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Alerta às
mulheres
Quatro
milhões de brasileiras
fazem terapia de reposição
hormonal. E muitas delas
tomam um remédio condenado
por um estudo americano
Paula Beatriz
Neiva
O maior
estudo sobre terapia de reposição hormonal teve de ser interrompido
três anos antes do previsto. A interrupção foi anunciada
na semana passada por diretores do Instituto Nacional de Saúde
dos Estados Unidos, entidade responsável pelo trabalho. O motivo:
os riscos corridos pelas pacientes ultrapassavam os limites de segurança.
Constatou-se que as mulheres tratadas com comprimidos à base dos
hormônios estrógeno e progesterona vendidos no Brasil
sob o nome de Premelle mostravam-se mais suscetíveis a derrames,
infarto do coração e câncer de mama. O aumento de
casos dessas doenças no universo pesquisado superou pouco o número
inicialmente esperado, mas ainda assim os médicos acharam a quantidade
significativa. Os resultados da pesquisa deveriam ser publicados somente
no fim do mês no Journal of the American Medical Association,
a revista da Associação Médica Americana. Sua
divulgação foi antecipada por causa da preocupação
dos especialistas.
Iniciado
em 1997, o estudo contou com a participação de mais de 16.000
mulheres, com idades entre 50 e 79 anos. O objetivo era investigar os
efeitos do Prempro (nome comercial do Premelle nos Estados Unidos) na
incidência de doenças cardiovasculares, osteoporose e câncer.
Os pesquisadores concluíram que, além de eliminar os sintomas
da menopausa, o tratamento ajuda a proteger os ossos e a prevenir o câncer
de cólon. Tais benefícios, no entanto, não compensam
os riscos. Em primeiro lugar, ao contrário do que se acreditava,
os comprimidos não protegem o coração. Na quantidade
presente no Premelle, a progesterona aumenta a constrição
dos vasos sanguíneos e a quantidade de colesterol ruim no organismo.
Esses fatores dificultam a circulação do sangue e, conseqüentemente,
podem acarretar infartos, derrames e tromboses. Em segundo lugar, verificou-se
que as doses elevadas de progesterona servem de alimento para os tumores
malignos de mama.
A terapia
de reposição hormonal é utilizada em larga escala
desde meados dos anos 60. Tudo começou em 1966, quando o médico
americano Robert Wilson lançou o livro Feminine Forever (Feminina
para Sempre), em que fazia o elogio do estrógeno "O hormônio
capaz de manter a mulher jovem, saudável e atraente". Os especialistas,
porém, não demoraram a perceber que o hormônio aumentava
os índices de câncer de útero entre as suas usuárias.
Com o avanço das pesquisas, o problema foi contornado com a associação
de progesterona ou a utilização mais criteriosa de estrógenos
de acordo com o histórico de cada paciente. Atualmente,
a terapia hormonal pode ser feita com três tipos de estrógeno,
usados isoladamente, ou a partir da combinação deles com
outros quatro tipos de progesterona. As combinações mais
modernas têm dosagens de hormônios menores do que as do Premelle.
Os efeitos de cada método dependem das quantidades e do tempo de
uso. A reposição hormonal pode ser feita também por
meio de adesivos transdérmicos, implantes e géis.
Ao
longo de quase quatro décadas, empreendeu-se uma centena de estudos
sobre os riscos e benefícios da terapia hormonal. Ora a reposição
foi condenada, ora absolvida. A pesquisa interrompida pelo Instituto Nacional
de Saúde dos Estados Unidos é a única que envolveu
milhares de mulheres saudáveis e que contou com métodos
de controle mais rígidos. Apesar de suas dimensões e seriedade,
ela não coloca um ponto final na polêmica em torno do assunto.
"A pesquisa abordou apenas uma entre as várias combinações
de hormônios existentes", relativiza o ginecologista César
Eduardo Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira do Climatério.
Mas o alerta não deve ser subestimado. Nos Estados Unidos, o Prempro
é uma das drogas de reposição hormonal mais utilizadas.
No Brasil, o seu correspondente, o Premelle, é igualmente consumido
em larga escala. Calcula-se que o remédio seja usado por 15% dos
4 milhões de brasileiras que fazem reposição.
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