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Por causa de Hollywood, o compositor polonês Frédéric Chopin (1810-1849) ficou famoso como grande amante e patriota exemplar. No célebre filme À Noite Sonhamos, ele aparece vivendo um tórrido relacionamento amoroso com a escritora Aurore Dupin, que assinava com o pseudônimo masculino de George Sand, e dando centenas de concertos para arrecadar fundos para sua Polônia natal. Na versão das telas, o compositor, tuberculoso, chega a manchar de vermelho o teclado do piano com suas hemoptises durante os recitais. O escritor e jornalista Tad Szulc acaba de lançar nos Estados Unidos um livro que destrói esse mito romântico criado pelo cinema. Chopin in Paris, ainda não traduzido para o português, mostra que o "grande amante" tinha, na verdade, ojeriza a mulheres. O Chopin patriota também não resiste a uma análise mais acurada. Segundo o livro, o compositor mudou-se para Paris não por perseguição política, mas porque achava que a capital cultural da Europa na época era o melhor lugar para empinar sua carreira artística.
Como o título sugere, o livro é centrado nos dezoito anos que Chopin viveu em Paris. Ele chegou à cidade em 1831, com 21 anos e duas cartas de apresentação na algibeira, e ali morreu aos 39, de tuberculose. Grande parte do charme do livro está no retrato do meio artístico francês de então, povoado de figuras como o pintor Eugène Delacroix, o escritor Honoré de Balzac e compositores como Liszt e Berlioz. Szulc, autor de ótimas biografias de Fidel Castro e do papa João Paulo II, usa sua veia jornalística para comparar o mundo artístico da época com o show business atual, mostrando que, nos dois casos, a vida mundana é tão importante para o sucesso quanto o talento. Carreirista, Chopin era um arroz-de-festa juramentado. Freqüentava todas as reuniões que podia, dava jantares e bajulava os poderosos. Mesmo demonstrando tendências anti-semitas em suas cartas, procurava manter boas relações com a família Rothschild, uma das mais ricas da Europa. Charmoso e bem-falante, embora um pouco afetado, fazia sucesso com as mulheres, mas tudo indica que seus amores foram todos platônicos. Seria Chopin homossexual? Szulc diz que é difícil provar, mas inclui no livro trechos de cartas enviadas a um amigo de infância na Polônia que terminam invariavelmente com a frase "beijos molhados em sua boca".
Cafajeste Uma parte significativa do livro é dedicada ao "casamento" de nove anos entre Chopin e a escritora Aurore Dupin, a George Sand. Além de adotar nome masculino, ela gostava de se vestir com roupas de homem e fumava charutos em público. Nos cafés parisienses, entre uma baforada e outra, gostava de falar de seus amantes de maneira um tanto cafajeste entre eles o compositor Franz Liszt e os escritores Prosper Mérimée (autor de Carmen) e Alfred de Musset. Essa mulher de personalidade peculiar foi a única companheira duradoura de Chopin. Ou seja, além de não gostar de sexo, ele também não se opunha às escapadas da mulher. Por causa de George Sand, uma esquerdista que fazia parte do círculo de amigos de Karl Marx, Chopin passou à História como um sujeito politizado. Outra mentira. Em 1848, enquanto revoluções liberais pipocavam pela Europa, e Paris estava cheia de barricadas, Chopin filosofava: "Com essa confusão, vou perder alunos e diminuir minha renda". Hollywood costuma mostrar compositores como seres iluminados, incompreendidos pelas "pessoas normais". Amadeus, sobre Mozart, e Minha Amada Imortal, a respeito de Beethoven, são exemplos recentes dessa mitificação (ainda que o primeiro seja um ótimo filme). Livros como o de Tad Szulc têm o mérito de restituir a dimensão humana dessas personalidades.
João Gabriel de Lima
Copyright © 1998, Abril
S.A. |