O SUPER SAFRA

A vida e os negócios de José Safra, o banqueiro que defende ferozmente sua privacidade

Eliana Simonetti

Foto: Ana Araujo


"Quem viveu no Líbano aprende a ser tolerante"

O banqueiro Joseph Safra tem duas paixões antigas, além de seu banco. Uma é a coleção de livros raros e obras de arte que, se não é a maior, é uma das maiores do país. De vez em quando, movido pela outra paixão, ele se enfia no meio de multidões, berrando, sofrendo e suando a camisa. É o seu amor pelo futebol. O time, que ele venera há trinta anos, é o Corinthians. Na semana passada, Safra foi à França, para assistir ao primeiro jogo da seleção brasileira, porque acha que é o seu dever. "Eu sou pé-quente. Vou dar sorte ao Brasil, como dei na última Copa." Mas sofreu no estádio. "Deixaram os escoceses livres para fazer o que quiseram!", dizia, indignado, depois do jogo. A nova paixão de José (como gosta de ser chamado) são os telefones. No ano passado, o grupo Safra investiu 1 bilhão de dólares para obter a concessão da banda B na Grande São Paulo e em seis Estados do Nordeste, junto com a companhia americana BellSouth. Seu próximo passo, no ramo telefônico, será entrar com uma carreta de dinheiro na privatização do sistema Telebrás.

Dentro e fora do sistema financeiro, fala-se muito sobre José Safra e seu banco. Sobretudo, especula-se sobre esse financista misterioso. Em torno de Safra, um homem de 1,70 metro de altura e 59 anos, giram histórias fantásticas, como a de que seria protegido por um pelotão de agentes do Mossad, o serviço secreto israelense. A mesma coisa ocorre com as atividades do banco. Essas especulações são geradas pelo comportamento do próprio Safra, pessoa que defende a intimidade de sua família e de seus negócios de um jeito feroz.

A riqueza de José

É dono do banco Safra, o quinto maior do Brasil

Tem bancos em Nova York, Luxemburgo, Bahamas, Israel e nas Ilhas Cayman

Entrou na telefonia celular com o consórcio BCP, que explora a banda B em São Paulo e em sete Estados do Nordeste. O consórcio já investiu 4 bilhões de reais

Pretende disputar a telefonia fixa e celular na privatização do sistema Telebrás

Conservadorismo — Safra tem uma preocupação obsessiva com a sua segurança, e a verdade é que não gosta mesmo de falar. "Às vezes eu não me expresso muito bem em português. Tenho medo de ser mal interpretado." Filho de uma família judia com origem na Síria, José fala inglês, francês, espanhol, italiano, árabe e hebraico. Mas, com seu temor de "ser mal interpretado", há dez anos não dava entrevistas. Abriu uma exceção a VEJA. O resultado foram quase oito horas de conversa, em que Safra desfez mitos, falou da família, de seus medos, de seus agentes de segurança, de sua rotina em casa. E também da própria casa, um palácio de 11000 metros quadrados de área construída, que impressiona as pessoas. A saga desse banqueiro, que nasceu no Líbano em 1938, girou anos pelo mundo e chegou ao Brasil em 1962, tem pontos assombrosos.

A primeira coisa que se deve saber a respeito de José é que ele não gosta de aventura. O Safra é o quinto maior banco privado do país e um dos mais líquidos. Isto é, tem muito dinheiro no cofre e pouco dinheiro emprestado. Não empresta muito dinheiro a cliente nenhum, nem empresta a longo prazo. Não se atirou no jogo das bolsas, nunca se meteu a comprar empresas. A telefonia celular é a primeira grande experiência fora do setor financeiro, e ainda assim foi empreendida depois de quase dez anos de estudo. "Eu não gosto de jogo, não gosto de risco, não piso em lugar que não conheço. Sou extremamente conservador." O banco Safra, por essa razão, não é dos mais rentáveis do país. Mas também não pede socorro ao Banco Central para fechar seu caixa, e na turbulência que está varrendo dezenas de bancos o Safra não foi arranhado.

"Se pudesse voltar no tempo não faria minha casa tão grande"

O conservadorismo se vê pelo guarda-roupa. José tem catorze ternos, doze na cor azul-marinho e dois cinzentos. Gravata vermelha ou estampada com bichinhos é heresia. Mesmo o rigorosíssimo Lázaro Brandão, tão conservador que come maria-mole de sobremesa, já se permite uma certa festa com as gravatas. José Safra, não. Uma vez foi a uma reunião em que o publicitário Roberto Duailibi, seu amigo desde a juventude, apareceu de blazer. "Ele ficou me olhando com cara de quem não gostou. E me perguntou como escolho minhas roupas", conta Duailibi. No trato pessoal, José Safra tem dois pólos. Normalmente é um sujeito cordial, bem-humorado e tímido nos gestos. Dá a impressão de que pensa em francês e verte o que pensa para o português. É perceptível que faz um esforço para usar as palavras certas e pronunciá-las corretamente.

Ciúme — No outro pólo, encontra-se às vezes um Safra que explode. E, para quem já assistiu a uma de suas sessões de fúria, não é um espetáculo agradável. Certa ocasião, um banqueiro contratou um executivo do banco Safra, o que irritou José. Pouco tempo depois, José tomou-lhe uma equipe inteira. "Ele se vingou, mas acabamos fazendo as pazes", conta o banqueiro. O fato é que José Safra paga salários e bônus que estão entre os mais altos, permite que seus executivos entrem em sua sala sem bater e o chamem pelo primeiro nome. Não suporta que mexam com a sua gente. "Eu não gosto que tirem funcionários do meu banco. Tenho ciúme", diz.

O código de maneiras para tratar com o banqueiro tem cláusulas estritas que é bom observar. Uma delas é não atrapalhar seu almoço. Ele acontece num salão do prédio-sede do banco, na Avenida Paulista, em São Paulo. Ali se sentam cinqüenta executivos para a refeição com o chefe, que na maioria das vezes se serve de peixe com legumes. Não é mania. Os pratos preferidos de Safra são os árabes, mas ele é exigente. "Gosto de prato árabe bem-feito, e isso só consigo na minha casa." Há alguns anos um personagem da turma do ex-presidente Fernando Collor de Mello cometeu a indelicadeza de atrasar o almoço dos 51 safrianos. Era PC Farias, que chegou sem avisar. Safra o recebeu durante uma hora a portas fechadas, enquanto os cinqüenta esperavam no salão. Quando PC foi embora, Safra abriu a porta do restaurante, deu um suspiro de desgosto e fez um comentário que ninguém no banco quer revelar. "Eu não me lembro, mas pode ser que isso tenha acontecido", diz Safra.

O casarão da
família em São
Paulo: protegidos
por um batalhão
de seguranças
Foto: Antonio Milena  

Fortuna — A história que se conhece sobre a vida dos Safra no mercado financeiro começa com Jacob Safra, o pai de Joseph. Provavelmente, os Safra já eram banqueiros havia mais tempo, mas os registros se perderam. Jacob nasceu em 1891 em Aleppo, uma cidade que fica na região noroeste da Síria, no cruzamento de grandes rotas comerciais. Ainda era menino quando seu pai, um dos banqueiros da cidade, morreu devido a um apêndice supurado. Jacob foi criado por um tio, Ezra Safra, dono da casa bancária Safra Frères & Cie, com filiais em Alexandria e Istambul. Naquele tempo, a função principal dos bancos era financiar as caravanas de comerciantes. Jacob cresceu em Aleppo e, em 1914, com 23 anos, foi enviado a Beirute, para abrir uma nova filial do banco. Ele tinha um talento que foi muito útil em seu trabalho. Conseguia calcular de cabeça o câmbio das diferentes moedas transacionadas no Mediterrâneo. Sabia quantas piastras tinha dado a um comerciante que viajava para a Áustria e quantos táleres ele deveria trazer de volta. Esse talento fez crescer sua clientela.

Em 1920, Jacob abriu seu primeiro negócio em Beirute: o Jacob Safra Maison de Banque. Casou-se com uma prima, Esther Safra, e teve oito filhos. Dois deles estão entre os maiores e mais habilidosos banqueiros do mundo. Joseph tem seu banco brasileiro e cinco outras instituições financeiras no exterior: nos Estados Unidos, Israel, Bahamas, Ilhas Cayman e Uruguai. O irmão Edmond, 66 anos, é dono do Republic National Bank of New York, o 15º maior dos Estados Unidos. O Republic é uma potência. É tido como um banco tão seguro que outros bancos americanos, como o Citibank, guardam suas reservas em ouro em seus cofres. É um dos cinco bancos que definem diariamente o preço internacional do ouro na praça de Londres. A fortuna pessoal de Edmond, segundo a revista americana Forbes, está entre as 150 maiores do mundo. Ele tem mais dinheiro do que os legendários banqueiros Rothschild.

"Eu não gosto de jogo, não gosto de risco,
não piso em lugar que não conheço. Sou extremamente conservador"

Mau negócio — A família Safra deixou o Líbano depois da II Guerra Mundial, quando se formou o Estado de Israel e árabes e israelenses passaram a se enfrentar em conflitos armados. "Meu pai imaginou que uma terceira grande guerra não tardaria e começou a procurar um país mais tranqüilo para viver. Escolheu o Brasil", conta José. Em São Paulo, onde aportaram em 1951, Jacob e seu filho Edmond iniciaram negócios modestos. Importavam materiais para construção. Em 1955, Moise, outro dos irmãos de José, juntou-se à família no Brasil. Dois anos depois, em dezembro de 1957, Jacob montou uma financeira, que comprou um pequeno banco. Em 1967, o Safra era fundado. Os filhos de Jacob não chegaram todos logo ao Brasil. Foram estudar na Inglaterra, onde José terminou o 2º grau e obteve o único diploma que tem. Da Inglaterra, José foi para os Estados Unidos, trabalhar no Bank of America, e depois para a Argentina, com o objetivo de estudar o sistema bancário.

O banqueiro que não cursou faculdade conta que tinha fascinação pelo ofício desde menino. Nos tempos do Líbano, era mensageiro do pai. Mas estreou no mercado financeiro cometendo um mau negócio. Com 17 anos, comprou o equivalente a 300 dólares em moeda egípcia, apostando na alta. Perdeu o capital e o sono, durante um mês. "Eu não me conformava de ter feito essa bobagem." Mais tarde, mostraria truques de mestre aos seus colegas. Um deles foi o seguinte. Em 1988, José Safra percebeu que o mês de maio tinha dois feriados e cinco fins de semana, e os rendimentos na caderneta de poupança seriam maiores do que os de qualquer outra aplicação no mercado financeiro. Depositou, de uma só vez, 21 bilhões de cruzados, que correspondiam a 125 milhões de dólares, em cadernetas de poupança do BNCC e da Caixa Econômica Federal. Ganhou uma fortuna e provocou uma mudança no comportamento dos bancos, que passaram a restringir depósitos muito altos numa única caderneta de poupança.

Quando começaram a operar sua financeira no Brasil, os Safra conheciam técnicas que os banqueiros brasileiros não dominavam. Pudera. Os Safra vinham de uma região em que o comércio e seus instrumentos financeiros são complexos há centenas de anos. No Brasil, ao contrário, as técnicas financeiras eram primárias no início da década de 60. Foram eles os primeiros a usar a letra de câmbio e a pagar juros a quem depositasse dinheiro em sua casa, o equivalente a uma conta remunerada. Dois anos depois da fundação da financeira, ela já era a maior do país. A família passou a enfrentar, nesse momento, desconfiança sobre a suas práticas, e é possível também que nessa época o mito sobre os misteriosos Safra tenha começado a se formar. "No princípio nós não fomos bem-aceitos", diz Safra. Na sua percepção, só há dez anos essa hostilidade terminou. Mas deixou seqüelas.

Jacob Safra, o pai
de José: o primeiro,
no Brasil, a pagar
juros sobre os
depósitos em seu banco

Mossad — José Safra, se adora o som das moedas, desembolsa dinheiro com facilidade para doações. Com a ajuda da comunidade judaica de São Paulo, construiu a maior e mais luxuosa sinagoga de São Paulo. Doou cinco esculturas de Rodin à Pinacoteca de São Paulo em 1995. No ano seguinte, sua família comprou 72 páginas em que Albert Einstein desenhou a sua teoria da relatividade, arrematadas num leilão da Sotheby's. A preciosidade foi doada a um museu de Jerusalém. No ano passado, o seu banco investiu 2 milhões de dólares em projetos culturais. José faz doações, todos os anos, também para hospitais, creches e instituições de caridade.

Entre os mitos que o cercam há a velha história dos guarda-costas com carteirinha do Mossad. Correm na praça estimativas variadas sobre o número da tropa. Nos casos mais exagerados, ela chegaria perto de uma centena de homens ligados de alguma forma à segurança de sua família. Em outra história cinematográfica, haveria vários apartamentos num bairro de classe média alta de São Paulo à disposição desse destacamento. Os seguranças de Safra, de sua mulher Vicky e de seus quatro filhos formam um grupo respeitável e ele mesmo diz que são pessoas altamente treinadas. Mas garante que todos são brasileiros, treinados por brasileiros. Segundo Safra, não há, hoje, nem israelenses, nem agentes secretos, nem metralhadoras Uzi na sua guarda pessoal. Mas há alguma verdade na história do Mossad. José conta que quando essa Swat particular foi montada o Mossad realmente preparou os primeiros grupos de guarda-costas.

Edmond, o irmão
mais velho: um dos
quinze maiores banqueiros
dos Estados Unidos

Qualquer pessoa rica tem todo o direito de temer seqüestros, assaltos ou coisa pior diante dos padrões da segurança pública brasileira. Banqueiros, ainda mais. Safra, um pouco mais ainda, pois um sobrinho, Ezequiel Nasser, ex-dono do Banco Excel Econômico, foi seqüestrado anos atrás. A família pagou o resgate e os seqüestradores não foram identificados. Ezequiel, filho de Evelyn, irmã já falecida de José, preferiu desgarrar-se do clã e tentar um vôo próprio. Não seguiu a tradição, de montar um banco de muitos depósitos e poucos empréstimos, e teve de vender o seu Excel Econômico ao banco Bilbao Viscaya no último mês de maio. Os Safra são tão discretos que poucos sabem como o caso Ezequiel realmente é analisado no interior da família.

José Safra nunca mais voltou ao Líbano, desde que Beirute foi destruída pela guerra civil, e esta é uma dor que calou fundo. O banco no Líbano continua funcionando porque foi o pai que o fundou e a família não quer fechá-lo. Mas lá trabalham apenas dez funcionários. José diz que aprendeu uma lição com a tragédia ocorrida na cidade onde deu os primeiros passos nas finanças. "Eu, que vivi no Líbano, aprendi a ser tolerante." Ele é religioso, e bastante. Reza duas vezes por dia com todos os aparatos e freqüenta a sinagoga aos sábados. Mas foge de qualquer exagero litúrgico.

Safra tem um gosto profundo por arquitetura. Deu palpites na construção do prédio-sede do banco, acompanha o projeto arquitetônico de cada nova agência e quando resolveu construir sua mansão no bairro do Morumbi, em São Paulo, exagerou nas proporções. "A casa ficou fora do contexto", diz. O contexto é o Brasil, um país pobre. "É a minha casa, estou feliz com ela, mas se pudesse voltar no tempo não a faria tão grande."

Depois da segunda cirurgia na válvula do coração, Safra nada 500 metros todos os dias na piscina da mansão. Esquia na neve, quando tira férias, normalmente com a mulher e os dois filhos mais novos. Mas coloca o coração em risco quando o seu time entra em campo, sobretudo em dia de clássico. No último, quando o Corinthians enfrentou o São Paulo, José Safra estava no estádio, acompanhado dos filhos, são-paulinos. Nos noventa minutos de família desunida, o Corinthians foi massacrado. "Eu fiquei arrasado", conta o banqueiro. "Mas meus filhos me consolaram."

A filantropia dos Safra

Compraram num leilão e doaram a um museu de Israel os manuscritos da teoria da relatividade, de Einstein

Doaram cinco esculturas de bronze de Rodin à Pinacoteca do Estado, em São Paulo

Investiram 2 milhões de dólares em projetos culturais no ano passado

Construíram a maior sinagoga de São Paulo (foto acima)


As paixões do banqueiro

O Corinthians, seu time há trinta anos

Livros raros, que ele coleciona em estantes envidraçadas, no escritório

Obras de arte, arquitetura e design

Fotos: Sommer Andrey/Nelson Coelho




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