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Edição 1 760 - 17 de julho de 2002
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Ciro Gomes e os empresários

Em alta nas pesquisas, candidato
discute
seu programa com os banqueiros

Lucila Soares

 
José Paulo Lacerda/AE
Ciro Gomes expõe seu programa na CNI: economia no palco


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A luta para ser o anti-Lula

O candidato Ciro Gomes, da Frente Trabalhista, escreve em seus artigos que "o neoliberalismo é uma ideologia de quinta categoria que nos é vendida como ciência". Ele critica a "passividade do Estado e sua total submissão ao mercado" como principal causa do baixo crescimento do PIB brasileiro. Mesmo assim Ciro não está assustando os empresários. Pelo menos não provoca a mesma reação de pânico que Lula produz em alguns círculos. Até agora, com 18% das intenções de voto nas pesquisas, não se deu ainda o "efeito Ciro" nem banco estrangeiro algum inventou um "cirômetro", como já foi criado um "lulômetro" para medir o risco de o Brasil marchar para o caos caso o petista se eleja presidente da República. Um pouco é adesismo mesmo. "Com os resultados de Ciro nas pesquisas, um monte de gente importante virou Ciro desde criancinha", diz José Carlos Martinez, coordenador da campanha do PTB, um dos partidos da coligação que lançou Ciro candidato.

Desde que voltou de um período de estudos na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Ciro vem se encontrando com banqueiros e empresários em reuniões privadas. Ciro Gomes montou uma lista de sessenta banqueiros, diretores de fundos de pensão e empresários que são grandes investidores. Conforme seus cálculos, eles controlam o equivalente a quase 60% da dívida interna brasileira. O candidato visitou todos. É por meio desses senhores que milhões de brasileiros compraram títulos da dívida que remuneram seus investimentos em fundos e em outras aplicações. Várias das pessoas da lista, especialmente os banqueiros, foram procuradas mais de uma vez pelo candidato. Algumas saíram satisfeitas e convencidas desses encontros. Outras, não. "Certas propostas de Ciro partem do princípio de que a economia funciona no vácuo de laboratório, isolada das crises, das ambições e das suspeições dos credores", diz um banqueiro paulista. Em todos os encontros houve troca de idéias, e ambas as partes se ouviram.

No mês passado, Ciro Gomes teve uma reunião a portas fechadas na Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban). O candidato explicou que sua proposta de alongamento da dívida (que adversários dizem não passar de um eufemismo para "calote") só seria implementada com muita negociação. Roberto Setúbal, presidente do Itaú, lembrou que, no ritmo em que crescem os compromissos financeiros brasileiros, nem o atual aperto de produzir um superávit primário de 3,75% seria suficiente para garantir a estabilidade. Setúbal afirmou que já se fala na necessidade de o país ter um superávit de 5%. Ciro não discordou dos valores, mas disse aos banqueiros que achava difícil que toda a economia fosse feita apenas nos gastos do governo. Também admitiu que não se podem aumentar ainda mais os impostos. Aos interlocutores passou a impressão de que, se não é possível cobrar mais impostos nem cortar gastos sociais, então a solução teria de passar mesmo pelo alongamento da dívida.

"Ele recebeu nota 10 de palco e de conhecimento de economia", declara um banqueiro de investimentos que esteve presente à reunião. "Mas os mais conservadores não saíram convencidos da sinceridade dele na manutenção das conquistas do governo FHC", lembra ele. Um outro banqueiro, mais velho e experiente, preferiu não ir à reunião da Febraban e acredita que isso não afetou em nada sua avaliação do candidato. "Ora, o que vale num candidato é a qualidade das cabeças econômicas e políticas que têm influência sobre ele. O Ciro tem o Tasso Jereissati e o Antonio Carlos Magalhães a seu lado. Isso faz dele uma espécie de PSDB do B. Não tem susto", diz ele. As conversas de Ciro Gomes com os donos nacionais do PIB já foram mais difíceis. O empresário Emerson Kapaz, que migrou do PSDB para o PPS em 1999, lembra que nas primeiras vezes em que tentou articular encontros de seus pares com Ciro Gomes foi mal recebido. "Ele era considerado apenas um radical sem chances na eleição", lembra Kapaz. Agora, mesmo quem continua convencido de que Ciro não é a escolha mais segura do ponto de vista dos interesses da economia de mercado passou a procurá-lo para conferir mais de perto o que ele imagina como solução para os grandes problemas brasileiros. Se as pesquisas estão mostrando que Ciro Gomes empatou com o preferido dos empresários, José Serra, então é preciso ao menos conviver com a possibilidade de que o segundo turno seja diferente daquilo que se imaginava semanas atrás. Essa era a sensação que se colhia na semana passada em alguns escritórios reluzentes do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Como explicar o súbito interesse do empresariado pelo candidato da Frente Trabalhista? Sua subida nas pesquisas explica quase tudo. O candidato também está fazendo sua parte. Em suas aparições públicas e em conversas privadas, tem demonstrado insuspeitada propensão para o diálogo. Ciro Gomes prometeu vezes sem conta que não tomará medidas voluntaristas no terreno econômico, mesmo porque não acha que um político, por mais poderoso que venha a ser, conseguirá fazer mudanças sozinho. O candidato petista, Luís Inácio Lula da Silva, comprometeu-se também a não quebrar contratos. Lula garantiu que respeitará os compromissos assinados com credores e que não lhe passa pela cabeça dar calote nas dívidas interna e externa. Por ser o candidato de um partido que já pregara o oposto, a conversão de Lula não convenceu toda a platéia. Para alguns, não existe leão vegetariano, conforme a metáfora que se criou para definir ironicamente a nova posição dos petistas. Com Ciro, a desconfiança tem sido muitíssimo menor, embora ele se tenha referido à negociação da dívida interna como um dos pontos de sua plataforma política. "Negociação voluntária", esclarece o candidato da Frente Trabalhista. "Trata-se de oferecer juros mais altos a quem aceitar títulos de vencimento mais longo, como ocorre rotineiramente no mercado", completa Ciro. "O mercado parece estar apostando que Ciro é de direita, que se ganhar irá ficar só com o PFL e refazer a aliança clássica com o PMDB", diz Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da consultoria Tendências. Mailson acredita que a aposta é muito arriscada.

 
 
   
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