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Uma
grande virada
Mais velho, mais ferino e sem
topete,
Hugh
Grant mostra em
Um Grande Garoto que pode,
sim, ser um ótimo ator
Isabela
Boscov
Divulgação
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| Grant,
com Nicholas Hoult, em Um Grande Garoto |

Veja também |
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O
inglês Hugh Grant é um ator incapaz de sentir ou expressar
emoções profundas isso na opinião do próprio
Hugh Grant. Ele também acha que não transmite lá
muita virilidade e que seu famoso topete é uma piada. Ao natural,
diz, serve de apoio para copos. Aparado, faz com que pareça "uma
jogadora de golfe mal-humorada". Outras definições de Grant
a seu próprio respeito: ele é um devorador de tablóides
mesquinho, que se delicia quando lê que um filme foi mal na bilheteria
ou que um colega foi pego em atitude embaraçosa. Tem um apego constrangedor
às amenidades proporcionadas pela celebridade e nunca deixa de
sentir prazer quando vira à esquerda na porta do avião,
rumo à primeira classe. É uma pessoa superficial e não
tem nenhum evento em sua vida do qual possa garimpar alguma paixão
dramática. Talvez não devesse nem mesmo ser ator, já
que sua versatilidade é discutível e, afinal, entrou nessa
meio de brincadeira. Por outro lado, pondera, ele não tem nenhuma
outra habilidade, e aqueles cheques de 10 milhões de dólares
são fascinantes. Há algo de delicioso no zelo e na imaginação
com que Hugh Grant se encarrega de falar mal de si mesmo, mas certamente
não é o caso de tomá-lo ao pé da letra. Com
Um Grande Garoto (About a Boy, Inglaterra/Estados
Unidos/França, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país,
ele emplaca sua terceira excelente interpretação seguida
em pouco mais de um ano, depois de Trapaceiros, de Woody Allen,
e de O Diário de Bridget Jones. Não por coincidência,
é também a terceira em que Grant, de 41 anos, explora um
veio mais cínico e próximo do canalha algo para que
ele tem um dom natural e portanto nem pode ser considerado prova de talento,
o ator se apressa em frisar.
Em Um Grande Garoto (adaptado do livro homônimo do inglês
Nick Hornby, o mesmo de Alta Fidelidade), Grant é Will Freeman,
um sujeito que está perto dos 40 anos, mas nunca trabalhou um único
dia na vida, graças aos direitos sobre uma canção
natalina de sucesso composta por seu pai. Will não poderia imaginar
um mundo melhor para si mesmo. Não só é solteiro,
como não tem ninguém que dependa nem sequer remotamente
dele. Seu tempo é dividido em unidades de trinta minutos: três
unidades para o almoço, duas para práticas atléticas
(entenda-se bilhar), duas para arrepiar cuidadosamente o cabelo (por exigência
dos diretores, Grant enfrentou a tesoura). Will é também
um consumista assumido e feliz. Como dinheiro não é problema,
tem um carro esporte, um apartamento que parece uma loja de design e todas
as roupas que quiser. O grande interesse de Will é namorar
sempre com a maior brevidade possível, antes que qualquer sinal
de compromisso assome no horizonte. "Sou o centro do meu mundo mesmo.
E daí?", indaga Will, na narração ácida que
acompanha todo o filme e elucida aquilo que o personagem pensa
e que quase sempre é o oposto do que ele diz.
Por acaso, Will descobre que as mães solteiras são as namoradas
ideais, já que têm tanto medo de se comprometer quanto ele.
Para explorar esse filão, ele inventa que tem um filho pequeno
e começa a freqüentar as reuniões de um grupo intitulado
"Pais Solteiros, Juntos Sozinhos". Muito contra a sua vontade, sua vida
se mistura então à do outro protagonista: Marcus, um menino
de 12 anos que tem uma mãe riponga e depressiva (Toni Collette)
e sofre o diabo na escola com as gozações dos colegas. Como
não tem nada a perder, Marcus gruda em Will que descobre
que ter algum tipo de preocupação com alguém além
de si mesmo não é tão desagradável assim.
Espécie de versão igualmente britânica, mas mais ferina
e mais madura, de sucessos anteriores de Grant, como Quatro Casamentos
e Um Funeral e Um Lugar Chamado Notting Hill, o filme traz
na direção o crédito surpreendente dos irmãos
americanos Paul e Chris Weitz a dupla por trás do medonho
American Pie. Um Grande Garoto, contudo, não tem
nenhum vestígio de vulgaridade ou grosseria. Antes o contrário:
é de uma leveza e de um detalhamento dramático apurados,
e desmente as teses de Grant sobre suas limitações
ainda que se decida acreditar nas suas alegações de que
o personagem não passa de uma versão de si mesmo. A tese,
de qualquer forma, é discutível. Desde que se separou da
fervilhante Elizabeth Hurley, Grant é de fato visto com uma companhia
diferente em cada ocasião. Mas continua amicíssimo da ex.
A pedido dela, comprou uma casa vizinha à sua, não dá
sinal de ressentimento por ela acabar de ter tido um filho com outro homem
o milionário americano Steve Bing, que foi a público
mentir que não era o pai da criança , compra roupas
de bebê com ela e sai em sua defesa em todas as ocasiões.
"Hugh continua tão irreverente, amigável e disposto a rir
de si quanto sempre foi. Não posso pensar em elogio maior para
um astro", diz o inglês Richard Curtis, que escreveu os roteiros
de Quatro Casamentos e Notting Hill. Só numa coisa
Grant sempre teve razão: sua cara de bebê era mesmo um empecilho.
Com o rosto mais cavado, o cabelo menos farto e as ruguinhas mais visíveis,
como aparece em Um Grande Garoto, ele finalmente chegou ao ponto
certo. Só não perdeu de todo aquele tique de bater as pálpebras.
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DIVINE
FEZ DE MIM UM HOMEM
O dia de sorte de Hugh Grant chegou em 27 de junho de 1995, quando
a polícia de Los Angeles o pegou em seu carro com a prostituta
Divine Brown que acabara de embolsar 60 dólares para
fazer sexo oral com o ator. Grant foi preso, fichado e se viu no
meio de um furacão de mídia. É provável
que até o fim da vida agüente piadas sobre o episódio.
Mas foi o que o salvou. Graças ao charme e à, digamos,
inocência com que se desculpou no talk-show de Jay Leno, alguns
dias depois, virou um astro muito maior do que filmes medíocres
como Nove Meses, lançado bem nessa ocasião,
poderiam torná-lo. Sem Divine, Grant talvez já tivesse
sido tragado e esquecido por Hollywood. Graças a ela, vai
ser sempre um caso à parte no cinema americano.
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