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Cantando
com Mr. Broadway
Adaptar um musical
americano para
o português? Esse é um trabalho
para o carioca Claudio Botelho
Marcelo Marthe
Selmy Yassuda
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| Botelho:
musculação e paixão pela atriz Liza Minnelli, a "maravilhosa" |
Em cartaz na capital paulista há um mês, o musical A Bela
e a Fera é um tremendo sucesso. Antes mesmo da estréia,
25.000 pessoas já haviam comprado ingressos para a megaprodução,
que tem a marca da Disney. Suas sete sessões semanais no Teatro
Abril, na região central de São Paulo, têm tido, em
média, mais de 1.400 espectadores. Isso é um feito
e a prova de que está surgindo um mercado cativo para esse gênero
de espetáculo. O efeito mais visível do fenômeno é
o aparecimento de uma nova geração de artistas capazes de
cantar, dançar e atuar com desenvoltura. Para que os atores possam
exibir seus dotes, contudo, há um pré-requisito essencial:
a existência de boas versões em português para as canções
da Broadway. Quem as faz é o carioca Claudio Botelho. Ele traduziu
as músicas de 99% das montagens feitas ultimamente no Brasil. Todos
os grandes espetáculos recentes levam a sua marca: Les Misérables,
O Beijo da Mulher Aranha, Vítor ou Vitória, Company e,
claro, A Bela e a Fera. Musicais da Broadway são o vício
de Botelho. "Conheço as canções mais famosas de trás
para a frente. Na minha opinião, o mundo seria um lugar ainda mais
triste se não existissem maravilhas como O Mágico de
Oz e A Noviça Rebelde", diz.
Depois de viver uma época de ouro entre os anos 50 e 70, as versões
de musicais americanos sumiram dos teatros brasileiros, para só
voltar à tona nos estertores da década de 90. A carreira
de Botelho deslanchou com esse ressurgimento. Aos 37 anos, ele é
um profissional que sempre jogou em várias posições,
como ator, diretor musical, produtor e compositor. Mas seu nome virou
referência mesmo foi na condição de adaptador. Além
de ter domínio da técnica musical e do inglês, Botelho
se vale de outra arma em suas adaptações: o bom senso. "Ele
é criativo, mas sabe respeitar o original", analisa a crítica
Barbara Heliodora.
Botelho
é uma exceção entre os adaptadores brasileiros, que
costumam ser ruins de doer. Incontáveis musicais caíram
no ridículo ao abusar da chamada "tradução branca"
aquela que se baseia apenas no sentido literal das palavras, sem
levar em conta nem as rimas nem o ritmo dos versos. Um exemplo é
o que ocorreu com a obra do alemão Kurt Weill. "Os teatrólogos
de esquerda aboliram as rimas de suas canções para fabricar
um clima de estranheza que nunca existiu. É um crime", ataca Botelho.
O artista também não poupa alguns musicais recentes. Rent?
"Nem sei quem traduziu, mas ficou um lixo." Cazas de Cazuza? "Cazuza
fazia um pop de terceira categoria que não rende nem sequer uma
coletânea em CD, quanto mais um musical." Botelho já foi
convocado às pressas para consertar um estrago. Em O Beijo da
Mulher Aranha, estrelado por Claudia Raia e Miguel Falabella, substituiu
na última hora um conhecido escritor e humorista que não
deu conta da tradução. No caso de A Bela e a Fera, o
adaptador não foi chamado propriamente para apagar um incêndio,
mas trabalhou a toque de caixa. Em apenas quinze dias, ele criou as versões
nacionais de doze das vinte canções do espetáculo
e refez várias das letras restantes, que já haviam sido
utilizadas no desenho animado da Disney.
Botelho hoje desfruta de prestígio e de algum dinheiro.
Selecionado para traduzir Les Misérables, no ano passado,
foi a Londres apresentar pessoalmente as suas versões ao todo-poderoso
produtor Cameron Mackintosh. Pelo trabalho, ganhou 25.000 dólares.
Pouco depois, embolsou 2% do faturamento de Vítor ou Vitória
uma quantia em torno de 100.000 reais. Solteirão e freqüentador
assíduo do Posto 9, em Ipanema, ele pratica musculação
todos os dias. Só interrompe a malhação quando está
no exterior. Botelho viaja três a quatro vezes por ano a Nova York,
para satisfazer seu apetite. Já viu Crazy for You, com música
de George Gershwin, três vezes. Chicago, por sua vez, ele
conferiu em quatro ocasiões. Mas nada o abala tanto quanto os shows
de Liza Minnelli. "Sei que vou dar uma bandeira incrível, mas não
posso negar: sou louco por essa mulher. Liza é maravilhosa", desmancha-se
ele. Morra de inveja, Barbra Streisand.
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