O reinado da bola
na Praça da Concórdia

A força do futebol é tanta que engole dois séculos
da História francesa, e cinco milênios da egípcia

No centro do mundo, Sua Majestade, a Bola.

A Place de la Concorde, em Paris, é um dos melhores lugares para se estar no planeta Terra. Para quem não conhece, trata-se de um amplo espaço, desenhado na forma de hexágono, no século XVIII, ao tempo do rei Luís XV, e decorado com belas estátuas. Para onde se olhe, tem-se uma visão deslumbrante. De um lado da praça está o Jardim das Tulherias, do lado oposto a Avenida dos Champs-Elysées. Num outro sentido, de um lado avista-se a Igreja da Madeleine e, no lado oposto, em perfeita simetria, a Assembléia Nacional, ambos os edifícios em forma de templo grego. Quem está no centro da praça vê tudo isso e algo mais. Vê o Palácio do Louvre, lá atrás das Tulherias e, do outro lado, ao fim da Avenida dos Champs-Elysées, o Arco do Triunfo, um conjunto que compõe a mais famosa perspectiva urbana do mundo. Vai-se a um canto da praça e encosta-se na margem do Sena. Vê-se dali a Ponte Alexandre III, a mais exuberante das belas pontes que cortam o rio parisiense. Ao fundo, aparece a Torre Eiffel. Se um dia surgisse a necessidade de escolher algum lugar para centro do mundo e de símbolo da aventura do homem sobre a Terra, a Praça da Concórdia seria um bom candidato.

Pois no centro da praça que merece ser o centro do mundo encontra-se, nestes dias, uma bola. Mais exatamente, trata-se de uma réplica gigante da Copa do Mundo, a copa propriamente dita — o troféu que é entregue ao campeão, em cujo topo se assenta uma bola.

Uma história de mais de 200 anos precede a chegada da bola ao local. A praça hoje chamada da Concórdia nasceu com o nome de Luís XV. Foi feita em honra do todo-poderoso rei, e por isso mesmo, além de batizada com seu nome, recebeu no centro, no mesmo lugar que hoje é da bola, uma estátua de Sua Majestade. Aquilo que tinha a intenção de celebrar a glória do monarca e a eternidade da monarquia, no entanto, teve vida breve. A Revolução Francesa baniu da praça o nome e a estátua do rei. O nome passou a ser Praça da Revolução. E em vez de estátua ergueu-se no local uma guilhotina, o instrumento pelo qual os novos donos do poder se livrariam das cabeças dos antigos. A mesma praça que pretendia assinalar o triunfo do status quo foi transformada assim em seu avesso. O pescoço de Luís XVI, o infeliz monarca apanhado no furacão revolucionário, inaugurou, em 1793, a lâmina da guilhotina armada na praça. No mesmo lugar onde um rei merecera a suposta imortalidade de uma estátua seu sucessor experimentou, no pescoço, a fugacidade do prestígio dos governantes e dos regimes que representam.

Estão-se repisando velhas histórias para mostrar como a esplêndida praça, que foi do rei, virou da Revolução e hoje é da Concórdia, mesmo agora, com a bola em seu centro, cumpre o destino de servir de emblema aos tempos que correm. O nome "da Concórdia" lhe foi dado quando se quis chamar à paz os franceses exauridos de sangue. O mesmo lugar que fora do rei e de seus adversários seria agora de todos. No centro da praça colocou-se um obelisco egípcio, resgatado das ruínas do Templo de Luxor. Concluíra-se que o mais aconselhável era ter ali um monumento neutro, a salvo das vicissitudes políticas. Esse obelisco, ladeado por duas magníficas fontes, até hoje marca o centro da praça. Ou melhor: marcava. O obelisco agora está escondido pelo troféu da bola, armado em sua volta. Não são apenas os dois séculos e tanto da Praça da Concórdia que a bola domina. Ela também recobre os cinco milênios da civilização egípcia, tragados em seu bojo, expulsos da paisagem, ainda que temporariamente, por seu reinado exclusivo e esmagador.

Isso diz algo de nosso tempo, tanto quanto diziam dos seus tempos respectivos a estátua do rei e a guilhotina. Vivemos num tempo em que, graças ao alcance e o poder de sedução da mídia, criam-se eventos que dominam tudo. É o caso da Copa do Mundo. A bola espetada no centro da praça que poderia ser o centro do mundo é uma metáfora da convergência dos olhos da população mundial para o mesmo ponto. Junto com o evento, divulgam-se padrões de comportamento de alto poder de contágio. É hora de empolgação. De vestir a camisa, sacudir a bandeira e sair gritando. Há algo de irritante e assustador nessa unanimidade. Outro aspecto desagradável das Copas do Mundo é o estímulo aos nacionalismos e às histerias coletivas.

Ao mesmo tempo, porém, é reconfortante que, tanto no gramado como nas arquibancadas, o que se faz em geral é uma simulação das guerras, não as guerras de verdade dos tempos de Luís XV, ainda que haja dias marcados pela demência bélica das equipes e, principalmente, das torcidas. E que, por violenta que seja a entrada do zagueiro no atacante, não costuma produzir o mesmo resultado da lâmina da guilhotina no pescoço da vítima. A bola no centro da Praça da Concórdia, não há dúvida, é de mau gosto. Trai uma vulgaridade populista que destoa do ambiente. Mas, pensando bem, cai melhor, naquele lugar, do que já caíram a guilhotina e a estátua do rei.




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