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"A falsificação de CDs no Brasil ganhou feições de crime organizado com conexões internacionais" |
Em meados do mês passado, o americano Jay Berman, presidente da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, em inglês), associação que representa os interesses das maiores gravadoras do mundo, desembarcou no Brasil para pedir empenho do governo na luta contra a pirataria. Berman trouxe consigo números espantosos. No ano passado foi fabricado 1,9 bilhão de CDs piratas no mundo. Desses, cerca de 40 milhões teriam sido comercializados em território brasileiro. O país perde apenas para China e Rússia no ranking desse comércio ilegal. "A peculiaridade da situação no Brasil está no fato de os artistas mais pirateados serem brasileiros mesmo, o que não acontece nos outros países", diz Berman. O executivo frisa que a situação saiu de controle, que a venda de discos falsificados está financiando outras atividades criminosas e que uma reação enérgica das autoridades é indispensável. "As gravadoras multinacionais estão chegando à conclusão de que não vale a pena investir no Brasil", lamenta. Jay Berman tem 64 anos. Formado em história, largou a vida acadêmica em meados dos anos 70, para trabalhar com música. Seu sonho era conhecer Elvis Presley pessoalmente. Não realizou o intento, mas teve a oportunidade de trabalhar com ídolos como Eric Clapton e George Harrison. É presidente da IFPI desde janeiro de 1999.
Veja Que dimensão tem o problema da pirataria musical
no Brasil?
Berman
A situação é calamitosa. Mas não são
somente os artistas e as gravadoras que precisam preocupar-se com esse
comércio pirata. No Brasil, a pirataria já não tem
mais a ver apenas com o sujeito que vende CDs falsificados numa banquinha
de esquina. Ela ganhou dimensões industriais. Há dez anos,
os CDs piratas que você encontrava no Brasil eram todos trazidos
da China. Agora eles estão sendo produzidos aqui mesmo, ou em países
vizinhos, como o Paraguai. Só os discos virgens são trazidos
de Taiwan. A pirataria de discos no Brasil ganhou feições
de crime organizado com conexões internacionais. Entregamos ao
governo brasileiro um dossiê com informações a respeito
disso. Agora, cabe a ele agir.
Veja O que diz o dossiê que o senhor entregou ao governo?
Berman
É um documento confidencial, não posso revelar seus detalhes.
Mas pergunte a um agente qualquer da seção brasileira da
Interpol e ele lhe dará algumas informações interessantes.
Dirá, entre outras coisas, que os criminosos que lidam com pirataria
musical não reinvestem todos os seus lucros nesse negócio:
trabalham também com armas e drogas. Ele chamará sua atenção
para os bons negócios que organizações árabes
de Ciudad del Este estão fazendo com os piratas brasileiros. Até
mesmo o terrorismo já foi financiado pela pirataria.
Veja Onde a pirataria financiou o terrorismo?
Berman
Na
Irlanda do Norte, por exemplo. Algumas fábricas de CDs falsificados
entregavam parte de seus lucros ao IRA, para financiar ataques. Ou seja,
não estamos falando de garotos que gravam fitas no quarto e as
vendem a seus amigos, a fim de faturar uns trocados. Estamos falando de
bandidos perigosos. A articulação dessa gente é impressionante:
em Londres encontramos integrantes da máfia russa que vendiam CDs
fabricados em São Petersburgo. Essas pessoas também estiveram
envolvidas na maior fraude de cartões de crédito da história
do Reino Unido. Com o dinheiro que conseguiam na venda de CDs piratas,
eles criaram uma rede de suborno de garçons e empregados de lojas,
que clonavam o cartão dos fregueses. Esses cartões, depois,
eram negociados num site da internet. Cerca de 500.000 cartões
de crédito foram vendidos a um preço médio de 3.000
libras cada um. Um dos bandidos foi preso e implorou para não ser
extraditado. Dizia que a máfia russa iria matá-lo.
Veja Há algumas semanas, um ex-funcionário
da Sony Music foi preso vendendo CDs piratas no Rio de Janeiro. É
possível que a máfia da pirataria esteja instalada dentro
das próprias gravadoras?
Berman
É claro que sim. Quando a situação sai de controle,
tudo pode acontecer.
Veja Qual a posição ocupada pelo Brasil no
ranking mundial da pirataria?
Berman
Não é o primeiro colocado, mas está próximo.
Na China, por exemplo, 90% de todos os discos vendidos são piratas.
No Brasil, a pirataria dominou cerca de 60% do mercado. Dez milhões
de CDs ilegais foram apreendidos no ano passado por aqui, e isso é
apenas a ponta do iceberg. O Brasil ainda tem um mercado oficial grande,
mas ele está encolhendo a olhos vistos por causa da pirataria.
Há três anos, o país tinha o sexto maior mercado de
discos do mundo. Hoje, está na 12ª posição.
O que torna o Brasil um caso tão triste é o fato de sua
música ser boa. É um país de tradições
ricas, de artistas apreciados no planeta inteiro, mas que corre o risco
de ver seu mercado sufocado pela pirataria. Nos outros lugares, o que
os piratas tentam fazer é ganhar dinheiro com música saída
dos Estados Unidos e da Inglaterra. Já no Brasil, a maior parte
dos artistas pirateados é daqui mesmo. É um caso único.
Veja Em março do ano passado, o governo brasileiro
criou um comitê ministerial para tratar da pirataria. Quais os resultados
práticos dessa medida?
Berman
Nenhum. Tanto assim que a pirataria só aumentou de lá para
cá. Não é com comitês e seminários que
o problema será resolvido. O que o governo precisa fazer é
pôr a mão na massa: aumentar as penalidades previstas em
lei para os piratas e começar a prendê-los. Podemos ajudar
com informações, e estamos fazendo isso desde 1996. Naquela
época, identificamos os lugares da Ásia onde eram produzidos
os discos piratas vendidos no Brasil e viemos aqui para passar esses dados.
Nós nos reunimos aos artistas brasileiros e juntos solicitamos
medidas drásticas. Ninguém nos deu atenção.
Existe a ilusão de que a pirataria não é um problema
tão grave. Mas isso não é mais verdade. O problema
é gravíssimo e está no quintal de vocês. As
autoridades precisam acordar. Sabemos que é possível combater
esse tipo de pirataria porque vimos isso acontecer em Hong Kong. O governo
de lá resolveu agir com dureza e os piratas tiveram de se mudar
de lá. Os que atuam no Brasil estão confortáveis
e nem pensam em se mexer.
Veja O Senado brasileiro aprovou uma lei que obriga as companhias
fonográficas a numerar seus lançamentos para que os artistas
tenham um melhor controle sobre as vendas de suas obras. O que o senhor
tem a dizer sobre isso?
Berman
Eu considero essa atitude uma estupidez. Numerar CDs não é
um processo imediato. Ele requer ajustes de máquinas, toda uma
rotina trabalhosa. As companhias terão um gasto extra e serão
obrigadas a repassar esse gasto para o consumidor. Com isso, os piratas
ganharão mais ainda a dianteira no preço. É uma medida
que ajuda a aniquilar a indústria.
Veja O que a associação que o senhor representa
pretende fazer se a situação não melhorar no Brasil?
Berman
Há gravadoras que falam em sair do Brasil. O certo é que
o nível de investimentos diminuirá muito. Por que manter
um diretor artístico aqui, por que investir em artistas novos,
se os piratas é que vão lucrar? Será muito mais fácil
lançar discos da Madonna e outros produtos de fora, e deixar por
isso mesmo.
Veja Quantos CDs o senhor compra por mês?
Berman
Dez
em média. Você sabe, não é tão barato.
A última coisa que adquiri foi uma caixa com quatro CDs de The
Last Waltz, concerto de despedida do grupo de rock The Band, que fez
muito sucesso nos anos 60.
Veja O senhor acaba de reconhecer que o preço do disco
é alto. Não seria esse um dos principais motivos de a pirataria
ter tanta força?
Berman
Ainda
que o preço dos discos caísse muito, seria impossível
competir com os piratas. O único custo que os falsificadores têm
é de fabricação. Eles não pagam impostos,
não investem em produção, em marketing e também
não descobrem talentos. Eles só comercializam o sucesso.
Não fazem, enfim, apostas que podem não dar certo. Com as
gravadoras ocorre o contrário. Porque, na verdade, são poucos
os discos que realmente dão lucro hoje em dia. E é desses
discos que dependemos para manter no mercado coleções de
jazz ou música clássica, cujo público é restrito.
Veja O senhor não acha que as gravadoras investem
dinheiro demais no marketing de cantores sem qualidade artística,
como a cantora americana Britney Spears?
Berman
Pessoalmente, eu prefiro Bob Dylan a Britney Spears. Também tenho
dúvidas sobre a qualidade artística dela. Mas não
temos o direito de ser arrogantes e pensar que a música de que
aprendemos a gostar é a única que faz sentido. Se artistas
como Britney não tivessem algo a dizer aos adolescentes, não
haveria tantos discos piratas deles sendo vendidos.
Veja Recentemente, a cantora Mariah Carey foi despedida pela
EMI por causa das baixas vendas de seu último disco. Ela disse
que a culpa do insucesso era da gravadora. Quem estava certo?
Berman
Mariah Carey aceitou todos os créditos por vender milhões
de discos. Agora, deveria aceitar a culpa por seus fracassos. Mas isso
não vai acontecer. É bom ser artista: você nunca é
culpado de nada. Eu me recuso a engolir esse discurso. O artista tem de
ser responsável pela sua obra. O diretor artístico de uma
gravadora não escreve letras, não compõe música.
A função dele é fazer com que o disco seja tocado
nas rádios e que comece a vender. A canção existe
porque um artista a compôs e gravou, não porque a gravadora
disse: "Aqui estão cinco palavras legais. Faça-se uma música
com elas".
Veja O senhor foi diretor da gravadora Warner na década
de 80. Nesse período, George Harrison e Eric Clapton lançaram
os piores discos de sua carreira. A culpa foi toda deles?
Berman
Eles lançaram discos bons e ruins. Uma coisa compensa a outra,
e vamos deixar as coisas por aí.
Veja Algumas gravadoras brasileiras pensam em lançar
internacionalmente seus artistas a Universal, por exemplo, tem
planos para a dupla Sandy & Junior. Como o senhor vê esses projetos?
Berman
Seria muito mais fácil três anos atrás, quando o Brasil
ocupava uma posição melhor no ranking dos mercados musicais.
Hoje, não acho que as gravadoras tenham cacife suficiente para
promover adequadamente esses artistas. É outro dos males provocados
pela pirataria.
Veja As gravadoras têm lutado muito contra a distribuição
de músicas pela internet, promovida por sites como o Napster. Para
onde caminha essa briga?
Berman
Programas como o Napster e o Audiogalaxy, que saiu da rede há alguns
dias, têm muito pouco a ver com a indústria musical. Antes
de tudo, eles são meios de enriquecer seus criadores, que vendem
espaço a anunciantes enquanto oferecem de graça o produto
criado por outras pessoas. Por isso, continuaremos tomando as medidas
jurídicas necessárias para enquadrá-los e tornar
a venda de músicas pela internet um negócio legal.
Veja O Napster ganhou a simpatia de tantas pessoas no mundo
porque possibilitava a troca de músicas entre fãs, além
de permitir que o usuário gravasse apenas as canções
de que gostava, sem ter de comprar um disco inteiro. Isso não é
uma maneira inteligente e revolucionária de lidar com o mercado
musical?
Berman
Não vamos confundir avanço tecnológico com roubo.
Por se apossar de criaçõe apenas as canções
de que gostava, sem ter de comprar um disco inteiro. Isso não é
uma maneira inteligente e revolucionária de lidar com o mercado
musical?
Berman
Não vamos confundir avanço tecnológico com roubo.
Por se apossar de criações alheias sem pagar nada o Napster
era ruim. Mas deve-se reconhecer que sites desse tipo chamaram a atenção
para o potencial de negócios da internet. As companhias de disco
ficaram tempo demais sem prestar atenção às novas
tecnologias. As grandes vantagens da internet são o espaço
ilimitado e a possibilidade de identificar melhor o gosto dos fãs
e oferecer-lhes produtos especiais. Numa loja, você simplesmente
não consegue expor todas as novidades. São sempre os mesmos
artistas que ganham destaque. Na internet esse problema não existe.
Além disso, é possível criar mecanismos para descobrir
quem ouve o quê, e trabalhar para satisfazer essas preferências.
A tecnologia, enfim, nos torna capazes de oferecer o que as pessoas querem
na hora que elas desejam. Isso, sem dúvida, está mudando
o mercado.
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