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Operação extermínio
Comandos
americanos revelam como usaram gás
letal contra desertores e civis na Guerra do Vietnã
Americanos matando americanos e da pior
maneira possível: com um gás venenoso, de uso proibido
nos países ditos civilizados. A atrocidade não saiu de Apocalypse
Now, a obra-prima do cineasta Francis Ford Coppola
sobre a Guerra do Vietnã, mas de um episódio real,
ocorrido há quase trinta anos e desencavado numa
reportagem conjunta da revista Time e da rede de
televisão CNN. Segundo os depoimentos detalhados de
participantes da operação clandestina, o objetivo era
matar desertores americanos escondidos num vilarejo na
selva. O gás usado foi o sarin, que ganhou um tétrico
renome mundial em 1995, ao ser espalhado por fanáticos
religiosos no metrô de Tóquio, matando doze pessoas, e
se tornou um dos símbolos da campanha americana sobre os
perigos das armas químicas em mãos de regimes
perigosos.
Chocante em todos
os sentidos, o episódio reabre a questão dos crimes de
guerra cometidos no Vietnã, desfaz a versão oficial de
que apenas dois soldados americanos passaram para o
inimigo durante esse conflito e revela a existência de
uma política secreta para assassinar os desertores.
Thomas Moorer, almirante da reserva e chefe do
Estado-Maior das Forças Armadas em 1970, admitiu que
dezenas de soldados desertaram, a ponto de ser montada
uma operação sigilosa para caçá-los. "Podia ser
mais importante matar um desertor do que um vietnamita ou
um russo", declarou um dos participantes do grupo
secreto, John Singlaub, hoje general da reserva.
Explicação alegada: os desertores podiam entregar ao
inimigo códigos de comunicações e segredos táticos. O
mais escandaloso, no entanto, é o uso de armas
químicas. Sarin é o mesmo produto usado por Saddam
Hussein para aniquilar aldeias curdas, episódio sempre
lembrado para justificar as sanções internacionais
contra o Iraque. Embora ainda não tivesse ratificado a
proibição internacional ao emprego de armas químicas,
o governo do então presidente Richard Nixon tinha-se
comprometido a não usá-las. Moorer e outros militares
de alta patente ouvidos pelos jornalistas americanos
garantem que o gás chegou a ser usado várias vezes
durante a Guerra do Vietnã, principalmente para resgatar
pilotos perdidos atrás das linhas inimigas.
"Estávamos dispostos a usar qualquer arma e
qualquer tática para salvar a vida de soldados
americanos", disse Moorer.
Vômito e
convulsões Ou para matá-los, se
fosse o caso. A missão de encontrar e eliminar
desertores refugiados no interior do Laos um país
neutro onde, oficialmente, os americanos não deveriam
combater foi entregue a uma equipe secreta,
conhecida pelo enganoso nome de Grupo de Estudos e
Observação. Sabia-se da guerra secreta dos Estados
Unidos no Laos, mas nunca tinha sido divulgado que
caçaram e mataram seus próprios rapazes, como dizem,
ainda que vira-casacas. Para preparar o terreno para o
ataque, o vilarejo foi bombardeado com sarin. No dia
seguinte, os dezesseis soldados americanos e os 140
mercenários vietnamitas convocados para a operação
terminaram o serviço: exterminaram a aldeia inteira,
mais de 100 pessoas, incluindo mulheres e crianças. No
meio dos civis estava o grupo de desertores americanos
uns quinze ou vinte, os atacantes não pararam
para contar os mortos. "As ordens que recebi foram
para matar tudo o que se mexesse. Se estivesse
respirando, urinando ou defecando, era para matar",
disse Robert Van Buskirk, tenente e chefe do comando.
O tenente lembra
ter perseguido dois desertores, loirinhos, que se
esconderam num túnel subterrâneo. Ele se ofereceu para
levá-los para casa, ouviu e devolveu os palavrões
popularizados pelos filmes americanos. Convencido de que
eram incorrigíveis, Van Buskirk jogou no buraco uma
granada de fósforo, que queima até o osso. O uso do
sarin foi testemunhado diretamente pelos militares
americanos em seguida. Cercados por tropas
norte-vietnamitas e guerrilheiros comunistas laosianos,
os comandos pediram socorro pelo rádio. Dois aviões
Skyraider A-1 despejaram então o gás letal sobre as
tropas inimigas. Entre vômitos e convulsões, morreram
todos. Três anos depois, os Estados Unidos retiraram as
tropas do Sudeste Asiático, encerrando a participação
numa guerra que seus soldados não podiam ganhar, que
seus cidadãos não apoiavam mais e cujos horrores sempre
voltam para assombrá-los.
Escalada
de atrocidades
Sem
conseguir submeter o inimigo, os militares
americanos lançaram mão do que seu arsenal
tinha de mais terrível, exceto bombas nucleares.
Bombardeios de cidades, armas químicas e
chacinas de civis transformaram o conflito no
mais impopular da História dos Estados Unidos.
Armas
químicas Bombas de napalm jogadas por
engano numa aldeia produziram a foto acima, que
virou ícone contra a guerra. O uso intenso do
desfolhante agente laranja para destruir
florestas teve como efeito inesperado
deformações genéticas e enfermidades que
também afetaram soldados americanos.
Bombas
contra civis A quantidade de
explosivos lançados sobre o Vietnã entre 1969 e
1973 foi superior à utilizada pelos aliados
durante toda a II Guerra. A aviação americana
bombardeou maciçamente cidades, portos e
estradas no Vietnã do Norte, com a morte
estimada de 180.000 civis.
Massacres
A chacina de 504 pessoas, incluindo
mulheres e crianças, no vilarejo de My Lai, em
1968 a primeira denunciada e fotografada
pela imprensa nos Estados Unidos , chocou
os americanos e ajudou a virar a opinião
pública contra a guerra no Vietnã.
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