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Brasil Ele
quer contar tudo O doleiro Toninho da
Barcelona diz que conhece (e quer revelar) o esquema de envio de dinheiro
do PT ao exterior  Policarpo
Junior Luiz
Prado/Luz
 | Alexandre
Taniguchi/A Comarca
 | REVELAÇÕES
QUE VEM DO CÁRCERE Preso em Avaré, no interior
de São Paulo, numa penitenciária de segurança máxima, o doleiro Toninho da Barcelona
escreve aos seus familiares. Conta que sua vida virou um inferno desde que revelou
que conhecia o esquema de remessas de dinheiro do PT ao exterior. Nas cartas,
ele narra maus-tratos na prisão, diz que tem medo de morrer e que nunca depôs
no Congresso por orientação do petista José Mentor | |
De onde saiu o dinheiro que o PT mandou
para o exterior e que pode ter desembarcado na campanha de Lula? A resposta está
numa penitenciária de segurança máxima em Avaré, no
interior de São Paulo. Ali, preso numa cela de castigo, com a cabeça
raspada e 10 quilos mais magro, está o doleiro Antonio Oliveira Claramunt,
o Toninho da Barcelona, considerado o maior do país. Ele quer falar. Em
cartas e contatos mantidos com a família e com seus advogados, Toninho
já mandou dizer que está disposto a depor na CPI dos Correios para
contar o que sabe sobre as remessas clandestinas que operou durante anos para
políticos e partidos, entre eles o PT. E Toninho sabe muito. Sabe inclusive
o nome de pessoas e instituições envolvidas na fraude. Nas cartas
que escreve, às quais VEJA teve acesso, Toninho diz que o PT envia dinheiro
ao exterior desde a preparação da primeira campanha de Lula, em
1989. As remessas se multiplicaram na década de 90 e, desde então,
concentraram-se em duas pontas: no Trade Link Bank, instituição
ligada ao Banco Rural nas Ilhas Cayman, e numa empresa offshore criada no Panamá,
que também funciona como um paraíso fiscal.
Em seu depoimento, o publicitário Duda Mendonça, calçado
por vinte comprovantes de depósitos bancários, mostrou que a maior
parte do dinheiro que recebeu lá fora saiu de uma conta no Trade Link,
em Cayman. Os segredos de Toninho da Barcelona podem mostrar de onde saíram
esses recursos. Os doleiros, normalmente, recebem dinheiro frio no Brasil
das mãos do dono do dinheiro ou de seu representante e se encarregam
de enviá-lo ao exterior por meio de uma cadeia de laranjas. Toninho da
Barcelona afirma saber o nome do responsável pelas transações
entre o PT e o Banco Rural. Nas cartas enviadas à família, o doleiro
dá algumas pistas sobre os caminhos do dinheiro. As informações,
porém, são cifradas para fugir à censura do presídio.
Ele está com medo de morrer, diz-se vítima de uma brutal perseguição
e conta que sua vida virou um inferno desde que surgiu a informação
de que ele operou para o PT. A notícia foi publicada pela primeira vez
pelo jornal O Estado de S. Paulo, em junho passado, reproduzindo uma declaração
do ex-tesoureiro do PPS Rui Vicentini, que afirmou ter ouvido de Barcelona a revelação
sobre a existência de um caixa do PT no exterior. Luiz
Prado/Luz
 | Dida
Sampaio/AE
 | CASO
PARA ANISTIA O advogado Sayeg (à esq.),
que planeja denunciar a situação de seu cliente para a Anistia Internacional,
e Mentor, que nega conhecer o doleiro |
Não
se sabe a amplitude do que Toninho da Barcelona, condenado a 25 anos de prisão
por evasão de divisas, tem a revelar. Mas sabe-se que seus segredos geram
um clima de pânico entre figuras importantes do PT. No dia 24 de junho,
o doleiro pediu autorização para dar uma entrevista. Queria contar
o que sabia. No mesmo dia, eclodiu uma rebelião no Presídio Adriano
Marrey, em Guarulhos, onde o doleiro cumpria pena. Ele foi apontado vagamente
e por uma denúncia anônima como um dos líderes da rebelião
e, como punição, foi transferido para a penitenciária de
segurança máxima de Avaré, onde ocupa uma cela sem chuveiro
e com direito a banho de sol apenas uma vez por semana. É um tanto exótico
que um doleiro, neófito nas lides de um presídio, seja capaz de
liderar uma rebelião muito menos que o faça justamente no
dia em que está recebendo a primeira visita de sua filha de 14 anos, como
foi o caso. Mesmo assim, o diretor de disciplina do presídio, em carta
ao juiz, pediu que Toninho fosse punido com um ano em cela isolada, por tratar-se
de "pessoa de altíssima periculosidade".
No presídio de Avaré, Toninho conta que recebe ameaças de
morte e é vítima de tortura psicológica. É acordado
no meio da madrugada por carcereiros que batem nas grades de sua cela, produzindo
um barulho infernal. "Estou com medo de morrer", já disse. Ele conta que,
depois da transferência para Avaré, recebeu a visita de dois advogados
do PT. Um deles, dizendo-se amigo do deputado José Mentor, do PT de São
Paulo, queria saber se ele tinha mesmo revelações a fazer sobre
remessas do partido. Quando Toninho indagou o que teria a ganhar por responder
à pergunta, um dos emissários anunciou uma charada: "Nós
temos três reis e um ás que podem ajudá-lo a sair daqui".
Não foi a primeira vez que o doleiro e enviados do deputado Mentor se encontraram.
Segundo Toninho, o próprio Mentor articulou para que ele não fosse
à CPI do Banestado, que apurava a remessa ilegal de dinheiro para o exterior.
Toninho diz que Mentor, então relator da CPI do Banestado, temia o alcance
das revelações que o depoente pudesse fazer.
Consultando os arquivos da CPI, constata-se que o doleiro foi intimado a depor
no dia 20 de abril de 2004, mas não compareceu porque recebeu a intimação
apenas duas horas antes da audiência. E ficou tudo por isso mesmo. Ele nunca
apareceu na CPI nem foi convocado de novo. "Houve um estranho afrouxamento na
convocação do Toninho. O relator parecia não ter interesse
no depoimento", acusa o senador Antero Paes de Barros, ex-presidente da CPI do
Banestado. Em seu relatório final, Mentor suprimiu todo o capítulo
que se referia ao Banco Rural, instituição suspeita de participar
do esquema de remessas ilegais para o exterior. Procurado por VEJA, o deputado
José Mentor declarou que não conhece o doleiro Toninho da Barcelona
e que nunca enviou nenhum emissário para conversar com ele. Sobre o depoimento
à CPI que não aconteceu, o parlamentar disse que isso fez parte
de uma estratégia que definiu em comum acordo com a Polícia Federal.
"Toninho da Barcelona é hoje
um preso político", diz Ricardo Sayeg, seu advogado, que pensa, a pedido
da família, em ingressar com uma denúncia na Anistia Internacional.
Sayeg lembra que a situação do doleiro é inusitada dado o
fato de que seu cliente tem curso superior mas nunca conseguiu ser transferido
para uma cela especial, como manda a lei. "Ele está cumprindo 25 anos porque
foi condenado três vezes pelo mesmo crime", diz o advogado. Sayeg não
tem dúvida de que a situação de Toninho se complicou desde
que ele ameaçou contar o que sabe sobre as transferências de dinheiro
de petistas para o exterior. "Ele foi interrogado ilegalmente por nove delegados
da Polícia Federal, sem a minha presença, que sou seu advogado,
e sem comunicação prévia à Justiça." Os representantes
do PT que o visitaram também não tinham autorização
para isso. O criminalista conta ainda que, na prisão, o doleiro foi obrigado
a assinar um estranho documento por meio do qual se responsabilizava por sua integridade
física. "Tenho razões para crer que tudo isso está acontecendo
de maneira orquestrada para evitar que ele conte o que sabe", conclui Sayeg. Com
a palavra, a CPI. |