Fifa

João avalanche

Como Havelange virou o jogo em cima da
hora para eleger Joseph Blatter seu sucessor

Foto: Orlando Brito Foto: Alexandre Battibugli
Pelé, cabo eleitoral
de Johansson:
"Platini é perdedor"
Platini, cabo eleitoral
de Blatter: "É uma
honra para mim"

Na manhã de quarta-feira passada, um hóspede com ar abatido encostou-se junto ao caixa do Le Bristol, luxuoso hotel parisiense da Rua Faubourg Saint-Honoré que cobra diária mínima de 600 dólares, e pediu a conta. Estava sozinho. Era o sueco Lennart Johansson, que dois dias antes sonhara tornar-se uma das pessoas mais poderosas e conhecidas do mundo. Mas perdeu. Na segunda-feira, na primeira disputa em 24 anos pela presidência da Fifa — controladora dos rumos, da organização e dos negócios do futebol internacional —, o suíço Joseph Blatter, apoiado pelo brasileiro João Havelange, derrotou-o por 111 votos a 80. Até seis meses atrás, Johansson parecia ser um candidato imbatível à sucessão de Havelange, que desistiu de concorrer ao sétimo mandato. Segundo ele, porque "tudo na vida tem um limite". De acordo com os inimigos, porque seria batido na luta pelo poder de uma entidade que decide o destino de uma parte substancial dos 250 bilhões de dólares que, estima-se, o futebol injeta anualmente na economia mundial.

Havelange, no entanto, venceu de novo. Blatter, que era o secretário-geral da Fifa desde 1981, fala cinco idiomas com fluência (arranha bem o português), ganha 100.000 dólares por mês e passará agora a exercer uma função não remunerada, virou o jogo nos minutos finais. Presidente da confederação européia de futebol, Johansson apostava no apoio maciço de seu continente e dos africanos. Juntas, a Europa e a África reúnem uma centena de votos, suficientes para uma vitória no segundo turno. Embora o sufrágio fosse secreto, como impôs Havelange, os articuladores das duas campanhas não têm dúvidas sobre quem votou em quem. Segundo VEJA apurou, eles concluíram que Blatter recebeu 17 votos da Europa, 23 da África, 20 da Ásia, 4 da Oceania e todos os 47 das Américas.

A posição dos europeus começou a mudar quando ficou claro que Johansson havia prometido à Alemanha a organização da Copa de 2006, pretendida também pela Inglaterra. Em cima da hora, os ingleses fecharam com Blatter, que fez jogo duplo: sem desestimular os britânicos, anunciou que o Mundial poderá ir para a África. Com isso, neutralizou em parte a força do presidente da confederação africana, Issa Hayatou, cabo eleitoral de primeira hora do sueco, ao lado de Pelé, que usou seu prestígio contra o velho desafeto Havelange. Para enfrentar Pelé, Blatter escalou outro craque: o francês Michel Platini, co-presidente do comitê organizador da Copa 98, a quem ofereceu a direção executiva de esportes da Fifa. Durante o confronto, Pelé chamou-o de "perdedor", numa declaração pesada que atingiu, dentro da França, um ídolo nacional. "É uma honra saber que o maior jogador da história conhece meu nome", respondeu Platini com elegância.

Os decisivos votos africanos mudaram de lado por mais uma razão: a entrada em campo do empresário Elias Zacour. Experimentado conhecedor dos bastidores da bola, esse libanês de 70 anos, que na década de 60 organizava as excursões do Santos pelo mundo, já havia operado na campanha de 1974, quando Havelange derrotou o inglês Stanley Rous. "Zacour garantiu pelo menos 12 votos para Blatter", afirma um colega seu argentino. "Ele ganhou porque era o melhor candidato e tinha bons cabos eleitorais, enquanto os de Johansson eram fracos", diz o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que desmente qualquer convite para ocupar a secretaria de Blatter na Fifa. "Terminada a Copa, vou é concorrer com os ingleses, os alemães e os africanos para que o Mundial de 2006 seja realizado no Brasil."

Carlos Maranhão, de Paris




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