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A luta
para ser
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Fernando Pereira![]() Ciro Gomes e Serra, quando ainda se davam bem: jantar em companhia das respectivas mulheres |
As diferenças de origem, o natural jogo de intrigas do poder e
uma indisfarçável antipatia pessoal acabaram criando uma
rivalidade entre Ciro Gomes e José Serra, que se tornou explícita
durante o Plano Real. Ministro da Fazenda de Itamar Franco, Ciro foi o
responsável pela implantação do plano, quando o real
foi criado com a cotação de 1 para 1 com o dólar.
Já o senador José Serra atacava alguns dos alicerces do
plano de estabilização. Desde o princípio, o atual
candidato do PSDB posicionou-se contrário à política
cambial, que, na sua opinião, sobrevalorizava artificialmente o
real. Ciro irritava-se com o comportamento de Serra. Chefe de Gustavo
Franco, então diretor de política externa do Banco Central,
e de Pedro Malan, presidente do banco, o atual candidato do PPS chegou
certa vez a declarar: "Serra é do tipo que pensa que se uma idéia
não é dele não funciona".
O tempo e o papel político de cada um fizeram com que Ciro e Serra trocassem de lado. Agora, é Serra quem, na condição de candidato do governo, se vê na obrigação de defender o plano. E Ciro Gomes assumiu a função de ataque. Com a dupla inversão de lado, os dois continuam a trocar coices verbais. Na semana passada, Serra sugeriu em entrevista que Ciro poderia dar o calote na dívida interna. E Ciro rebateu: "Eu apenas recomendo mais calma porque ele sabe que está sendo desonesto mais uma vez. Ele tenta fazer o mesmo que Collor fez com Lula", afirmou Ciro, referindo-se à campanha de 1989. Na ocasião, Collor disse que Lula confiscaria a poupança do brasileiro, mas foi ele quem adotou a medida. Serra respondeu: "O Ciro é o genérico do Collor, com embalagem diferente, nome diferente, o mesmo princípio ativo e o mesmo efeito. É o candidato do insulto. Com ele, não dá nunca para debater idéias".
Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem![]() |
Jarbas Oliveira/AE![]() |
| A deputada Rita Camata, vice de Serra, em campanha: aumento na exposição para atrair o voto feminino | Patrícia Pillar: bonita e conhecida do grande público, a atriz é uma arma importante na campanha de Ciro |
Ciro tem 44 anos, Serra completou 60 anos em março. Por um período breve, foram amigos de sair para jantar junto com as respectivas mulheres. Hoje, eles se odeiam. Sabem que, para sobreviver, um deles terá de, primeiro, matar o outro nas urnas. Neste momento, Ciro aparece nas pesquisas 1 ponto porcentual adiante de Serra, o que significa empate técnico. Num segundo turno contra Lula, Ciro perderia por 43% a 41% das intenções de voto outro empate técnico. Serra ficaria 9 pontos atrás de Lula, perdendo por 46% a 37%. Ciro também ganha de Serra na pesquisa que mede o índice de rejeição das candidaturas entre o eleitorado. Esse indicador afere o porcentual de eleitores que se recusam a votar em determinado candidato. Lula tem a maior rejeição, 32%, seguido de Anthony Garotinho, com 27%. Serra tem 25% e Ciro, 15%. Por causa disso, o comitê de Serra decidiu que é hora da fuzilaria.
No ninho tucano, o crescimento de Ciro Gomes foi recebido de duas maneiras. Oficialmente, estrategistas e membros do partido disseram que essa oscilação eleitoral era prevista, principalmente pelos efeitos das aparições nos programas de televisão. "Essa subida de Ciro é chuva de verão", declara José Aníbal, presidente do PSDB. Nos bastidores do comitê eleitoral de Serra grassa o medo entre alguns de seus integrantes e já foi escalado um time de profissionais na "arte de pular na jugular". O ataque já começou: "Esse Ciro é uma empulhação. Mente até quando diz que fala inglês. Declara qualquer coisa que lhe seja conveniente. Precisamos desmascarar esse novo Collor", afirma um dos integrantes do time, o deputado Geddel Vieira Lima, do PMDB. Além de Geddel, a tropa de choque serrista conta com o líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Jutahy Júnior, e com o próprio presidente do partido, José Aníbal.
A percepção do alto tucanato é que Serra entrou na disputa com dois grandes trunfos que não estão funcionando da maneira combinada. Um deles é ser o candidato do governo, aproveitando-se da popularidade de Fernando Henrique em uma fatia do eleitorado. Só que o governo atravessa uma fase de notícias negativas, como elevação da taxa de desemprego, queda da atividade econômica e aumento de tarifas. Na semana passada, Serra viu-se na obrigação de criticar um aumento autorizado pelo mesmo governo que o apóia. O candidato acusou a Petrobras de elevar o preço do gás de cozinha sem necessidade. "Isso, a meu ver, é um procedimento incorreto que prejudica os consumidores", afirmou Serra. Alarmado com a maré de notícias ruins que saem do governo, o deputado Geddel Vieira Lima esteve no Palácio do Planalto, em audiência com FHC, para cobrar alguma providência que beneficie o candidato José Serra, em vez de atrapalhá-lo. Na conversa, Geddel pediu a FHC que contivesse os reajustes e, se isso acontecesse novamente, considerasse a hipótese de demitir o presidente da Petrobras. "Jamais pediria ao senhor que agisse de forma antiética. Mas é preciso que o senhor apóie Serra despudoradamente", completou.
Ricardo Wolffenbuttel![]() Luiz Felipe Scolari: declaração de voto em Ciro Gomes, único candidato que apoiou a seleção desde o início |
O outro trunfo de Serra seria o apoio da máquina do PMDB e de uma boa fatia do PFL. Calcula-se que o terço do eleitorado brasileiro que vive nas áreas rurais está mais suscetível ao pedido de voto feito pelo prefeito, pelo deputado ou pelo vereador. O comitê tucano trabalhava com a certeza de que Serra reinaria absoluto nesse campo. Mas eis que Ciro conseguiu roubar uma fatia do PFL para sua candidatura e a hegemonia dos rincões se partiu. Na semana passada, Ciro Gomes festejava ter conseguido o apoio do PFL em catorze Estados brasileiros, contra onze de Serra. A importância de atrair pedaços do PFL é enorme para a campanha de Ciro Gomes, mesmo que o acordo não se tenha oficializado a ponto de render tempo no horário eleitoral gratuito. Primeiro, porque o PFL tem estrutura no país inteiro e forte penetração em alguns Estados. No Amazonas de Amazonino Mendes e na Bahia de Antonio Carlos Magalhães, Ciro não teria, sem o apoio pefelista, sequer um político para recebê-lo no aeroporto, para organizar uma carreata, para apresentá-lo aos chefes políticos locais. O apoio dos caciques nesses e em outros Estados garante a Ciro logística e votos. "Aqui na Bahia, vou dar a Ciro uns 3 milhões de votos", diz o ex-senador Antonio Carlos Magalhães.
Na semana passada, os tucanos organizavam os primeiros preparativos para recuperar terreno na briga pelo segundo lugar. O contra-ataque começa nesta semana, com a participação direta de Serra, que programou uma viagem a Minas Gerais com dois objetivos. Um deles é reverter o apoio do PFL mineiro à candidatura de Ciro Gomes. O outro é garantir que o candidato tucano ao governo mineiro, Aécio Neves, só aceite fazer campanha para Serra. Aécio já declarou que participaria de comícios ao lado do candidato do PPS. Estão previstas também conversas de Serra com representantes do PFL de Goiás, Espírito Santo, Paraíba e Rondônia que na semana passada fizeram acenos de simpatia a Ciro, mas que antes estavam em franco entendimento com Serra. Outra frente de combate será a intensificação de comícios na Região Nordeste, onde Ciro tem seu melhor desempenho e Serra, o pior.
A grande dúvida dos tucanos é saber se Ciro é ou não uma "chuva de verão", como afirma José Aníbal. Segundo Marcos Coimbra, do Vox Populi, é preciso ter cuidado ao fazer avaliações desse tipo. O raciocínio da chuva de verão vale na fase da pré-campanha, mas sua aplicação não é automática quando a campanha ganha as ruas. "Não se pode afirmar, com certeza, que os nomes que subirem agora vão necessariamente cair", diz Coimbra. Os estudos mostram que Ciro ocupa no atual momento um espaço que é a um só tempo privilegiado e perigoso. O privilégio é situar-se a meio caminho entre oposição e situação. "Ele é, ao lado de Serra, o anti-Lula e, ao lado de Lula, o anti-Serra", afirma Coimbra. O cientista político Sérgio Abranches, colunista de VEJA, monitora um índice que mede a taxa de governismo dos candidatos. Nesse indicador, ganha +10 o candidato identificado como muito governista e -10 aquele que é da oposição máxima. Nessa régua, Serra tem nota +9,2 e Lula, -9,8. Quando Roseana estava no páreo, Ciro era compreendido como um candidato -4, ou seja, medianamente oposicionista. Agora, sua nota virou -2, de oposição leve. O lado perigoso de estar no meio é passar uma imagem ideologicamente embaçada ao eleitor e abrir espaço para as candidaturas claramente posicionadas a favor e contra o governo.
Mesmo num confortável primeiro lugar nas pesquisas, Lula também preparou uma reação à ascensão de Ciro. O petista pretende intensificar as viagens pelo país a partir desta semana. Os alvos preferenciais serão os redutos do candidato do PPS. Lula começa um périplo por quatro capitais nordestinas. A primeira é, não por acaso, Fortaleza. O PT deseja abertamente um confronto com José Serra no segundo turno. Ninguém esconde no partido da estrela vermelha a preocupação de enfrentar Ciro, que, desde já, se sai melhor nas simulações de segundo turno contra Lula. Para os petistas, os eleitores de Serra seguirão naturalmente para a candidatura de Ciro num eventual segundo turno, o que representaria uma ameaça às pretensões petistas. A recíproca, porém, não seria verdadeira. Deputados petistas acham que os eleitores de Ciro devem migrar para a candidatura de Lula. "Realmente não estamos preparados para enfrentar Ciro no segundo turno", admite João Paulo Cunha, líder do PT na Câmara.
Com reportagem de Marcelo Carneiro, Maurício Lima e Ronaldo França
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UMA
DOR DE CABEÇA PARA CIRO
No início, os fiscais buscaram documentos que comprovassem a existência do empréstimo mas não havia contrato nem registro em cartório. Considerando que Martinez garantia ter saldado a dívida, os fiscais partiram para o segundo ponto: de onde saiu o dinheiro para pagá-la? Em sua declaração de renda, Martinez informou que recebera 12 milhões de reais da venda de uma fazenda no interior do Amazonas. Ao verificarem a operação, os fiscais notaram que a fazenda, no município de Silves, era praticamente inacessível não havia estradas nem pista de pouso. Só se podia chegar a ela de barco, e apenas no inverno, pois, não sendo perene, o rio secava no verão. Descobriram, ainda, que a fazenda estava sob domínio de posseiros há mais de vinte anos. Por fim, levantaram que o valor médio de seu hectare não passava de 12 reais. E o comprador a construtora Triunfo supostamente pagara 408 reais por hectare, mais de trinta vezes acima do preço de mercado. Para sanar dúvidas, os fiscais examinaram a contabilidade da construtora Triunfo. Ali, encontraram, de fato, a saída de 12 milhões de reais. Só que, ao rastrear o caminho do dinheiro, constataram que os 12 milhões não foram pagos a Martinez, como deveria acontecer, mas remetidos pela construtora para o exterior. No meio do caminho, a Receita também ficou sabendo do tremendo sucesso financeiro de Martinez. Em 1990, sua declaração de renda informava um patrimônio equivalente a 100 000 reais. No ano seguinte, seus bens saltaram para 28 milhões de reais crescimento estratosférico, tendo em vista que sua renda, de um ano ao outro, seguiu na faixa de 2 500 reais mensais. Para a Receita, o patrimônio de Martinez aumentou em razão do dinheiro de PC Farias e de outras fontes não identificadas. A investigação ainda flagrou a existência de duas contas não declaradas no exterior: uma no Manufactor HannoverBanco Bamerindus, em Nova York, e outra no National Bank of Florida, em Miami. Como nada disso aparecia em sua declaração de renda, a fiscalização aplicou-lhe uma multa de 15 milhões de reais, venceu em todas as instâncias, mas na hora da cobrança surgiu uma surpresa: o deputado transferira seu domicílio fiscal do Paraná para São Paulo o que fez com que a multa, enroscada na burocracia da mudança de endereço fiscal, não tenha sido cobrada até hoje. "Isso tudo é uma boçalidade. Vou processar a Receita Federal", diz Martinez. Até agora, o tempo tem sido um aliado do deputado. A investigação da Receita, que o denuncia por sonegação e falsidade ideológica, foi enviada a Brasília e chegou às mãos do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, em março de 1999. A denúncia está há três anos mofando numa de suas generosas gavetas. "Eu me comprometo a despachar isso na primeira semana de agosto", disse a VEJA, na semana passada, o auxiliar de Brindeiro, o vice-procurador Haroldo da Nóbrega. O candidato Ciro Gomes não tem nada a ver com o caso, mas nada pior que ter o coordenador de sua campanha enroscado financeiramente com o falecido PC Farias.
Policarpo Junior |
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