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Edição 1 760 - 17 de julho de 2002
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Eleições: Ciro e Serra brigam para ver quem enfrenta Lula

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A luta para ser
o anti-Lula

Ciro Gomes e José Serra
estiveram lado a lado no PSDB.
Agora, são inimigos e travam
uma guerra aberta por uma
vaga no segundo turno


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Ciro Gomes e os empresários
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Reportagem de 10/7/2002: Ciro Gomes empata com José Serra
Reportagem de 3/7/2002: "Tudo sugere o terceiro confronto"
Reportagem de 26/6/2002: PT sela aliança com PL
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O quadro eleitoral era o seguinte na semana passada: a não ser que surja um fato novo, haverá segundo turno, e Lula estará nele. A questão é saber contra quem. A última rodada do Ibope sugere que será contra Ciro Gomes ou José Serra. Considerados apenas os grandes números, e levando-se em conta que 1 ponto na pesquisa equivale a 1,15 milhão de eleitores, cada um deles possui um exército temporário de 20 milhões de votos até aqui. Faltando três meses para a eleição, esses exércitos tendem a se deslocar muito até se saber de que lado vão ficar no dia D. Mesmo porque são 115 milhões os eleitores, e a tradição brasileira nesse campo mostra que a decisão final só começa a ser tomada para valer a duas semanas do pleito. Mas, pelas características dos candidatos e pelo conjunto de forças políticas em volta de cada um, os especialistas acreditam que esta disputa promete ser tão acirrada quanto a de 1989, quando Lula passou para o segundo turno com apenas 500.000 votos à frente de Leonel Brizola. "Esta eleição não é recomendável para pessoas com problemas cardíacos ou com pressão alta", comenta o cientista político Marcos Coimbra, diretor do Instituto Vox Populi.

O empate técnico entre Ciro e Serra coloca frente a frente, na maior batalha de sua vida, dois políticos com trajetórias completamente diferentes, mas que o destino pôs lado a lado durante alguns anos, no PSDB. O partido tinha três caciques: Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e Tasso Jereissati. Ciro e Serra eram duas grandes promessas além do trio. Ciro surgiu no tucanato pelas mãos de Tasso e é oriundo de uma família que integra o poder cearense há mais de 100 anos. Os Gomes ingressaram na política através do bisavô de Ciro, José Ferreira Gomes, que foi prefeito da cidade de Sobral. Depois dele, o avô e o pai de Ciro ocuparam o cargo. E o atual prefeito da cidade é um irmão seu, Cid. Embalado pelo sucesso da família, outro irmão, Ivo, decidiu lançar-se candidato a deputado estadual, e sua ex-mulher, Patrícia, que já é deputada, candidatou-se ao Senado. Está em segundo lugar, atrás de Tasso.

Na ala paulista do tucanato, integrada por vários esquerdistas convertidos ao credo social-democrata, como Fernando Henrique, Sergio Motta e José Serra, Ciro era visto inicialmente com certo preconceito. Além do histórico oligárquico, pesava o fato de ter cumprido um trajeto incomum no PSDB, pois jamais enfrentou problemas com o regime militar e entrou na política através do PDS, partido nascido da Arena, a sigla que deu sustentação à ditadura. Em entrevista, tratando dessa passagem, Ciro comentou: "É uma mancha na minha vida, que assumo, não sem um trauma pessoal. O dia em que tive de assinar a ficha de filiação foi um horror, só pensava nos meus amigos". O candidato explica que ingressou no PDS como um ato de fidelidade ao pai, que era um dos líderes do partido no Estado. Ao contrário de Ciro, Serra possuía um perfil-padrão no tucanato. Militante esquerdista na juventude, foi líder estudantil, esteve exilado no Chile durante o governo militar e depois deu aulas em universidades nos Estados Unidos. Retornou ao Brasil com a anistia, tornando-se secretário de Economia de São Paulo no governo Franco Montoro. Na família Serra, ninguém se havia envolvido com política antes de José. Seu pai era feirante e, até o momento, nenhum parente se apresentou para dar continuidade ao projeto.

Tanto Serra quanto Ciro desenharam carreiras brilhantes. Serra elegeu-se deputado federal duas vezes, numa delas na condição de o mais votado do Brasil. Em 1994, chegou ao Senado. Quando Fernando Henrique se elegeu presidente, ocupou a pasta do Planejamento e, mais tarde, o Ministério da Saúde. Durante a Constituinte, emplacou seis de cada dez idéias que apresentou e participava ativamente dos debates que varavam a madrugada. No Ministério da Saúde, abriu duas frentes de combate, uma delas contra os laboratórios, para criar os medicamentos genéricos. A outra foi contra a indústria do tabaco, para proibir a propaganda de cigarro em rádio, televisão, jornais e revistas e obrigar as empresas a estampar no verso da embalagem imagens associadas aos malefícios do fumo.

 


Ciro não fez por menos. Numa carreira meteórica, virou deputado estadual aos 25 anos, foi prefeito de Fortaleza e, em 1990, com apenas 32 anos, elegeu-se governador do Ceará. Seria mais tarde ministro da Fazenda, com 36 anos. Na condição de líder de Tasso na Assembléia Legislativa, Ciro enfrentou vaias das galerias lotadas de funcionários públicos insatisfeitos depois que o governo demitiu quase 40.000 servidores e arrochou o salário do funcionalismo. Quando assumiu a prefeitura da capital cearense, em 1989, encontrou o caos. Havia 130 toneladas de lixo nas calçadas e o salário do funcionalismo não era pago havia cinco meses. Em noventa dias, recolheu o lixo. Em doze meses, pagou dezessete salários ao funcionalismo – os cinco em atraso e os doze do próprio exercício. Como reconhecimento pelo trabalho que desempenharam, os dois presidenciáveis foram agraciados com prêmios internacionais. Durante o governo de Ciro, o Ceará recebeu um prêmio do Unicef, braço das Nações Unidas para a infância e juventude, pela redução da mortalidade infantil no Estado. E Serra foi escolhido pela revista do Fórum Econômico Mundial como o melhor ministro da Saúde do mundo. Foi essa capacidade que os dois demonstraram até agora de enfrentar desafios, e vencê-los, que os habilitou a sonhar com o maior de todos os vôos: a Presidência da República.

No final do ano passado, o PFL usou seu tempo na TV para apresentar a governadora Roseana Sarney como possível candidata à sucessão presidencial. Em apenas três meses ela chegou ao segundo lugar nas pesquisas. Nesta campanha, Lula, Serra e Garotinho atingiram suas melhores pontuações após seus programas na televisão. O petista alcançou o recorde de 42 pontos, uma de suas melhores marcas desde 1989. O detalhe é que, na maioria das vezes, o programa produz efeitos por pouco tempo. O Instituto Vox Populi fez um levantamento sobre o assunto para verificar quanto tempo durou o efeito televisão. Descobriu que, após dois meses, todos os candidatos voltaram ao patamar anterior aos programas na TV. Graças ao fato de ter adotado uma estratégia diferente da de seus concorrentes, a história pode ser diferente com Ciro Gomes. Seus oponentes usaram o tempo na TV bem antes do começo oficial da campanha. Ele preferiu entrar no ar às vésperas da largada oficial. Nas últimas semanas, Ciro teve 82 minutos de exposição nos horários de maior audiência de todas as redes de televisão e foi visto por no mínimo 40 milhões de pessoas. Como toque final, entrou no ar a imagem de sua mulher, a atriz Patrícia Pillar. Linda e conhecida do grande público, a atriz de 38 anos apareceu no vídeo falando em nome de Ciro. Para contrabalançar, o tucanato aumentou a exposição da vice Rita Camata, como forma de atrair o voto feminino.

Os efeitos da subida nas pesquisas já se fazem presentes na campanha de Ciro. A primeira mudança é um reforço na qualidade dos apoios. Na semana passada, o técnico do penta, Luiz Felipe Scolari, anunciou que vota em Ciro. Outra mudança ocorreu na estrutura física da campanha. Depois de percorrer o país durante mais de dois anos em aviões de carreira, Ciro enfim tem a sua disposição um jatinho particular. E, finalmente, a mudança que interessa à contabilidade de uma corrida eleitoral: de acordo com um assessor do candidato do PPS, aumentou a procura do empresariado por uma interlocução. Há quatro anos, Ciro Gomes assustava os empresários com um discurso agressivo, geralmente interpretado como sinal de destempero. Nos últimos três anos, ele trabalhou com afinco para dissipar essa imagem. Teve sessenta encontros com banqueiros, dezenas de outros com empresários e manteve a agenda permanentemente ocupada com palestras em associações empresariais e faculdades. Na semana passada, VEJA consultou doze pesos-pesados da indústria e do setor financeiro. Embora Serra seja apontado como a opção número 1, ninguém declarou constrangimento algum em apoiar Ciro, se necessário. "O conjunto de apoios que ele está recebendo nas últimas semanas, como o do Bornhausen e do Antonio Carlos Magalhães, me deixa mais tranqüilo", reforça um banqueiro de investimentos. "É sinal de que ele está radical só nos discursos." Outro empresário, do setor petroquímico, explica melhor a expectativa de seus pares. "Ciro nunca foi nossa primeira opção", diz. "Mas ele é capaz de negociar e está mais disposto a ouvir."


Fernando Pereira

Ciro Gomes e Serra, quando ainda se davam bem: jantar em companhia das respectivas mulheres


As diferenças de origem, o natural jogo de intrigas do poder e uma indisfarçável antipatia pessoal acabaram criando uma rivalidade entre Ciro Gomes e José Serra, que se tornou explícita durante o Plano Real. Ministro da Fazenda de Itamar Franco, Ciro foi o responsável pela implantação do plano, quando o real foi criado com a cotação de 1 para 1 com o dólar. Já o senador José Serra atacava alguns dos alicerces do plano de estabilização. Desde o princípio, o atual candidato do PSDB posicionou-se contrário à política cambial, que, na sua opinião, sobrevalorizava artificialmente o real. Ciro irritava-se com o comportamento de Serra. Chefe de Gustavo Franco, então diretor de política externa do Banco Central, e de Pedro Malan, presidente do banco, o atual candidato do PPS chegou certa vez a declarar: "Serra é do tipo que pensa que se uma idéia não é dele não funciona".

O tempo e o papel político de cada um fizeram com que Ciro e Serra trocassem de lado. Agora, é Serra quem, na condição de candidato do governo, se vê na obrigação de defender o plano. E Ciro Gomes assumiu a função de ataque. Com a dupla inversão de lado, os dois continuam a trocar coices verbais. Na semana passada, Serra sugeriu em entrevista que Ciro poderia dar o calote na dívida interna. E Ciro rebateu: "Eu apenas recomendo mais calma porque ele sabe que está sendo desonesto mais uma vez. Ele tenta fazer o mesmo que Collor fez com Lula", afirmou Ciro, referindo-se à campanha de 1989. Na ocasião, Collor disse que Lula confiscaria a poupança do brasileiro, mas foi ele quem adotou a medida. Serra respondeu: "O Ciro é o genérico do Collor, com embalagem diferente, nome diferente, o mesmo princípio ativo e o mesmo efeito. É o candidato do insulto. Com ele, não dá nunca para debater idéias".

 
Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
Jarbas Oliveira/AE
A deputada Rita Camata, vice de Serra, em campanha: aumento na exposição para atrair o voto feminino Patrícia Pillar: bonita e conhecida do grande público, a atriz é uma arma importante na campanha de Ciro

Ciro tem 44 anos, Serra completou 60 anos em março. Por um período breve, foram amigos de sair para jantar junto com as respectivas mulheres. Hoje, eles se odeiam. Sabem que, para sobreviver, um deles terá de, primeiro, matar o outro nas urnas. Neste momento, Ciro aparece nas pesquisas 1 ponto porcentual adiante de Serra, o que significa empate técnico. Num segundo turno contra Lula, Ciro perderia por 43% a 41% das intenções de voto – outro empate técnico. Serra ficaria 9 pontos atrás de Lula, perdendo por 46% a 37%. Ciro também ganha de Serra na pesquisa que mede o índice de rejeição das candidaturas entre o eleitorado. Esse indicador afere o porcentual de eleitores que se recusam a votar em determinado candidato. Lula tem a maior rejeição, 32%, seguido de Anthony Garotinho, com 27%. Serra tem 25% e Ciro, 15%. Por causa disso, o comitê de Serra decidiu que é hora da fuzilaria.

No ninho tucano, o crescimento de Ciro Gomes foi recebido de duas maneiras. Oficialmente, estrategistas e membros do partido disseram que essa oscilação eleitoral era prevista, principalmente pelos efeitos das aparições nos programas de televisão. "Essa subida de Ciro é chuva de verão", declara José Aníbal, presidente do PSDB. Nos bastidores do comitê eleitoral de Serra grassa o medo entre alguns de seus integrantes e já foi escalado um time de profissionais na "arte de pular na jugular". O ataque já começou: "Esse Ciro é uma empulhação. Mente até quando diz que fala inglês. Declara qualquer coisa que lhe seja conveniente. Precisamos desmascarar esse novo Collor", afirma um dos integrantes do time, o deputado Geddel Vieira Lima, do PMDB. Além de Geddel, a tropa de choque serrista conta com o líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Jutahy Júnior, e com o próprio presidente do partido, José Aníbal.

A percepção do alto tucanato é que Serra entrou na disputa com dois grandes trunfos que não estão funcionando da maneira combinada. Um deles é ser o candidato do governo, aproveitando-se da popularidade de Fernando Henrique em uma fatia do eleitorado. Só que o governo atravessa uma fase de notícias negativas, como elevação da taxa de desemprego, queda da atividade econômica e aumento de tarifas. Na semana passada, Serra viu-se na obrigação de criticar um aumento autorizado pelo mesmo governo que o apóia. O candidato acusou a Petrobras de elevar o preço do gás de cozinha sem necessidade. "Isso, a meu ver, é um procedimento incorreto que prejudica os consumidores", afirmou Serra. Alarmado com a maré de notícias ruins que saem do governo, o deputado Geddel Vieira Lima esteve no Palácio do Planalto, em audiência com FHC, para cobrar alguma providência que beneficie o candidato José Serra, em vez de atrapalhá-lo. Na conversa, Geddel pediu a FHC que contivesse os reajustes e, se isso acontecesse novamente, considerasse a hipótese de demitir o presidente da Petrobras. "Jamais pediria ao senhor que agisse de forma antiética. Mas é preciso que o senhor apóie Serra despudoradamente", completou.

 
Ricardo Wolffenbuttel

Luiz Felipe Scolari: declaração de voto em Ciro Gomes, único candidato que apoiou a seleção desde o início

O outro trunfo de Serra seria o apoio da máquina do PMDB e de uma boa fatia do PFL. Calcula-se que o terço do eleitorado brasileiro que vive nas áreas rurais está mais suscetível ao pedido de voto feito pelo prefeito, pelo deputado ou pelo vereador. O comitê tucano trabalhava com a certeza de que Serra reinaria absoluto nesse campo. Mas eis que Ciro conseguiu roubar uma fatia do PFL para sua candidatura e a hegemonia dos rincões se partiu. Na semana passada, Ciro Gomes festejava ter conseguido o apoio do PFL em catorze Estados brasileiros, contra onze de Serra. A importância de atrair pedaços do PFL é enorme para a campanha de Ciro Gomes, mesmo que o acordo não se tenha oficializado a ponto de render tempo no horário eleitoral gratuito. Primeiro, porque o PFL tem estrutura no país inteiro e forte penetração em alguns Estados. No Amazonas de Amazonino Mendes e na Bahia de Antonio Carlos Magalhães, Ciro não teria, sem o apoio pefelista, sequer um político para recebê-lo no aeroporto, para organizar uma carreata, para apresentá-lo aos chefes políticos locais. O apoio dos caciques nesses e em outros Estados garante a Ciro logística e votos. "Aqui na Bahia, vou dar a Ciro uns 3 milhões de votos", diz o ex-senador Antonio Carlos Magalhães.

Na semana passada, os tucanos organizavam os primeiros preparativos para recuperar terreno na briga pelo segundo lugar. O contra-ataque começa nesta semana, com a participação direta de Serra, que programou uma viagem a Minas Gerais com dois objetivos. Um deles é reverter o apoio do PFL mineiro à candidatura de Ciro Gomes. O outro é garantir que o candidato tucano ao governo mineiro, Aécio Neves, só aceite fazer campanha para Serra. Aécio já declarou que participaria de comícios ao lado do candidato do PPS. Estão previstas também conversas de Serra com representantes do PFL de Goiás, Espírito Santo, Paraíba e Rondônia que na semana passada fizeram acenos de simpatia a Ciro, mas que antes estavam em franco entendimento com Serra. Outra frente de combate será a intensificação de comícios na Região Nordeste, onde Ciro tem seu melhor desempenho e Serra, o pior.

A grande dúvida dos tucanos é saber se Ciro é ou não uma "chuva de verão", como afirma José Aníbal. Segundo Marcos Coimbra, do Vox Populi, é preciso ter cuidado ao fazer avaliações desse tipo. O raciocínio da chuva de verão vale na fase da pré-campanha, mas sua aplicação não é automática quando a campanha ganha as ruas. "Não se pode afirmar, com certeza, que os nomes que subirem agora vão necessariamente cair", diz Coimbra. Os estudos mostram que Ciro ocupa no atual momento um espaço que é a um só tempo privilegiado e perigoso. O privilégio é situar-se a meio caminho entre oposição e situação. "Ele é, ao lado de Serra, o anti-Lula e, ao lado de Lula, o anti-Serra", afirma Coimbra. O cientista político Sérgio Abranches, colunista de VEJA, monitora um índice que mede a taxa de governismo dos candidatos. Nesse indicador, ganha +10 o candidato identificado como muito governista e -10 aquele que é da oposição máxima. Nessa régua, Serra tem nota +9,2 e Lula, -9,8. Quando Roseana estava no páreo, Ciro era compreendido como um candidato -4, ou seja, medianamente oposicionista. Agora, sua nota virou -2, de oposição leve. O lado perigoso de estar no meio é passar uma imagem ideologicamente embaçada ao eleitor e abrir espaço para as candidaturas claramente posicionadas a favor e contra o governo.

Mesmo num confortável primeiro lugar nas pesquisas, Lula também preparou uma reação à ascensão de Ciro. O petista pretende intensificar as viagens pelo país a partir desta semana. Os alvos preferenciais serão os redutos do candidato do PPS. Lula começa um périplo por quatro capitais nordestinas. A primeira é, não por acaso, Fortaleza. O PT deseja abertamente um confronto com José Serra no segundo turno. Ninguém esconde no partido da estrela vermelha a preocupação de enfrentar Ciro, que, desde já, se sai melhor nas simulações de segundo turno contra Lula. Para os petistas, os eleitores de Serra seguirão naturalmente para a candidatura de Ciro num eventual segundo turno, o que representaria uma ameaça às pretensões petistas. A recíproca, porém, não seria verdadeira. Deputados petistas acham que os eleitores de Ciro devem migrar para a candidatura de Lula. "Realmente não estamos preparados para enfrentar Ciro no segundo turno", admite João Paulo Cunha, líder do PT na Câmara.

 

Com reportagem de Marcelo Carneiro, Maurício Lima e Ronaldo França

 

 

UMA DOR DE CABEÇA PARA CIRO


Paulo Lacerda/AE

Martinez, presidente do PTB e coordenador da campanha de Ciro: enrolado com PC


O deputado José Carlos Martinez, presidente do PTB, está em via de transformar-se numa dor de cabeça para o candidato Ciro Gomes. Em 1992, quando explodiu o escândalo de PC Farias, tesoureiro do então presidente Fernando Collor, o deputado começou a ser investigado. Descobriu-se, na época, que Martinez adquirira uma emissora de televisão, a TV Corcovado, e pagara com cheques assinados por fantasmas criados por PC Farias. A conexão levantou a suspeita de que Martinez mantinha uma sociedade oculta com PC – mas não passou disso. Em depoimento à CPI que investigou o caso na época, Martinez contou que tomara um empréstimo de PC para comprar a televisão, o que não tem nada de irregular, e saldou tudo o que devia até o último tostão. A novidade é que, encerrados os trabalhos da CPI, começou uma investigação da Receita Federal, que atravessaria a década de 90. Na semana passada, VEJA teve acesso à conclusão do trabalho. Os fiscais descobriram que Martinez enriqueceu da noite para o dia, tinha contas secretas no exterior e forjou o tal empréstimo com PC Farias.

No início, os fiscais buscaram documentos que comprovassem a existência do empréstimo – mas não havia contrato nem registro em cartório. Considerando que Martinez garantia ter saldado a dívida, os fiscais partiram para o segundo ponto: de onde saiu o dinheiro para pagá-la? Em sua declaração de renda, Martinez informou que recebera 12 milhões de reais da venda de uma fazenda no interior do Amazonas. Ao verificarem a operação, os fiscais notaram que a fazenda, no município de Silves, era praticamente inacessível – não havia estradas nem pista de pouso. Só se podia chegar a ela de barco, e apenas no inverno, pois, não sendo perene, o rio secava no verão. Descobriram, ainda, que a fazenda estava sob domínio de posseiros há mais de vinte anos. Por fim, levantaram que o valor médio de seu hectare não passava de 12 reais. E o comprador – a construtora Triunfo – supostamente pagara 408 reais por hectare, mais de trinta vezes acima do preço de mercado.

Para sanar dúvidas, os fiscais examinaram a contabilidade da construtora Triunfo. Ali, encontraram, de fato, a saída de 12 milhões de reais. Só que, ao rastrear o caminho do dinheiro, constataram que os 12 milhões não foram pagos a Martinez, como deveria acontecer, mas remetidos pela construtora para o exterior. No meio do caminho, a Receita também ficou sabendo do tremendo sucesso financeiro de Martinez. Em 1990, sua declaração de renda informava um patrimônio equivalente a 100 000 reais. No ano seguinte, seus bens saltaram para 28 milhões de reais – crescimento estratosférico, tendo em vista que sua renda, de um ano ao outro, seguiu na faixa de 2 500 reais mensais. Para a Receita, o patrimônio de Martinez aumentou em razão do dinheiro de PC Farias e de outras fontes não identificadas. A investigação ainda flagrou a existência de duas contas não declaradas no exterior: uma no Manufactor Hannover­Banco Bamerindus, em Nova York, e outra no National Bank of Florida, em Miami.

Como nada disso aparecia em sua declaração de renda, a fiscalização aplicou-lhe uma multa de 15 milhões de reais, venceu em todas as instâncias, mas na hora da cobrança surgiu uma surpresa: o deputado transferira seu domicílio fiscal do Paraná para São Paulo – o que fez com que a multa, enroscada na burocracia da mudança de endereço fiscal, não tenha sido cobrada até hoje. "Isso tudo é uma boçalidade. Vou processar a Receita Federal", diz Martinez. Até agora, o tempo tem sido um aliado do deputado. A investigação da Receita, que o denuncia por sonegação e falsidade ideológica, foi enviada a Brasília e chegou às mãos do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, em março de 1999. A denúncia está há três anos mofando numa de suas generosas gavetas. "Eu me comprometo a despachar isso na primeira semana de agosto", disse a VEJA, na semana passada, o auxiliar de Brindeiro, o vice-procurador Haroldo da Nóbrega. O candidato Ciro Gomes não tem nada a ver com o caso, mas nada pior que ter o coordenador de sua campanha enroscado financeiramente com o falecido PC Farias.

 

Policarpo Junior

 

 
 
   
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