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Entrevista:
Bill Clinton O
mundo é das ONGs O ex-presidente
dos Estados Unidos quer ser o campeão do mundo pós-globalização
apostando nas ONGs e descrendo dos políticos
 Euripedes
Alcântara
Mike Segar/Reuters
 | "Quando
alguém se acha dono de toda a verdade e transforma isso em programa político,
esse alguém acha que pode matar quem discorda dele" | |
Bill Clinton entrou com força
na luta para ser o melhor ex-presidente dos Estados Unidos, posto que vem sendo
ocupado por Jimmy Carter. No próximo mês, ele vai sediar em Nova
York a primeira reunião mundial da Clinton Global Initiative (CGI), uma
super-ONG com objetivos grandiosos, como o de promover o crescimento econômico
sem impacto ambiental e conciliar as diferenças religiosas como forma de
acabar com o terrorismo. Aos 59 anos, plenamente recuperado de uma operação
de revascularização cardíaca, Clinton espera juntar quase
1 000 líderes empresariais, trabalhistas e políticos de todo o mundo
em uma reunião em Nova York a ser realizada pelos próximos dez anos,
sempre coincidindo com a cerimônia de abertura dos trabalhos da Assembléia-Geral
da Organização das Nações Unidas. "Não é
um encontro como o de Davos ou da própria ONU, mas um fórum de ativismo
do qual cada participante sairá com uma lista de tarefas a ser cumpridas",
diz o ex-presidente. "Quem não cumprir não voltará no ano
seguinte." Na casa dele e da senadora Hillary Clinton, em Chappaqua, estado de
Nova York, Clinton deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Há duas semanas, enquanto o Exército Republicano
Irlandês (IRA) renunciava ao uso da força depois de 36 anos de guerra,
Londres estava ainda abalada pelo segundo ataque terrorista de origem islâmica.
O que essa coincidência nos ensina sobre o mundo em que vivemos?
Clinton Em primeiro lugar, penso que o IRA renunciou ao uso da força
em parte porque o povo irlandês não quer um futuro violento. Isso
mostra o que uma década de paz pode fazer. Tivemos o cessar-fogo em 1994
e o acordo de paz em 1998. Nesse período a Irlanda do Norte experimentou
um rápido crescimento econômico, e toda a comunidade, não
importam suas diferenças, se sentiu sócia de um só futuro.
Por isso, quando o IRA anunciou a deposição das armas, estava refletindo
a vontade pública. Em segundo lugar pesou o fato de a Irlanda do Norte
ter uma liderança religiosa responsável. O IRA aceitou que sua desmobilização
fosse monitorada não apenas pela comissão internacional que ajudei
a organizar em 1998 mas também por líderes das igrejas Católica
e Protestante. Essa é uma história. O que ocorreu em Londres é
outra. Pelo visto alguns jovens profundamente desiludidos, pessoas que não
se sentiam parte da comunidade e sem futuro, foram influenciados por religiosos
radicais e acabaram seguindo um caminho totalmente diferente. O que a coincidência
nos mostra? Que podemos ter terror globalizado em uma sociedade aberta. Mostra
que a influência religiosa pode ser positiva, mas também negativa.
Quando alguém se acha dono de toda a verdade e transforma isso em programa
político, esse alguém acha que pode matar quem discorda dele. Isso
é o mal. O bem é acreditar que Deus é amor e que é
preciso buscar um caminho pacífico de conciliação das diferenças.
Então, acho que vimos esses dois caminhos, o bom e o mau, acontecendo ao
mesmo tempo quase no mesmo lugar. Vimos não apenas o horror e a morte em
Londres, mas o caminho para um futuro melhor sendo trilhado na Irlanda do Norte.
Veja O terror de
origem religiosa pode ser erradicado? Clinton A coisa mais
importante a meu ver é manter a esperança acesa no coração
das pessoas. Quando se tira a esperança de alguém, tudo o que sobra
é a violência. Pessoas que acordam de manhã sentindo-se plenas,
que têm experiências positivas de vida, seja no trabalho, na comunidade,
seja na escola, não se tornam terroristas. O terrorismo é produto
do isolamento e da sensação de alienação da cultura
que se quer bombardear. A religião pode e deve ser parte importante do
caminho para o futuro comum que queremos construir. A elevação do
padrão de vida nos países pobres é outra.
Veja Elevar os padrões de consumo de centenas de milhões
de pessoas na Ásia e na África não apressaria o esgotamento
dos recursos naturais? Se todos os terráqueos atingissem o mesmo padrão
de consumo dos moradores da Califórnia haveria um colapso ambiental, não?
Clinton A resposta mais curta é sim. Mas a mais longa é
que é possível criar riqueza sem destruir o meio ambiente. Esse
é o grande desafio. Em todo o mundo as reservas de água estão
diminuindo, os solos férteis estão sendo erodidos e a produção
de grãos apresenta tendência de queda. A América do Sul é
uma das poucas regiões do mundo que conseguiram aumentar a produção
de soja e de outros grãos graças à tecnologia e à
abundância de terras férteis. Mas isso é exceção
no mundo. A regra é a escassez de água e de terras cultiváveis.
Portanto, um dos objetivos mais caros da minha iniciativa é encontrar maneiras
de fazer da preservação do meio ambiente um caminho para atingir
a prosperidade econômica. De outra forma, a reação das pessoas,
digamos na China e na Índia, pode ser muito negativa. Elas podem pensar
que a preservação ambiental é uma cilada de americanos e
europeus para impedir o crescimento econômico de seus países. Por
isso temos de incentivar o uso da energia solar, da energia eólica, e ajudar
a popularizar técnicas de cultivo de alta produtividade, que nos auxiliem
a preservar o solo e a água. Assim, as pessoas vão entender que
preservar as torna mais ricas e não mais pobres. Outro efeito benéfico
de elevar o padrão de vida e o consumo das populações nos
é mostrado pelas estatísticas: à medida que os países
se enriquecem, o crescimento populacional diminui de intensidade. Quando se sabe
que o maior impacto populacional do planeta está nos países que
abrigam as grandes reservas florestais, fica clara a importância de ajudá-los
a enriquecer. Veja O
senhor foi para muitos um símbolo do lado positivo do processo de globalização
da economia. Recentemente o senhor disse que o mundo precisa entrar na fase pós-globalização.
Em que consiste essa fase? Clinton A globalização
da economia teve efeitos muito positivos, mas muita gente não se beneficiou.
A única maneira de ampliar esses efeitos benéficos é trazer
para a cena a sociedade civil. Acho que chegou a hora de as organizações
não-governamentais, as empresas, as entidades de trabalhadores e as organizações
internacionais tentarem desenvolver uma política social e ambiental que
esteja à altura dos desafios e oportunidades levantados pela globalização.
O sistema econômico global sozinho não tem como resolver todos os
problemas, nem local nem globalmente. Questões como a degradação
ambiental e o aumento da pobreza e da desigualdade não podem ser enfrentadas
apenas pelas forças de mercado. Portanto, acho pouco realista imaginar
que possamos ter uma economia globalizada sem a contrapartida de uma ação
global social. Minha idéia é basicamente contribuir para a criação
de uma sociedade civil global com parcerias que transcendam as fronteiras nacionais
e regionais. Veja Parece
uma iniciativa muito louvável, mas o senhor não está sendo
otimista demais com os resultados práticos que ela possa trazer? Clinton
Acho que unidos podemos produzir resultados reais em um prazo mais
curto do que se imagina. A sociedade civil global está se expandindo rapidamente
desde o fim do comunismo real. Se você olhar o que aconteceu no mundo desde
a queda do Muro de Berlim, em 1989, verá que três grandes e pouco
celebrados fenômenos estão dando forma ao mundo contemporâneo.
O primeiro é o fato de que pela primeira vez na história mais pessoas
vivem sob governos democráticos do que sob ditaduras. O segundo é
a expansão geométrica da internet. O terceiro é a consolidação
das ONGs como organismos de ação de amplitude mundial.
Veja Tirando o fato de que só em raras ocasiões
as nações democráticas fazem guerra entre si, que outras
oportunidades foram abertas pelo fenômeno que o senhor descreve? Clinton
A explosão do uso da internet como uma ferramenta da cidadania
tem sido vital. Os chineses, por exemplo, usaram a internet para obrigar seu governo
a reconhecer a gravidade da doença conhecida como sars, a gripe asiática,
e tomar as medidas necessárias para impedir o avanço da epidemia.
Depois do terrível tsunami que arrasou o sudeste da Ásia no fim
do ano passado, 30% dos americanos fizeram doações às vítimas.
Metade das doações foi feita via internet.
Veja São dezenas de milhões de pessoas. Isso é
muito interessante... Clinton É inacreditável.
Junte-se a isso a capilaridade das ONGs nos países em desenvolvimento e
nos países ricos e temos um cenário bastante otimista. A explosão
das ONGs vai desde a fundação do Bill Gates, que gasta bilhões
de dólares em tratamentos de saúde na Índia e na África,
até as organizações menores que dão microcrédito
na América Latina, na África e no sul da Ásia. Bem, o que
acho que posso fazer para ajudar é proporcionar a toda essa gente a chance
de focar suas ações de modo que elas se tornem mais efetivas. Espero
criar um ambiente em que líderes empresariais, líderes trabalhistas,
políticos e ONGs possam se sentar juntos e dizer: bem, essas são
as coisas que precisamos começar e terminar no prazo de um ano, essas são
as áreas que achamos vitais para o nosso futuro comum.
Veja Grandes projetos costumam ser muito convidativos para a
ação dos corruptos. O senhor não teme que isso ponha tudo
a perder? Clinton Não é preciso que os projetos
sejam grandes. Eles precisam ser funcionais. O Brasil tem pelo menos dois casos
de sucesso e que podem servir de exemplo para o mundo. Um deles é o programa
de distribuição de medicamento antiviral para portadores de aids.
O medicamento chega até mesmo às populações mais distantes,
inclusive a pacientes indígenas que nem sequer falam português. Isso
é uma coisa extraordinária. Nenhum outro país do mundo tem
um projeto comparável ao do Brasil. Outro programa do qual os brasileiros
podem se orgulhar é aquele em que as mães de famílias pobres
recebem periodicamente uma quantia em dinheiro como incentivo para manter seus
filhos na escola. Acredito que haja diversas maneiras de financiar projetos sem
correr o risco de alimentar a corrupção. Para isso a qualidade das
pessoas é fundamental. Em muitos países do extinto bloco comunista,
existem às vezes vinte ou cinqüenta pessoas realmente capazes no governo
em meio a uma burocracia apodrecida e que não funciona mais. O que podemos
fazer? Identificar as boas pessoas e ajudá-las. Concordo que quando o governo
é desonesto a ajuda equivale a jogar dinheiro no ralo.
Veja A idéia de que algumas boas pessoas no lugar certo
podem fazer a diferença é reconfortante, não? Clinton
Sim. Mesmo em países sem uma governança muito efetiva
existem pessoas desamparadas mas inteligentes que estão conseguindo sobreviver
com tudo conspirando contra elas. Quando uma boa rede de ONGs chega a um lugar
assim, o trabalho delas pode salvar muitas vidas, abrir empresas e promover o
crescimento econômico.
Veja A ajuda que seu governo deu ao Brasil nos anos 90 impediu
que o país quebrasse e fez do senhor a segunda personalidade internacional
mais admirada pelos brasileiros, atrás apenas do papa. O atual presidente
americano, George W. Bush, é visto no Brasil de maneira bem menos lisonjeira.
Como o senhor explica essa diferença de percepção? Clinton
Tenho certeza de que os brasileiros também não concordaram
com todas as decisões que eu tomei como presidente. É impossível
que as pessoas concordem integralmente com as decisões tomadas por um líder
de um país grande e influente como os Estados Unidos, que tem responsabilidades
e interesses em diversas partes do mundo. Mas eu sempre me preocupei em demonstrar
que estava do lado das pessoas e me preocupava com seu bem-estar. Acho que consegui
deixar a imagem de alguém que trabalhou pela construção de
um mundo que fosse melhor para todos. Acredito também que os Estados Unidos
devem estar sempre prontos a ajudar as pessoas quando elas estão dispostas
a fazer a coisa certa. Quando ajudamos o Brasil no fim dos anos 90, o país
caíra vítima de uma crise financeira internacional, quase uma crise
de pânico, pela qual os brasileiros não tinham nenhuma responsabilidade.
Por isso, achamos nosso dever impedir que os brasileiros sofressem com a crise
em um momento em que tinham um bom governo e uma política econômica
correta. Acho que o presidente Bush está aos poucos concordando com esse
tipo de abordagem. Quando mandamos soldados não para lutar numa guerra
mas para ajudar as pessoas depois do tsunami, a aprovação dos Estados
Unidos nos países muçulmanos da Ásia subiu de 36% para 60%.
A idéia predominante deve ser a de que compartilhamos o mesmo planeta e
o mesmo futuro. Portanto, nosso poder e riqueza devem ser usados para ajudar as
pessoas que precisam de nós.
Veja O senhor se imagina voltando à Casa Branca na condição
de "primeiro-marido"? Clinton Não sei nada sobre isso.
Você conhece minha mulher. Tenho muito orgulho dela, que vem fazendo um
trabalho excepcional no Senado americano. Ela vai tentar a reeleição
por Nova York em 2006. Antes de pensar em qualquer outra coisa, ela precisa enfrentar
essa campanha. O que posso dizer é que estou muito feliz com o trabalho
da minha fundação, tentando salvar vidas e resolver problemas. Agradeço
todos os dias pela vida que levo e pelo trabalho político de minha mulher.
Não posso dizer mais nada sobre isso agora. |