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Brasil Duda
A verdade que arrasa O publicitário revela
que o PT tinha caixa dois e dinheiro no exterior – e desperta o fantasma
do impeachment 
Otávio Cabral
Celso Junior/AE  |
FORÇADOS A RECEBER
O publicitário: "O dinheiro era claramente de caixa dois.
Mas não tínhamos outra opção" |
O publicitário Duda Mendonça foi
peça decisiva para eleger o presidente Lula e, desde quinta-feira passada,
virou peça decisiva para torná-lo um ex-presidente. No depoimento
mais revelador prestado até agora à CPI dos Correios, o publicitário
falou durante dez horas e contou que parte das despesas de marketing de cinco
campanhas eleitorais do PT, incluindo a do presidente Lula, foi paga com dinheiro
de caixa dois nas Bahamas, paraíso fiscal do Caribe. Depois do seu depoimento,
os principais atores políticos da crise começaram a perder o pudor,
pela primeira vez, de falar na palavra mais sensível do momento
impeachment, essa expressão criada na monarquia inglesa do século
XIV e que há 200 anos se transformou no que é ainda hoje: o mais
radical instrumento democrático para apurar a responsabilidade de um presidente
e puni-lo. As revelações
de Duda Mendonça sugerem que a campanha de Lula pode ter sido parcialmente
bancada com dinheiro ilegal, e a conseqüência disso é devastadora.
Significa dizer que o mais alto mandatário do país pode ter chegado
ao Palácio do Planalto valendo-se de operações financeiras
clandestinas e fraudulentas. O publicitário contou que cobrou 25 milhões
de reais para fazer cinco campanhas do PT: duas em São Paulo (a de José
Genoíno ao governo e a de Aloizio Mercadante ao Senado) e duas no Rio de
Janeiro (a de Benedita da Silva ao governo e a de Edson Santos ao Senado), além
da campanha de Lula. Dos 25 milhões de reais, Duda afirmou que recebeu
10,5 milhões no exterior, sem nota fiscal. Dinheiro frio, clandestino.
"O dinheiro era claramente de caixa dois. Nós sabíamos, mas não
tínhamos outra opção. Queríamos receber", disse. O
publicitário revelou que Marcos Valério lhe pediu que abrisse uma
empresa lá fora ele abriu a Düsseldorf, nas Bahamas ,
cuja conta no BankBoston em Miami, na Flórida, passou a receber os depósitos.
Duda apresentou vinte comprovantes de depósitos, num total de 5 milhões
de reais, feitos entre os dias 23 de abril e 15 de maio de 2003. Nos comprovantes,
constata-se que os 5 milhões de reais saíram de quatro bancos: BAC
Florida Bank, Banco Rural Europa (que fica em Funchal, na Ilha da Madeira, em
Portugal), Israel Discount Bank of New York e, por fim, o principal de todos,
Trade Link Bank, aberto no paraíso fiscal das Ilhas Cayman e ligado ao
Banco Rural. Só do Trade Link Bank o publicitário recebeu 3,4 milhões
de reais.
João Wainer/Folha Imagem  |
XÔ, BAHAMAS, XÔ
O presidente Lula e Duda, nos bons tempos em que combatiam a corrupção:
tem dinheiro saindo pelo ladrão e pelas Bahamas | Além
de envolver a campanha de Lula no balaio da clandestinidade, Duda derruba a tese
concebida pelo PT para restringir a roubalheira a um caixa dois eleitoral
crime que, na história jurídica brasileira, jamais levou um culpado
à cadeia. Agora, aparecem sonegação fiscal, crime do colarinho
branco e formação de quadrilha. O próprio PT, tendo recebido
recursos fora do país, o que é proibido pela Lei Orgânica
dos Partidos, está sujeito à perda do registro partidário.
A descoberta do eixo internacional do esquema contribui, ainda, para derrubar
a lorota de que o dinheiro dado a petistas e aliados 55 milhões
de reais, nas contas de Valério teria vindo de seis empréstimos
contraídos nos bancos Rural e BMG. "Já vi dinheiro sujo sair do
país para ser lavado no exterior", diz o advogado Murilo da Silva Freire,
especialista em direito empresarial e experiente na defesa de acusados de crimes
financeiros. Diz ele: "Mas nunca vi dinheiro limpo, legalmente obtido em empréstimo
bancário, sair do país de forma clandestina. Só se faz isso
com dinheiro ilícito. Acho que, diante da documentação do
Duda, Valério se enfiou numa camisa de sete listras".
No dia seguinte ao depoimento de Duda Mendonça, o presidente Lula, pela
primeira vez em treze semanas de crise, referiu-se ao assunto num pronunciamento
oficial mas foi uma decepção. Na abertura de uma reunião
ministerial na Granja do Torto, o presidente falou por quase dez minutos. Disse:
"Eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis
das quais nunca tive conhecimento". No final, aparentemente falando de improviso,
disse que o PT e seu governo deviam pedir desculpas por seus erros, mas não
disse quem errou, nem onde errou, nem como errou. E nem carregava na voz aquela
inevitável dose de indignação dos traídos. Por trás
do discurso de Lula, estava a palavra sensível o impeachment. Com
seu discurso, o presidente tentou espantar o fantasma, mas deu-se o contrário.
A oposição endureceu as críticas e passou a falar na possibilidade
de um impeachment. O PFL pedirá a abertura de um processo para investigar
o caixa dois de Lula, a menos que o procurador-geral da República o faça.
"Esse pedido pode ser o início de um processo de impedimento do presidente",
diz o senador José Agripino Maia, líder do PFL, que antes resistia
a tocar no assunto.
Ana Araujo  |
PAPEL CONTRA VERBO
Marcos Valério: ele diz que nunca pagou a Duda no exterior, mas só
tem sua palavra. Duda apresenta documentos | Um
processo de impeachment, embora tenha semelhança com um julgamento jurídico,
é sobretudo um processo político. Para que seja instalado, não
basta a convicção de que o presidente sabia, omitiu-se ou até
participou. É preciso, antes de tudo, que haja uma atmosfera politicamente
favorável ao seu julgamento. Até a semana passada, isso não
existia. Depois do depoimento de Duda Mendonça, o cenário mudou.
Lula ficou ainda menor. O impeachment cresceu. Na Câmara, petistas choravam
diante das revelações das Bahamas. Um grupo 22 deputados
e quatro senadores rebelou-se contra o PT e anunciou que, agora, terá
atuação independente. Até o senador Aloizio Mercadante, líder
do governo no Senado, disse que pode deixar o PT. E aumentou o coro de
oposicionistas, governistas e petistas pedindo que Lula falasse ao país,
mas ninguém imaginava uma fala tão pífia como foi. Para completar
o clima de desalento, saiu uma nova pesquisa do instituto Datafolha. Lula perderia
para o tucano José Serra no segundo turno e com folga de 9 pontos.
Pior: 29% dos entrevistados já se declaram favoráveis ao impeachment.
A afirmação de que
Lula não sabia de nada está se tornando dramaticamente inócua,
pois o volume da roubalheira é tal que sua simples ignorância sobre
os fatos já começa a comprometê-lo. O último lance,
nesse campo, é a constrangedora dificuldade do presidente em dar uma explicação
convincente para o pagamento de uma dívida de 29 000 reais que contraiu
no PT em 2002. Na semana passada, depois de quase um mês de dúvidas
e silêncios, apareceu uma justificativa, embora absolutamente estranha.
O ex-tesoureiro petista Paulo Okamotto, velho amigo de Lula, disse que ele próprio
pegou 29 000 reais do seu bolso e pagou a dívida em nome do presidente,
já que este entendia que não havia contraído dívida
alguma. Okamotto, porém, afirmou que não tem nenhum comprovante
de que pagou a dívida e que não avisou Lula de sua generosidade
financeira. "Não ia ficar enchendo o saco dele com uma coisa como essa",
explicou ele. Pode ser tudo rigorosamente verdadeiro, mas chegou-se ao ponto em
que se leva quase um mês para dizer que Lula não sabe que faz dívidas
e não sabe quem lhe paga as dívidas. Sabe o quê, então?
Com o envolvimento de Lula em situações
dessa natureza, sua imagem está gradualmente se dissolvendo e, com
ela, outros desmontes vão se sucedendo. O PT está em pleno processo
de implosão e numa velocidade tamanha que desorienta até seus dirigentes
mais bem-intencionados (veja reportagem na pág. 66). O próprio
governo do presidente Lula está se desmontando em praça pública,
sendo carregado pela crise. Sua base aliada também está igualmente
destroçada, depois das evidências irretorquíveis de que funcionava
movida a mensalões. Em meio a isso, na semana passada a oposição
se sentiu à vontade para fazer uma molecagem. No Senado, os oposicionistas,
liderados pelo senador baiano Antonio Carlos Magalhães, resolveram aprovar
um aumento para o salário mínimo, elevando-o para 384,29 reais.
A decisão é uma estupidez destinada apenas a causar constrangimento
ao presidente da República, que terá de vetar o aumento. É
um deboche do pedaço irresponsável da oposição, que
merece toda a censura da sociedade. Mas é preciso que se reconheça
que a oposição irresponsável só debocha de quem pode.
Com reportagem de
Camila Pereira |