
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
A
Scuderie
Le Cocq agradece
O
caso da intervenção que não
houve no Espírito Santo acaba em
desonroso fiasco
para o
governo
Optemos pela hipótese benigna. Imaginemos que nenhum interesse
escuso tenha motivado a decisão do procurador-geral Geraldo Brindeiro
de arquivar o pedido de intervenção federal no Espírito
Santo. Teria sido apenas para evitar um incômodo, aliás enorme
incômodo o majestoso "pepino", seria o caso de dizer, que
representa a intervenção num Estado da federação.
Suponhamos que tenha sido só isso. Pois, ainda assim, já
temos um caso para figurar nos manuais de como o desejo de livrar-se
de um incômodo acaba resultando em escândalo e desmoralização.
"O crime organizado deve estar soltando fogos", comentou o ministro da
Justiça, Miguel Reale Júnior, pouco depois de demitir-se.
O resultado líquido de tal desfecho, independentemente das más
ou das desavisadas intenções que o orientaram, foi esse
mesmo: vitória do crime.
O presidente Fernando Henrique Cardoso, a seis meses do término
do mandato, viu cair-lhe no colo um dos casos mais constrangedores de
seu governo. Recapitulemos os lances principais. Acatando pedido da Ordem
dos Advogados do Brasil, o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana,
órgão que reúne representantes de entidades civis
e do governo, decidiu recomendar a intervenção federal no
Espírito Santo, Estado no qual, já pelo menos desde 1994,
uma série de assassinatos, ameaças de morte, acobertamentos,
investigações abortadas e processos desencaminhados faz
supor a infiltração do crime organizado em múltiplos
ramos do aparelho de Estado. O Conselho, dois dias antes de formalizar
a decisão, convidou Brindeiro para uma reunião. Ele foi,
e elogiou os trabalhos até ali realizados. Disse que o pedido estava
bem embasado, e até sugeriu caminhos que poderiam ajudar a viabilizá-lo.
Isso no dia 2 de julho. Na última segunda-feira, seis dias depois,
o mesmo Brindeiro, a quem caberia encaminhar o processo ao Supremo Tribunal
Federal, resolveu, numa espetacular reviravolta, engavetar o pedido. Como
anunciou a decisão ao sair de audiência no Palácio
do Planalto, tornou o presidente Fernando Henrique sócio dela.
A Assembléia Legislativa do Espírito Santo, como a esta
altura é nacionalmente sabido, tem em sua presidência um
ex-bicheiro confesso, José Carlos Gratz. Contra ele pairam, entre
muitos outros processos, um por homicídio. Exibe-se no Estado,
bela e fagueira, uma Scuderie Le Cocq, organizada sim, senhor
como legítima entidade civil, "sem fins lucrativos". Dela fazem
parte policiais, empresários, políticos e advogados. No
início, contou até com a prestigiosa adesão de magistrados.
Scuderie Le Cocq o leitor sabe o que costuma ser: um outro nome do Esquadrão
da Morte. E Esquadrão da Morte ele também sabe o que é:
uma organização que, paralelamente à prática
de execuções sumárias de bandidos ou supostos bandidos
o que já seria monstruoso , usa seu poder para ela
própria, com mais segurança e desenvoltura, dedicar-se à
bandidagem. Um dossiê da Polícia Federal, de 1999, caracteriza
a Scuderie Le Cocq como "o maior grupo de criminosos organizados de que
se tem notícia no Brasil". O objetivo seria "roubar, traficar,
matar e espalhar o terror".
A CPI do Narcotráfico, instalada na Câmara Federal de 1999
a 2001, viu relação do crime organizado no Espírito
Santo com os cartéis internacionais de traficantes. Em seu relatório
final, sugeriu o indiciamento de 28 pessoas. Não aconteceu nada.
Nunca acontece nada com as denúncias no Espírito Santo.
Para bem entender o caso, não é que Vitória, ou o
Espírito Santo em geral, seja lugar perigoso como São Paulo
ou Rio de Janeiro. O que particulariza sua situação é
que o aparelho de Estado foi infiltrado pelo crime, em alguns de seus
setores, a ponto de confundir-se com ele. Contra tal pano de fundo o governo
federal teve nas mãos a oportunidade de desferir um golpe memorável.
Finalmente, depois de anos de hesitações na área
de segurança pública, articulações tatibitates,
indignações que viravam fumaça e providências
que nada providenciavam, o crime teria a resposta forte que merece. Aleluia!
Não só o Espírito Santo, mas o Brasil todo, pelo
que o caso conteria de exemplo e intimidação, agradeceria.
No entanto...
Fica do episódio uma evidência sobretudo cruel para o presidente:
a de que, nesse setor, falta rumo a seu governo. "Rumo" é palavra
à qual Fernando Henrique devota carinho especial. "Temos rumo",
"Demos um rumo para o Brasil", "O importante é ter rumo", eis alguns
de seus bordões prediletos. Na política econômica,
realmente, goste-se ou não dela, obedeceu-se a um rumo desde o
início, tanto assim que o ministro da Fazenda não mudou.
Já o Ministério da Justiça na semana passada empossava
seu oitavo titular. Cada qual chegou com uma idéia diferente do
que fazer com o ministério. Enfim, quando, com Miguel Reale Júnior,
se acertou o passo com a linha que, de maneira gritante, a dramática
escalada do crime impõe nestes dias, que é toda a ênfase
possível na política de segurança pública,
a experiência não dura mais que três meses, e termina
em melancólico fiasco.
|
|
 |
|
 |

|
 |