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Jogo de sombras

O dinheiro move o mundo em
A Taça de Ouro, de Henry James,
mas nada tem um preço claro

Jerônimo Teixeira


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Trecho do livro

O objeto que dá título ao romance é a única coisa de valor conhecido: 15 libras. Pelo menos, essa é a quantia estipulada no início do livro, quando um antiquário de Londres tenta vender a taça de cristal coberta de ouro a uma personagem sem recursos. Quanto ao resto, ficamos na dúvida, e esse detalhe diz muito sobre a sutileza de Henry James (1843-1916). Em A Taça de Ouro (tradução de Alves Calado; Record; 590 páginas; 55 reais), como nos romances de Balzac que James tanto admirava, o dinheiro impulsiona grande parte da ação. Mas as criaturas do escritor americano têm mais compostura do que seus antepassados balzaquianos: nunca revelam seu preço.

Henry James publicou seu último romance, The Outcry, em 1911. Depois renegou o livro, recusando-se a reeditá-lo (seu desejo foi respeitado até este ano, quando a editora Penguin finalmente o relançou). Com isso, A Taça de Ouro, de 1904, é oficialmente o romance final do autor. Seu enredo é relativamente simples. Maggie, filha de Adam Verver, rico industrial e colecionador de arte americano, casa-se com Amerigo, um príncipe italiano falido. Mais tarde, Adam, que era viúvo, tomará Charlotte, amiga pobretona da filha, como esposa. Pai e filha ignoram que seus respectivos cônjuges têm um passado em comum. Sob o abrigo sordidamente confortável dos novos laços matrimoniais, Amerigo e Charlotte vão reavivar seu romance. Na oposição entre o príncipe refinado e os aparentemente ingênuos Verver, delineia-se um tema que o autor já havia explorado em outros romances, especialmente naquele que é considerado sua obra-prima, Retrato de uma Senhora: o confronto entre a corrupção da velha Europa e a inocência americana. James conhecia os dois mundos -- nasceu nos Estados Unidos, educou-se na Europa e fez sua carreira de escritor na Inglaterra.

Não estamos, porém, diante de um folhetim romântico em que o vilão veste preto e o herói nunca perde a moral ou o chapéu. A certa altura, torna-se difícil saber quem está enganando ou manipulando quem. Contribui para esse efeito a magistral técnica (explicada pelo próprio autor em um prefácio que ficou de fora da edição brasileira) com que o romance é composto. A Taça de Ouro é dividido em dois livros. No primeiro, a ação é vista primordialmente da perspectiva do príncipe Amerigo. No segundo, do ponto de vista de Maggie. Essa mudança é ainda mais rica pelas zonas de sombra que James sabe preservar. Não é dito, por exemplo, quanto Adam Verver sabe da traição da esposa ou das manobras da filha. Curiosa omissão, já que ele, em última análise, é quem paga pela festa de todos.

O romancista Thomas Hardy, contemporâneo de James, dizia que ele tinha uma maneira particular de "dizer nada em frases infinitas". A prosa de James é, por contraditório que isso seja, um prazer exasperante. Ele nunca demonstra a menor pressa, decompondo cada afirmação até seu elemento mais insuspeito, analisando cada sentimento em todos os matizes. É uma pena que a tradução de A Taça de Ouro não faça plena justiça a sua qualidade. Os equívocos começam pelo título, que deveria ser A Taça Dourada, e se estendem até algumas aberrações de conjugação verbal. Mas James, reconhecidamente um dos maiores estilistas da língua inglesa, é forte o bastante para resistir a isso. Vale a pena conferir essa obra, que chega ao Brasil pela primeira vez.

 

Faro de colecionador

"Os objetos preciosos representativos, grandes pinturas antigas e outras obras de arte, peças finas e importantes em ouro, prata, esmalte, majólica, marfim, bronze, tinham-se multiplicado durante vários anos em volta dele e envolvido de tal modo todas as faculdades de sua mente, que o instinto, o particular apetite aguçado do colecionador, praticamente servira como base para sua aceitação do pedido de casamento feito pelo príncipe. Acima do fato extraordinário da impressão causada na própria Maggie, o aspirante à mão de sua filha mostrou, de algum modo, as grandes marcas e sinais que ele havia aprendido a procurar em peças de primeira ordem."

Trecho de A Taça de Ouro

 

   
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