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Pete Belasco estréia com um disco espetacular

Há várias razões para atribuir a Get It Together, CD de Pete Belasco que sai nesta semana no Brasil, o posto de melhor lançamento da temporada. A começar pela combinação inédita de jazz e música pop que o álbum promove. Há tempos que produtores e disc-jóqueis buscam na obra de jazzistas consagrados a base para um som sofisticado, elegante, que contagie tanto pelo ritmo quanto pela densidade musical. De formação jazzística e com facilidade para compor melodias de caráter pop, Belasco obtém efeitos arrasadores quando combina os dois gêneros. Em vez de reprocessar digitalmente gravações antológicas, como faz a turma do bem-sucedido acid jazz, o compositor se encarrega de escrever e tocar de próprio punho as notas que considera necessárias. No disco, ele assume o piano e o órgão, o sax tenor e a flauta, o vibrafone e a harmônica, além de cantar e fazer as vozes de coro. É um espetáculo.

Se pouca gente mostra tantas qualidades logo no primeiro disco, no caso de Belasco a façanha é ainda maior. Sua estréia em CD foi adiada a contragosto. Seis anos atrás, o músico sofreu um violento acidente enquanto ajudava a rebocar um barco. Suas mãos ficaram gravemente fraturadas, a ponto de ele precisar mantê-las engessadas por quase quatro meses. Até voltar à forma como instrumentista, precisou de muita fisioterapia. Como a personagem Poliana, ele costuma dizer que o acidente foi a melhor coisa que lhe aconteceu. Isso porque, sem poder tocar, passava o tempo lapidando as melodias e os arranjos que estão em Get It Together. A convalescença rendeu ótimos resultados. A faixa de abertura, por exemplo, tem todos os atributos para virar um clássico do jazz contemporâneo. Love Train, a quinta do disco, pode vir a ter o mesmo destino em outro segmento, o das baladas românticas que fazem a sensação dos casais em pistas de dança.

Vergonha da voz — Revertendo a lógica segundo a qual o chamado ecletismo é mera desculpa para quem não consegue definir um estilo próprio, Belasco tira vantagem da diversidade ao circular por gêneros minimamente afins. Indo do bebop ao funk, mantém coerência em cada caso. Para que isso funcione, pesa em muito sua voz versátil. Ele é provavelmente o único cantor capaz de soar como o roqueiro Elvis Costello em uma faixa, enquanto na seguinte evoca o timbre de um cantor de soul. Qualquer que seja o caso, a voz entra muito bem, mesmo que ela em si não seja nenhuma maravilha. Belasco canta de um jeito casual, sem se preocupar com a empostação. Até pouco tempo atrás, envergonhado da limitação de suas cordas vocais, convidava outros cantores para assumir o microfone, preferindo dedicar-se apenas ao piano e ao sax. Ele garante que só aceitou cantar no CD porque foi encorajado pelo diretor artístico da gravadora que o contratou.

Belasco é um talento raro, daquele que aparece um a cada década. Nascido em Nova Jersey, nos arredores de Nova York, começou a aprender piano com os pais, quando tinha 7 anos. Das lições domésticas passou para o conservatório e graduou-se em música na universidade. Achando que seria difícil decolar em Nova York, mudou-se para Miami, onde montou vários grupos, nenhum com chances concretas de sucesso. Apesar do ótimo disco de estréia, Belasco ainda está longe da consagração. Um artigo recente do jornal The New York Times incluiu o compositor numa lista de talentos que inexplicavelmente passam longe das paradas de sucesso. Ainda bem que o fraco desempenho do disco no mercado americano não fez com que sua gravadora desistisse de lançá-lo por aqui. Get It Together merece vaga em qualquer discoteca.

C.M.




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