Edição 1918 . 17 de agosto de 2005

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Brasil
Duda
A verdade que arrasa

O publicitário revela que o PT tinha
caixa dois e dinheiro no exterior – e
desperta o fantasma do impeachment


Otávio Cabral


Celso Junior/AE
FORÇADOS A RECEBER
O publicitário: "O dinheiro era claramente de caixa dois. Mas não tínhamos outra opção"


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Cada vez pior

NESTA EDIÇÃO
Choque de realidade
A agonia de um partido
Ele quer contar tudo
Uma reforma-tampão
Molecagem no Plenário
Recado para Lula

O publicitário Duda Mendonça foi peça decisiva para eleger o presidente Lula e, desde quinta-feira passada, virou peça decisiva para torná-lo um ex-presidente. No depoimento mais revelador prestado até agora à CPI dos Correios, o publicitário falou durante dez horas e contou que parte das despesas de marketing de cinco campanhas eleitorais do PT, incluindo a do presidente Lula, foi paga com dinheiro de caixa dois nas Bahamas, paraíso fiscal do Caribe. Depois do seu depoimento, os principais atores políticos da crise começaram a perder o pudor, pela primeira vez, de falar na palavra mais sensível do momento – impeachment, essa expressão criada na monarquia inglesa do século XIV e que há 200 anos se transformou no que é ainda hoje: o mais radical instrumento democrático para apurar a responsabilidade de um presidente e puni-lo.

As revelações de Duda Mendonça sugerem que a campanha de Lula pode ter sido parcialmente bancada com dinheiro ilegal, e a conseqüência disso é devastadora. Significa dizer que o mais alto mandatário do país pode ter chegado ao Palácio do Planalto valendo-se de operações financeiras clandestinas e fraudulentas. O publicitário contou que cobrou 25 milhões de reais para fazer cinco campanhas do PT: duas em São Paulo (a de José Genoíno ao governo e a de Aloizio Mercadante ao Senado) e duas no Rio de Janeiro (a de Benedita da Silva ao governo e a de Edson Santos ao Senado), além da campanha de Lula. Dos 25 milhões de reais, Duda afirmou que recebeu 10,5 milhões no exterior, sem nota fiscal. Dinheiro frio, clandestino. "O dinheiro era claramente de caixa dois. Nós sabíamos, mas não tínhamos outra opção. Queríamos receber", disse. O publicitário revelou que Marcos Valério lhe pediu que abrisse uma empresa lá fora – ele abriu a Düsseldorf, nas Bahamas –, cuja conta no BankBoston em Miami, na Flórida, passou a receber os depósitos. Duda apresentou vinte comprovantes de depósitos, num total de 5 milhões de reais, feitos entre os dias 23 de abril e 15 de maio de 2003. Nos comprovantes, constata-se que os 5 milhões de reais saíram de quatro bancos: BAC Florida Bank, Banco Rural Europa (que fica em Funchal, na Ilha da Madeira, em Portugal), Israel Discount Bank of New York e, por fim, o principal de todos, Trade Link Bank, aberto no paraíso fiscal das Ilhas Cayman e ligado ao Banco Rural. Só do Trade Link Bank o publicitário recebeu 3,4 milhões de reais.


João Wainer/Folha Imagem
XÔ, BAHAMAS, XÔ
O presidente Lula e Duda, nos bons tempos em que combatiam a corrupção: tem dinheiro saindo pelo ladrão – e pelas Bahamas

Além de envolver a campanha de Lula no balaio da clandestinidade, Duda derruba a tese concebida pelo PT para restringir a roubalheira a um caixa dois eleitoral – crime que, na história jurídica brasileira, jamais levou um culpado à cadeia. Agora, aparecem sonegação fiscal, crime do colarinho branco e formação de quadrilha. O próprio PT, tendo recebido recursos fora do país, o que é proibido pela Lei Orgânica dos Partidos, está sujeito à perda do registro partidário. A descoberta do eixo internacional do esquema contribui, ainda, para derrubar a lorota de que o dinheiro dado a petistas e aliados – 55 milhões de reais, nas contas de Valério – teria vindo de seis empréstimos contraídos nos bancos Rural e BMG. "Já vi dinheiro sujo sair do país para ser lavado no exterior", diz o advogado Murilo da Silva Freire, especialista em direito empresarial e experiente na defesa de acusados de crimes financeiros. Diz ele: "Mas nunca vi dinheiro limpo, legalmente obtido em empréstimo bancário, sair do país de forma clandestina. Só se faz isso com dinheiro ilícito. Acho que, diante da documentação do Duda, Valério se enfiou numa camisa de sete listras".

No dia seguinte ao depoimento de Duda Mendonça, o presidente Lula, pela primeira vez em treze semanas de crise, referiu-se ao assunto num pronunciamento oficial – mas foi uma decepção. Na abertura de uma reunião ministerial na Granja do Torto, o presidente falou por quase dez minutos. Disse: "Eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento". No final, aparentemente falando de improviso, disse que o PT e seu governo deviam pedir desculpas por seus erros, mas não disse quem errou, nem onde errou, nem como errou. E nem carregava na voz aquela inevitável dose de indignação dos traídos. Por trás do discurso de Lula, estava a palavra sensível – o impeachment. Com seu discurso, o presidente tentou espantar o fantasma, mas deu-se o contrário. A oposição endureceu as críticas e passou a falar na possibilidade de um impeachment. O PFL pedirá a abertura de um processo para investigar o caixa dois de Lula, a menos que o procurador-geral da República o faça. "Esse pedido pode ser o início de um processo de impedimento do presidente", diz o senador José Agripino Maia, líder do PFL, que antes resistia a tocar no assunto.


Ana Araujo
PAPEL CONTRA VERBO
Marcos Valério: ele diz que nunca pagou a Duda no exterior, mas só tem sua palavra. Duda apresenta documentos

Um processo de impeachment, embora tenha semelhança com um julgamento jurídico, é sobretudo um processo político. Para que seja instalado, não basta a convicção de que o presidente sabia, omitiu-se ou até participou. É preciso, antes de tudo, que haja uma atmosfera politicamente favorável ao seu julgamento. Até a semana passada, isso não existia. Depois do depoimento de Duda Mendonça, o cenário mudou. Lula ficou ainda menor. O impeachment cresceu. Na Câmara, petistas choravam diante das revelações das Bahamas. Um grupo – 22 deputados e quatro senadores – rebelou-se contra o PT e anunciou que, agora, terá atuação independente. Até o senador Aloizio Mercadante, líder do governo no Senado, disse que pode deixar o PT. E aumentou o coro – de oposicionistas, governistas e petistas – pedindo que Lula falasse ao país, mas ninguém imaginava uma fala tão pífia como foi. Para completar o clima de desalento, saiu uma nova pesquisa do instituto Datafolha. Lula perderia para o tucano José Serra no segundo turno – e com folga de 9 pontos. Pior: 29% dos entrevistados já se declaram favoráveis ao impeachment.

A afirmação de que Lula não sabia de nada está se tornando dramaticamente inócua, pois o volume da roubalheira é tal que sua simples ignorância sobre os fatos já começa a comprometê-lo. O último lance, nesse campo, é a constrangedora dificuldade do presidente em dar uma explicação convincente para o pagamento de uma dívida de 29 000 reais que contraiu no PT em 2002. Na semana passada, depois de quase um mês de dúvidas e silêncios, apareceu uma justificativa, embora absolutamente estranha. O ex-tesoureiro petista Paulo Okamotto, velho amigo de Lula, disse que ele próprio pegou 29 000 reais do seu bolso e pagou a dívida em nome do presidente, já que este entendia que não havia contraído dívida alguma. Okamotto, porém, afirmou que não tem nenhum comprovante de que pagou a dívida e que não avisou Lula de sua generosidade financeira. "Não ia ficar enchendo o saco dele com uma coisa como essa", explicou ele. Pode ser tudo rigorosamente verdadeiro, mas chegou-se ao ponto em que se leva quase um mês para dizer que Lula não sabe que faz dívidas e não sabe quem lhe paga as dívidas. Sabe o quê, então?

Com o envolvimento de Lula em situações dessa natureza, sua imagem está gradualmente se dissolvendo – e, com ela, outros desmontes vão se sucedendo. O PT está em pleno processo de implosão e numa velocidade tamanha que desorienta até seus dirigentes mais bem-intencionados (veja reportagem na pág. 66). O próprio governo do presidente Lula está se desmontando em praça pública, sendo carregado pela crise. Sua base aliada também está igualmente destroçada, depois das evidências irretorquíveis de que funcionava movida a mensalões. Em meio a isso, na semana passada a oposição se sentiu à vontade para fazer uma molecagem. No Senado, os oposicionistas, liderados pelo senador baiano Antonio Carlos Magalhães, resolveram aprovar um aumento para o salário mínimo, elevando-o para 384,29 reais. A decisão é uma estupidez destinada apenas a causar constrangimento ao presidente da República, que terá de vetar o aumento. É um deboche do pedaço irresponsável da oposição, que merece toda a censura da sociedade. Mas é preciso que se reconheça que a oposição irresponsável só debocha de quem pode.

Com reportagem de Camila Pereira

 

 
 
 
 
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