|
|
Brasil A
agonia de um partido Na semana em que
novas denúncias estarrecedoras sobre o PT levam deputados do partido
às lágrimas, José Dirceu manobra para garantir a
sobrevivência de Delúbio Soares na legenda  Marcelo
Carneiro
Fotos
Ana Araujo; Dida Sampaio/AE; Luludi/Ag. Luz; Joedson Alves/AE; Celso Junior/AE
 | CÚPULA
ESFACELADA Dirceu e seus companheiros: mesmo
com o PT em frangalhos, a velha luta pelo poder |
Enredado em cuecas recheadas de dólares,
malas de dinheiro, empréstimos suspeitos e, agora, depósitos milionários
em paraísos fiscais, o PT caminha agonicamente para o fim. Na quinta-feira
passada, o publicitário Duda Mendonça cravou o que pode ter sido
a estaca mortal no coração do partido ao admitir ter recebido dele,
como pagamento por campanhas eleitorais, 10,5 milhões de reais repassados
via caixa dois para uma offshore nas Bahamas. Enquanto o marqueteiro falava, parlamentares
de estrela vermelha na lapela choravam no plenário da Câmara. Eram
lágrimas de luto por um quase finado partido explodido pela realidade
dos fatos e implodido pelas dinamites que ele mesmo plantou em suas entranhas.
Entre elas: o desprezo pela democracia, a promiscuidade na relação
com o governo e o personalismo do mais notório de seus dirigentes, o ex-ministro
José Dirceu. Há anos,
Dirceu comanda o Campo Majoritário (bolchevique, em russo), facção
que, na briga fratricida de tendências pela hegemonia no partido, até
hoje conseguiu reinar soberana. O Campo Majoritário controla quase 70%
das vagas do Diretório Nacional versão ampliada da Executiva
Nacional, o politburo petista que decide os destinos da legenda. Embora as denúncias
do mensalão tenham derrubado os quatro principais nomes da Executiva, todos
ligados ao Campo Majoritário, seu comandante insiste em não assinar
a rendição. Prova disso foi a performance que exibiu no sábado
6, na reunião do Diretório Nacional em São Paulo. Ignorando
o presidente interino do PT, Tarso Genro, Dirceu, por meio de uma série
de manobras, impediu a aprovação de qualquer medida que significasse
uma punição aos dirigentes e parlamentares petistas envolvidos na
lama do mensalão. Ailton
de Freitas/Ag. O Globo
 | O
SONHO ACABOU As lágrimas dos deputados petistas
na Câmara, depois das revelações de Duda: um partido implodido por seus próprios
dirigentes |
VEJA
ouviu cinco petistas que participaram da reunião do diretório e
reconstituiu a queda-de-braço entre o grupo de Dirceu e as alas da esquerda.
O ex-chefe da Casa Civil não fez uso da palavra, como é de seu costume
nessas reuniões. Manteve uma postura discreta, limitando-se a comandar
rodinhas de, no máximo, duas ou três pessoas. Mas teve participação
decisiva nos três episódios fundamentais da reunião: a recusa
em levar ao Conselho de Ética do partido os dirigentes acusados de envolvimento
no esquema do mensalão, a manutenção da legenda para os parlamentares
apontados como sacadores do valerioduto que renunciarem ao mandato a fim de escapar
da cassação no Congresso e essa nem Lenin ousaria
a não-expulsão de Delúbio Soares, barganhada por uma suspensão
da filiação do ex-tesoureiro, acusado de ser o operador do esquema
do mensalão. Até o último
momento, Dirceu, por meio de interlocutores, tentou negociar com as lideranças
da esquerda do partido uma pena mais branda para Delúbio. Quando ficou
claro que os petistas não abririam mão da expulsão do ex-tesoureiro,
os aliados de Dirceu sob sua orientação passaram a,
deliberadamente, atrasar a reunião. Enquanto isso, dois emissários
do deputado foram à casa de Delúbio para convencê-lo a assinar
uma carta com o pedido de suspensão de sua filiação. A carta
chegou no fim da tarde. Delúbio conseguiu ser suspenso "a pedido" e a expulsão
não foi adiante.
Dida
Sampaio/AE
 | O
HOMEM DO VALERIODUTO Delúbio Soares: apontado
pelos próprios pares como a encarnação do mal, ninguém consegue expulsá-lo
|
Para vencer
batalhas como essa, Dirceu usou toda a maldade acumulada ao longo dos quinze anos
à frente dos principais cargos de direção do partido. Nesse
período, notabilizou-se, entre outras coisas, pelo gosto pela prática
da intimidação. Episódio ocorrido no encontro de sábado
ilustra esse estilo. Em uma conversa com membros do Campo Majoritário,
Dirceu voltou-se para o senador Aloizio Mercadante que, em entrevistas
à imprensa, vinha cobrando punições aos dirigentes do partido
e insinuou que ele deveria administrar melhor seu comportamento. Fez uma
menção velada a alguns outdoors espalhados por São Paulo,
que estamparam o nome do senador. A ameaça surtiu efeito sobre Mercadante.
O senador ajudou a barrar ao menos uma das propostas que desagradavam a Dirceu:
a de que os parlamentares que comprovadamente haviam sacado dinheiro no valerioduto
fossem levados imediatamente ao Conselho de Ética do partido.
Outro elemento, mais prosaico e (demasiadamente) humano, contribuiu para o desmanche
do PT: o deslumbramento de alguns de seus principais representantes, que, diante
do banquete do poder, lançaram-se sobre os pratos como porcos magros. Silvio
"Land Rover" Pereira coroou os 25 anos de serviços prestados ao partido
no constrangedor episódio envolvendo a GDK, empresa prestadora de serviços
ao governo e fornecedora do "presente" recebido pelo ex-secretário-geral
do PT. Delúbio "Charutos Cohiba" Soares e suas fazendas de origem nebulosa,
pela profusão de elementos disponíveis, dispensam comentários,
da mesma forma que o ex-presidente da Câmara, João Paulo "50.000"
Cunha. Hoje, porém, já se sabe que o surgimento do nome de outros
petistas nas listas do valerioduto causou pouca surpresa entre representantes
do partido. O Professor Luizinho, ex-líder do governo na Câmara,
por exemplo, agraciado com 20.000 reais pelo valerioduto, era famoso entre seus
pares pela desenvoltura com que pedia vinhos de quatro dígitos em restaurantes
da capital federal e pela generosidade que exibia durante jantares com companheiros
de legenda. "Fazia questão de pagar a conta de todo mundo, ainda que ela
desse 300 reais por cabeça", lembra um companheiro.
O desmantelamento ético do PT é tamanho que o deputado Paulo Pimenta,
do Rio Grande do Sul, teve de renunciar à vice-presidência da CPI
do Mensalão porque, a mando de Dirceu, divulgou uma lista falsa com os
nomes de 128 políticos de outros partidos que teriam recebido dinheiro
do valerioduto. Uma vergonha, esse PT. Uma vergonha, esse Dirceu.
A derrocada de um partido historicamente identificado com os ideais que ele agora
afronta levou às lágrimas parte de seus representantes. Imagens
de parlamentares como Paulo Rubem Santiago (PT-PE) e Chico Alencar (PT-RJ) chorando
no momento em que Duda Mendonça detalhava o modus operandi oculto da legenda
resumiram o sentimento de petistas e militantes idealistas diante da sucessão
de revelações estarrecedoras acerca do partido e seus dirigentes.
"O golpe político é terrível, mas o golpe pessoal é
muito doloroso também. É duro perceber que, durante todos esses
anos, convivemos com um partido paralelo", disse Santiago.
Há, dentro e fora do PT, quem defenda a esdrúxula tese de que o
fim da legenda represente uma ameaça à democracia brasileira, em
virtude do papel desempenhado pelo PT junto a alguns setores organizados da sociedade.
Trata-se de uma bobagem por dois motivos. O primeiro é que em política
sabe-se não há espaço para o vácuo.
A fila anda e partidos nascem e morrem. Se ainda existe um espaço
importante para a esquerda no espectro político nacional, ele deverá
ser ocupado por outra agremiação. Depois, a democracia não
só nunca dependeu do PT como jamais foi levada a sério por seus
principais dirigentes pelo menos enquanto valor universal. Para os petistas
hoje pegos em flagrante litígio com a lisura, a democracia assim
como a ética jamais foi um fim em si mesmo, mas apenas um meio de
chegar ao poder tem um valor "estratégico". "O PT nunca fez, de
verdade, a conversão que os partidos de esquerda da Europa foram forçados
a fazer, aceitando a democracia representativa e a economia de mercado", diz o
filósofo Denis Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
É possível que a passagem do PT pelo cenário político
brasileiro, portanto, nem sequer deixe um legado digno de respeito. Pelo contrário:
é mais provável que os livros de história se dediquem a contar
às futuras gerações o efeito deletério da oposição
petista na última década, quando o partido tentou barrar propostas
fundamentais para a modernização do Estado brasileiro como
a quebra do monopólio das telecomunicações e a reforma da
Previdência , apenas para retomá-las a partir do primeiro minuto
do governo Lula. Uma semana depois
que tomou posse como novo presidente do partido, Tarso Genro reconheceu que o
PT teve, no poder, um comportamento "um pouco arrogante" e tentou ser "monopolista
da verdade". Algumas semanas convivendo com as entranhas da máquina montada
por Dirceu e seu grupo foram suficientes para convencer o ex-ministro da Educação
da necessidade de subir o tom das autocríticas. Na semana passada, ele
admitiu que o partido se transformou "praticamente em uma extensão do governo",
funcionando "como uma espécie de ministério sem pasta". O reconhecimento
talvez tenha vindo tarde demais. Tarso, agora, tenta juntar os cacos do PT, recorrendo
às alas que foram alijadas da direção do partido pela quadrilha
de Dirceu. Essa turma "limpinha", no entanto, tem um pecado de origem: a falta
de conexão com a realidade, fruto de sua crença messiânica
no socialismo. O PT, sob o comando
de Dirceu, colocou em prática um pragmatismo que conjuga o pior tipo de
patrimonialismo, aquele que "sacramenta" o direito à apropriação
de recursos públicos em benefício privado, com o mais empedernido
leninismo, representado pelo aparelhamento do Estado em favor dos interesses do
partido. Escondidos sob o manto da dicotomia "conservadores versus progressistas",
os petistas que encabeçavam o tal Campo Majoritário espertamente
evitaram a diferenciação que, de fato, interessa no momento de escolher
os que lidarão com o bem público: o que separa a honestidade da
desonestidade, o certo do errado. Felizmente, esse petismo de resultados tem encontro
marcado na lata de lixo da história com outras experiências reais
do ideário marxista. Com
reportagem de Camila Pereira 
|