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André
Petry O mensalão do aborto
"O
aborto malfeito é uma das principais causas de morte de mulheres no
Brasil. É a terceira causa em São Paulo. Na Bahia, é
a primeira. Ou seja: o aborto não é um direito desejável,
é um direito necessário"
Quando estava de pé, o governo Lula vinha acertando no trato dos chamados
temas sociais: sancionou as pesquisas com células-tronco embrionárias,
distribuiu pílulas do dia seguinte nos postos de saúde, tentou combater
a desigualdade racial nas universidades e sobretudo criou uma comissão
para revisar a antiquada legislação brasileira sobre o aborto. Agora
que está de cócoras, o governo Lula está começando
a vender a alma ao diabo também nos temas sociais. O caso mais recente
está na carta que Lula mandou à cúpula da Igreja Católica
saudando a abertura da assembléia-geral da CNBB, em Indaiatuba, São
Paulo. Todo mundo ficou olhando para os trechos em que Lula diz ter consciência
da "gravidade da crise" e promete apurar tudo "doa a quem doer". Mas o trecho
mais revelador está no sexto parágrafo.
Diz o seguinte: "Quero reafirmar minha posição em defesa da vida
em todos os seus aspectos e em todo o seu alcance. Os debates que a sociedade
brasileira realiza, em sua pluralidade cultural e religiosa, são acompanhados
e estimulados pelo nosso governo, que, no entanto, não tomará nenhuma
iniciativa que contradiga os princípios cristãos". Ou seja: Lula
está dizendo que o governo formou a comissão tripartite para revisar
a Lei do Aborto integrada por respeitáveis representantes do governo,
do Congresso e da sociedade e está deixando o pessoal falar à
vontade, distrair-se com os debates na ilusão de que vai decidir alguma
coisa, mas, na hora H, o governo vai dar as cartas e, em defesa dos "princípios
cristãos", não permitirá a descriminalização
do aborto. A comissão que Lula agora
diz que trabalhou de mentirinha já concluiu sua proposta. É
claríssima: propõe que toda gravidez possa ser interrompida até
a 12ª semana de gestação e não define prazo-limite nos
casos de ameaça à vida da gestante ou de má-formação
fetal incompatível com a vida fora do útero. A proposta é
avançada. É certo que, para ser aprovada, vai atravessar um oceano
de dificuldades, mas o que ninguém esperava é que, já na
largada, fosse desautorizada com uma canelada do presidente da República.
Na carta, Lula trata o aborto como uma questão
moral e religiosa, como se pertencesse à esfera dos "princípios
cristãos", fazendo música para os ouvidos dos bispos. Não,
o aborto é essencialmente uma questão de saúde pública.
O aborto malfeito está entre as principais causas de morte de mulheres
no Brasil (mulheres pobres, é claro, que não têm dinheiro
para recorrer às boas casas do ramo). É a terceira causa de mortalidade
feminina em São Paulo. Na Bahia, é a primeira. O aborto não
é um direito desejável, é um direito necessário.
A intenção de Lula é clara: quer seduzir a CNBB, evitando
que os bispos migrem para a oposição numa hora em que o governo
se desmancha e o próprio presidente se entrega ao exercício diário
de se apequenar diante do país. É negócio, barganha. É
o "mensalão do aborto". É lamentável que milhares de brasileiras
pobres, na maioria seguirão morrendo todos os anos porque
o presidente resolveu adular os bispos. |