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Edição 1 760 - 17 de julho de 2002
Entrevista: Jay Berman

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Chega de
pirataria

O presidente da associação internacional
de companhias de discos diz que o comércio
clandestino saiu de controle no Brasil e
pede reação enérgica do governo

Sérgio Martins

 
Divulgação
"A falsificação de CDs no Brasil ganhou feições de crime organizado com conexões internacionais"

Em meados do mês passado, o americano Jay Berman, presidente da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, em inglês), associação que representa os interesses das maiores gravadoras do mundo, desembarcou no Brasil para pedir empenho do governo na luta contra a pirataria. Berman trouxe consigo números espantosos. No ano passado foi fabricado 1,9 bilhão de CDs piratas no mundo. Desses, cerca de 40 milhões teriam sido comercializados em território brasileiro. O país perde apenas para China e Rússia no ranking desse comércio ilegal. "A peculiaridade da situação no Brasil está no fato de os artistas mais pirateados serem brasileiros mesmo, o que não acontece nos outros países", diz Berman. O executivo frisa que a situação saiu de controle, que a venda de discos falsificados está financiando outras atividades criminosas e que uma reação enérgica das autoridades é indispensável. "As gravadoras multinacionais estão chegando à conclusão de que não vale a pena investir no Brasil", lamenta. Jay Berman tem 64 anos. Formado em história, largou a vida acadêmica em meados dos anos 70, para trabalhar com música. Seu sonho era conhecer Elvis Presley pessoalmente. Não realizou o intento, mas teve a oportunidade de trabalhar com ídolos como Eric Clapton e George Harrison. É presidente da IFPI desde janeiro de 1999.

Veja – Que dimensão tem o problema da pirataria musical no Brasil?
Berman – A situação é calamitosa. Mas não são somente os artistas e as gravadoras que precisam preocupar-se com esse comércio pirata. No Brasil, a pirataria já não tem mais a ver apenas com o sujeito que vende CDs falsificados numa banquinha de esquina. Ela ganhou dimensões industriais. Há dez anos, os CDs piratas que você encontrava no Brasil eram todos trazidos da China. Agora eles estão sendo produzidos aqui mesmo, ou em países vizinhos, como o Paraguai. Só os discos virgens são trazidos de Taiwan. A pirataria de discos no Brasil ganhou feições de crime organizado com conexões internacionais. Entregamos ao governo brasileiro um dossiê com informações a respeito disso. Agora, cabe a ele agir.

Veja – O que diz o dossiê que o senhor entregou ao governo?
Berman – É um documento confidencial, não posso revelar seus detalhes. Mas pergunte a um agente qualquer da seção brasileira da Interpol e ele lhe dará algumas informações interessantes. Dirá, entre outras coisas, que os criminosos que lidam com pirataria musical não reinvestem todos os seus lucros nesse negócio: trabalham também com armas e drogas. Ele chamará sua atenção para os bons negócios que organizações árabes de Ciudad del Este estão fazendo com os piratas brasileiros. Até mesmo o terrorismo já foi financiado pela pirataria.

Veja – Onde a pirataria financiou o terrorismo?
Berman – Na Irlanda do Norte, por exemplo. Algumas fábricas de CDs falsificados entregavam parte de seus lucros ao IRA, para financiar ataques. Ou seja, não estamos falando de garotos que gravam fitas no quarto e as vendem a seus amigos, a fim de faturar uns trocados. Estamos falando de bandidos perigosos. A articulação dessa gente é impressionante: em Londres encontramos integrantes da máfia russa que vendiam CDs fabricados em São Petersburgo. Essas pessoas também estiveram envolvidas na maior fraude de cartões de crédito da história do Reino Unido. Com o dinheiro que conseguiam na venda de CDs piratas, eles criaram uma rede de suborno de garçons e empregados de lojas, que clonavam o cartão dos fregueses. Esses cartões, depois, eram negociados num site da internet. Cerca de 500.000 cartões de crédito foram vendidos a um preço médio de 3.000 libras cada um. Um dos bandidos foi preso e implorou para não ser extraditado. Dizia que a máfia russa iria matá-lo.

Veja – Há algumas semanas, um ex-funcionário da Sony Music foi preso vendendo CDs piratas no Rio de Janeiro. É possível que a máfia da pirataria esteja instalada dentro das próprias gravadoras?
Berman – É claro que sim. Quando a situação sai de controle, tudo pode acontecer.

Veja – Qual a posição ocupada pelo Brasil no ranking mundial da pirataria?
Berman – Não é o primeiro colocado, mas está próximo. Na China, por exemplo, 90% de todos os discos vendidos são piratas. No Brasil, a pirataria dominou cerca de 60% do mercado. Dez milhões de CDs ilegais foram apreendidos no ano passado por aqui, e isso é apenas a ponta do iceberg. O Brasil ainda tem um mercado oficial grande, mas ele está encolhendo a olhos vistos por causa da pirataria. Há três anos, o país tinha o sexto maior mercado de discos do mundo. Hoje, está na 12ª posição. O que torna o Brasil um caso tão triste é o fato de sua música ser boa. É um país de tradições ricas, de artistas apreciados no planeta inteiro, mas que corre o risco de ver seu mercado sufocado pela pirataria. Nos outros lugares, o que os piratas tentam fazer é ganhar dinheiro com música saída dos Estados Unidos e da Inglaterra. Já no Brasil, a maior parte dos artistas pirateados é daqui mesmo. É um caso único.

Veja – Em março do ano passado, o governo brasileiro criou um comitê ministerial para tratar da pirataria. Quais os resultados práticos dessa medida?
Berman – Nenhum. Tanto assim que a pirataria só aumentou de lá para cá. Não é com comitês e seminários que o problema será resolvido. O que o governo precisa fazer é pôr a mão na massa: aumentar as penalidades previstas em lei para os piratas e começar a prendê-los. Podemos ajudar com informações, e estamos fazendo isso desde 1996. Naquela época, identificamos os lugares da Ásia onde eram produzidos os discos piratas vendidos no Brasil e viemos aqui para passar esses dados. Nós nos reunimos aos artistas brasileiros e juntos solicitamos medidas drásticas. Ninguém nos deu atenção. Existe a ilusão de que a pirataria não é um problema tão grave. Mas isso não é mais verdade. O problema é gravíssimo e está no quintal de vocês. As autoridades precisam acordar. Sabemos que é possível combater esse tipo de pirataria porque vimos isso acontecer em Hong Kong. O governo de lá resolveu agir com dureza e os piratas tiveram de se mudar de lá. Os que atuam no Brasil estão confortáveis e nem pensam em se mexer.

Veja – O Senado brasileiro aprovou uma lei que obriga as companhias fonográficas a numerar seus lançamentos para que os artistas tenham um melhor controle sobre as vendas de suas obras. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Berman – Eu considero essa atitude uma estupidez. Numerar CDs não é um processo imediato. Ele requer ajustes de máquinas, toda uma rotina trabalhosa. As companhias terão um gasto extra e serão obrigadas a repassar esse gasto para o consumidor. Com isso, os piratas ganharão mais ainda a dianteira no preço. É uma medida que ajuda a aniquilar a indústria.

Veja – O que a associação que o senhor representa pretende fazer se a situação não melhorar no Brasil?
Berman – Há gravadoras que falam em sair do Brasil. O certo é que o nível de investimentos diminuirá muito. Por que manter um diretor artístico aqui, por que investir em artistas novos, se os piratas é que vão lucrar? Será muito mais fácil lançar discos da Madonna e outros produtos de fora, e deixar por isso mesmo.

Veja – Quantos CDs o senhor compra por mês?
Berman – Dez em média. Você sabe, não é tão barato. A última coisa que adquiri foi uma caixa com quatro CDs de The Last Waltz, concerto de despedida do grupo de rock The Band, que fez muito sucesso nos anos 60.

Veja – O senhor acaba de reconhecer que o preço do disco é alto. Não seria esse um dos principais motivos de a pirataria ter tanta força?
Berman – Ainda que o preço dos discos caísse muito, seria impossível competir com os piratas. O único custo que os falsificadores têm é de fabricação. Eles não pagam impostos, não investem em produção, em marketing e também não descobrem talentos. Eles só comercializam o sucesso. Não fazem, enfim, apostas que podem não dar certo. Com as gravadoras ocorre o contrário. Porque, na verdade, são poucos os discos que realmente dão lucro hoje em dia. E é desses discos que dependemos para manter no mercado coleções de jazz ou música clássica, cujo público é restrito.

Veja – O senhor não acha que as gravadoras investem dinheiro demais no marketing de cantores sem qualidade artística, como a cantora americana Britney Spears?
Berman –
Pessoalmente, eu prefiro Bob Dylan a Britney Spears. Também tenho dúvidas sobre a qualidade artística dela. Mas não temos o direito de ser arrogantes e pensar que a música de que aprendemos a gostar é a única que faz sentido. Se artistas como Britney não tivessem algo a dizer aos adolescentes, não haveria tantos discos piratas deles sendo vendidos.

Veja – Recentemente, a cantora Mariah Carey foi despedida pela EMI por causa das baixas vendas de seu último disco. Ela disse que a culpa do insucesso era da gravadora. Quem estava certo?
Berman – Mariah Carey aceitou todos os créditos por vender milhões de discos. Agora, deveria aceitar a culpa por seus fracassos. Mas isso não vai acontecer. É bom ser artista: você nunca é culpado de nada. Eu me recuso a engolir esse discurso. O artista tem de ser responsável pela sua obra. O diretor artístico de uma gravadora não escreve letras, não compõe música. A função dele é fazer com que o disco seja tocado nas rádios e que comece a vender. A canção existe porque um artista a compôs e gravou, não porque a gravadora disse: "Aqui estão cinco palavras legais. Faça-se uma música com elas".

Veja – O senhor foi diretor da gravadora Warner na década de 80. Nesse período, George Harrison e Eric Clapton lançaram os piores discos de sua carreira. A culpa foi toda deles?
Berman – Eles lançaram discos bons e ruins. Uma coisa compensa a outra, e vamos deixar as coisas por aí.

Veja – Algumas gravadoras brasileiras pensam em lançar internacionalmente seus artistas – a Universal, por exemplo, tem planos para a dupla Sandy & Junior. Como o senhor vê esses projetos?
Berman – Seria muito mais fácil três anos atrás, quando o Brasil ocupava uma posição melhor no ranking dos mercados musicais. Hoje, não acho que as gravadoras tenham cacife suficiente para promover adequadamente esses artistas. É outro dos males provocados pela pirataria.

Veja – As gravadoras têm lutado muito contra a distribuição de músicas pela internet, promovida por sites como o Napster. Para onde caminha essa briga?
Berman – Programas como o Napster e o Audiogalaxy, que saiu da rede há alguns dias, têm muito pouco a ver com a indústria musical. Antes de tudo, eles são meios de enriquecer seus criadores, que vendem espaço a anunciantes enquanto oferecem de graça o produto criado por outras pessoas. Por isso, continuaremos tomando as medidas jurídicas necessárias para enquadrá-los e tornar a venda de músicas pela internet um negócio legal.

Veja – O Napster ganhou a simpatia de tantas pessoas no mundo porque possibilitava a troca de músicas entre fãs, além de permitir que o usuário gravasse apenas as canções de que gostava, sem ter de comprar um disco inteiro. Isso não é uma maneira inteligente e revolucionária de lidar com o mercado musical?
Berman – Não vamos confundir avanço tecnológico com roubo. Por se apossar de criaçõe apenas as canções de que gostava, sem ter de comprar um disco inteiro. Isso não é uma maneira inteligente e revolucionária de lidar com o mercado musical?
Berman – Não vamos confundir avanço tecnológico com roubo. Por se apossar de criações alheias sem pagar nada o Napster era ruim. Mas deve-se reconhecer que sites desse tipo chamaram a atenção para o potencial de negócios da internet. As companhias de disco ficaram tempo demais sem prestar atenção às novas tecnologias. As grandes vantagens da internet são o espaço ilimitado e a possibilidade de identificar melhor o gosto dos fãs e oferecer-lhes produtos especiais. Numa loja, você simplesmente não consegue expor todas as novidades. São sempre os mesmos artistas que ganham destaque. Na internet esse problema não existe. Além disso, é possível criar mecanismos para descobrir quem ouve o quê, e trabalhar para satisfazer essas preferências. A tecnologia, enfim, nos torna capazes de oferecer o que as pessoas querem na hora que elas desejam. Isso, sem dúvida, está mudando o mercado.

 
 
   
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