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Ciro
Gomes e os empresários
Em alta nas pesquisas, candidato
discute
seu programa com os banqueiros
Lucila Soares
José Paulo Lacerda/AE
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| Ciro
Gomes expõe seu programa na CNI: economia no palco |

Veja também |
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O
candidato Ciro Gomes, da Frente Trabalhista, escreve em seus artigos que
"o neoliberalismo é uma ideologia de quinta categoria que nos é
vendida como ciência". Ele critica a "passividade do Estado e sua
total submissão ao mercado" como principal causa do baixo crescimento
do PIB brasileiro. Mesmo assim Ciro não está assustando
os empresários. Pelo menos não provoca a mesma reação
de pânico que Lula produz em alguns círculos. Até
agora, com 18% das intenções de voto nas pesquisas, não
se deu ainda o "efeito Ciro" nem banco estrangeiro algum inventou um "cirômetro",
como já foi criado um "lulômetro" para medir o risco de o
Brasil marchar para o caos caso o petista se eleja presidente da República.
Um pouco é adesismo mesmo. "Com os resultados de Ciro nas pesquisas,
um monte de gente importante virou Ciro desde criancinha", diz José
Carlos Martinez, coordenador da campanha do PTB, um dos partidos da coligação
que lançou Ciro candidato.
Desde que voltou de um período de estudos na Universidade Harvard,
nos Estados Unidos, Ciro vem se encontrando com banqueiros e empresários
em reuniões privadas. Ciro Gomes montou uma lista de sessenta banqueiros,
diretores de fundos de pensão e empresários que são
grandes investidores. Conforme seus cálculos, eles controlam o
equivalente a quase 60% da dívida interna brasileira. O candidato
visitou todos. É por meio desses senhores que milhões de
brasileiros compraram títulos da dívida que remuneram seus
investimentos em fundos e em outras aplicações. Várias
das pessoas da lista, especialmente os banqueiros, foram procuradas mais
de uma vez pelo candidato. Algumas saíram satisfeitas e convencidas
desses encontros. Outras, não. "Certas propostas de Ciro partem
do princípio de que a economia funciona no vácuo de laboratório,
isolada das crises, das ambições e das suspeições
dos credores", diz um banqueiro paulista. Em todos os encontros houve
troca de idéias, e ambas as partes se ouviram.
No mês passado, Ciro Gomes teve uma reunião a portas fechadas
na Federação Brasileira das Associações de
Bancos (Febraban). O candidato explicou que sua proposta de alongamento
da dívida (que adversários dizem não passar de um
eufemismo para "calote") só seria implementada com muita negociação.
Roberto Setúbal, presidente do Itaú, lembrou que, no ritmo
em que crescem os compromissos financeiros brasileiros, nem o atual aperto
de produzir um superávit primário de 3,75% seria suficiente
para garantir a estabilidade. Setúbal afirmou que já se
fala na necessidade de o país ter um superávit de 5%. Ciro
não discordou dos valores, mas disse aos banqueiros que achava
difícil que toda a economia fosse feita apenas nos gastos do governo.
Também admitiu que não se podem aumentar ainda mais os impostos.
Aos interlocutores passou a impressão de que, se não é
possível cobrar mais impostos nem cortar gastos sociais, então
a solução teria de passar mesmo pelo alongamento da dívida.
"Ele
recebeu nota 10 de palco e de conhecimento de economia", declara um banqueiro
de investimentos que esteve presente à reunião. "Mas os
mais conservadores não saíram convencidos da sinceridade
dele na manutenção das conquistas do governo FHC", lembra
ele. Um outro banqueiro, mais velho e experiente, preferiu não
ir à reunião da Febraban e acredita que isso não
afetou em nada sua avaliação do candidato. "Ora, o que vale
num candidato é a qualidade das cabeças econômicas
e políticas que têm influência sobre ele. O Ciro tem
o Tasso Jereissati e o Antonio Carlos Magalhães a seu lado. Isso
faz dele uma espécie de PSDB do B. Não tem susto", diz ele.
As conversas de Ciro Gomes com os donos nacionais do PIB já foram
mais difíceis. O empresário Emerson Kapaz, que migrou do
PSDB para o PPS em 1999, lembra que nas primeiras vezes em que tentou
articular encontros de seus pares com Ciro Gomes foi mal recebido. "Ele
era considerado apenas um radical sem chances na eleição",
lembra Kapaz. Agora, mesmo quem continua convencido de que Ciro não
é a escolha mais segura do ponto de vista dos interesses da economia
de mercado passou a procurá-lo para conferir mais de perto o que
ele imagina como solução para os grandes problemas brasileiros.
Se as pesquisas estão mostrando que Ciro Gomes empatou com o preferido
dos empresários, José Serra, então é preciso
ao menos conviver com a possibilidade de que o segundo turno seja diferente
daquilo que se imaginava semanas atrás. Essa era a sensação
que se colhia na semana passada em alguns escritórios reluzentes
do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Como explicar o súbito interesse do empresariado pelo candidato
da Frente Trabalhista? Sua subida nas pesquisas explica quase tudo. O
candidato também está fazendo sua parte. Em suas aparições
públicas e em conversas privadas, tem demonstrado insuspeitada
propensão para o diálogo. Ciro Gomes prometeu vezes sem
conta que não tomará medidas voluntaristas no terreno econômico,
mesmo porque não acha que um político, por mais poderoso
que venha a ser, conseguirá fazer mudanças sozinho. O candidato
petista, Luís Inácio Lula da Silva, comprometeu-se também
a não quebrar contratos. Lula garantiu que respeitará os
compromissos assinados com credores e que não lhe passa pela cabeça
dar calote nas dívidas interna e externa. Por ser o candidato de
um partido que já pregara o oposto, a conversão de Lula
não convenceu toda a platéia. Para alguns, não existe
leão vegetariano, conforme a metáfora que se criou para
definir ironicamente a nova posição dos petistas. Com Ciro,
a desconfiança tem sido muitíssimo menor, embora ele se
tenha referido à negociação da dívida interna
como um dos pontos de sua plataforma política. "Negociação
voluntária", esclarece o candidato da Frente Trabalhista. "Trata-se
de oferecer juros mais altos a quem aceitar títulos de vencimento
mais longo, como ocorre rotineiramente no mercado", completa Ciro. "O
mercado parece estar apostando que Ciro é de direita, que se ganhar
irá ficar só com o PFL e refazer a aliança clássica
com o PMDB", diz Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio
da consultoria Tendências. Mailson acredita que a aposta é
muito arriscada.
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