicas demais.
Num cenário de escândalo como o atual, discutir reformas tem seus
inconvenientes. Mudanças no sistema político-eleitoral poderiam
ser vendidas como parte de uma "agenda positiva". Em seu patético discurso
de sexta-feira passada, quando pediu desculpas à nação, o
presidente Lula defendeu a necessidade das reformas. Gestos como esse, no PT e
no governo, são mais do que hipocrisia. A reforma política já
estava na mesa quando Lula chegou ao Palácio da Alvorada, com cacife de
sobra para promover mudanças que poderiam ter valido já nas eleições
do ano passado. Mas, em vez de mexer nesse vespeiro, ao preço de desagradar
aos partidos pequenos e médios, o governo preferiu comprar deputados.
Também é desonesto transferir
para o sistema partidário e eleitoral toda a culpa por falcatruas arquitetadas
por mandarins políticos. Na frase do especialista em legislação
eleitoral Walter Costa Porto, isso é como transferir para a cama a responsabilidade
pelo adultério que se comete em cima dela. Não há reforma
capaz de criar um ambiente totalmente estéril para o vírus da corrupção.
A idéia de proibir as doações de campanha e instituir o financiamento
puramente público dos partidos e candidatos, por exemplo, pode parecer
um caminho para impedir fraudes e práticas como o caixa dois (ainda que
ao custo estimado de 800 milhões de reais para a União, num pleito
brasileiro de hoje em dia). A experiência internacional mostra, contudo,
que nem uma medida desse tipo é capaz de evitar a explosão de escândalos.
"Estudamos processos eleitorais no mundo todo e jamais conseguimos estabelecer
uma relação direta entre níveis de corrupção
e métodos específicos de financiamento de campanha. Todos os sistemas
têm vulnerabilidades", diz o argentino Daniel Zovatto, um dos diretores
do International Institute for Democracy and Electoral Assistance.
O debate sobre a reforma política é necessário e deve começar
agora, desde que não se transforme numa bandeira empunhada pelo governo
para esconder a crise nem alardeie soluções mágicas. O projeto
do senador Bornhausen, que no momento parece ter chances de prosperar no Congresso,
pode tornar a campanha de 2006 mais barata e mais aberta à fiscalização.
Seu escopo, no entanto, é limitado à questão eleitoral. O
principal ainda fica por pensar de propostas radicais como a do senador
Almeida Lima (PSDB-SE), que reduz em 25% o número de parlamentares brasileiros,
àquelas que dizem respeito à organização dos partidos
e aos métodos de votação e de representação
política no país. |