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senador ACM, que sugeriu um ataque direto: "Lula não tem competência" |
| Foto: Ricardo Stuckert |
Começou a campanha eleitoral naquele sentido que as pessoas atribuem a esse ritual de renovação política. Ouviu-se, pela primeira vez, o barulho do tradicional bombardeio que os candidatos mutuamente se impõem na temporada de caça aos votos. Na quarta-feira, o aspirante petista à Presidência, Luís Inácio Lula da Silva, fez uma acusação pesada contra o presidente Fernando Henrique Cardoso. Comentando a privatização da Telebrás, marcada para o dia 29 de julho, com o preço fixado em 13,4 bilhões de reais, Lula atacou: "Ele está dando de graça o maior patrimônio público deste país, possivelmente para fazer caixa dois para a campanha eleitoral". Deu-se mal. Na quinta-feira, o porta-voz da Presidência da República, Sérgio Amaral, anunciou que FHC havia ordenado a abertura de um processo-crime contra Lula por calúnia. Fruto do entusiasmo de palanque e do desconhecimento a respeito de avaliações técnicas de empresas, a acusação caiu no vazio, mas serviu para dar uma pista a respeito do que vem por aí.
No time do governo, a idéia é evitar que Fernando Henrique responda diretamente aos ataques do PT. Dessa missão ficará encarregado o PFL do presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, que já começou a limpar as armas para o combate. "O Lula não tem preparo, não tem competência, não conhece os problemas, não tem credibilidade no exterior e a pouca que tem no Brasil vai desaparecer", comentou ACM. Na quinta-feira, o PFL levou ao ar um comercial de televisão no qual o PT é indiretamente associado à anarquia. "Desemprego se combate atraindo investimentos e qualificando mão-de-obra. Este é o país em que o PFL acredita. E não o país do caos e da desordem", diz a peça publicitária. O comercial do PFL faz parte de uma estratégia de ataque ao PT definida pelos aliados do governo há duas semanas, em reunião com o publicitário Nizan Guanaes, responsável pela campanha da reeleição de FHC. Para traçar o rumo do ataque, Guanaes conversou com ACM, com o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, e com o ex-prefeito do Rio de Janeiro Cesar Maia. Nesses encontros, o publicitário ouviu muito, falou pouco e recolheu idéias e material para a campanha. "Eu acho que o presidente tem de ser direto nas coisas que diz", ouviu de ACM. Cesar Maia lhe deu de presente um vídeo com todas as acusações e xingamentos com que Lula e Brizola se brindaram mutuamente durante a campanha eleitoral de 1989. Quando voltou ao seu escritório, Guanaes tinha entre suas anotações uma estratégia eleitoral bem clara: a teoria do caos.
Invasão de banco "Vamos mostrar que o PT é o caos. Por onde passou, devastou o governo", resume Bornhausen. Para atacar Lula e o PT, o comando da campanha de FHC vai usar os programas na TV a que os partidos têm direito por lei. Cada partido dispõe de uma hora de televisão por ano. A maioria está fatiando parte desse tempo em pequenos comerciais de trinta segundos. O primeiro foi o do PFL na semana passada. Depois entrarão PMDB e PSDB. Não se sabe se o tom agressivo será o mesmo em todos os programas e nem se será mantido quando começar o horário eleitoral gratuito. Para reforçar a idéia do caos, a campanha de reeleição planeja associar o PT a dois outros grupos de oposição, a Central Única dos Trabalhadores e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, MST. A campanha vai mostrar invasões de terra, de bancos e de prédios públicos. Vai relembrar as declarações em que o líder do MST, João Pedro Stedile, se diz contra a permanência dos investidores estrangeiros no Brasil. "O objetivo é deixar claro que se o MST já faz tudo isso num governo democrático, o que ele não faria num governo do PT?", diz Bornhausen. O senador Teotônio Vilela Filho, do PSDB, explica que a idéia, a mesma de sempre em se tratando de Lula, é mostrar que ele não tem estofo de candidato a presidente. "É preciso mostrar que a conta dele não fecha", diz Teotônio. "Ele promete aumentar o número de empregos e os salários ao mesmo tempo que reduzirá os juros, mas se coloca contra as reformas que viabilizariam o equilíbrio do Estado e o crescimento. É importante deixar claro essas contradições."
Toda campanha é dinâmica e muda ao sabor das pesquisas. Enquanto os institutos apresentavam FHC lá em cima e Lula lá embaixo nas intenções de voto, o presidente planejava apenas apresentar ao eleitorado algumas de suas realizações e fazer o que os tucanos chamavam de "campanha de alto nível". A resposta a eventuais ataques pessoais e baixarias seriam a serenidade e propostas concretas para solucionar os grandes problemas brasileiros. Com a queda de FHC nas pesquisas e a ascensão de Lula, foi preciso fazer um ajuste radical. Fernando Henrique está informado de toda a estratégia de ataque ao PT, mas não irá envolver-se diretamente.
Para responder às acusações de que é sinônimo de caos, o PT correu para onde pôde. Na semana passada, economistas do partido, como Guido Mantega e Aloizio Mercadante, deram entrevistas para espantar o fantasma do radicalismo. Defenderam teses de economistas convencionais, numa reação ao risco que já farejam da exploração publicitária do radicalismo petista. Nas entrevistas, os dois economistas informaram que o PT, no caso de vitória em outubro, não seria ingênuo de mexer no câmbio abruptamente, pois uma desvalorização do real traria instabilidade e insegurança. Afirmaram que o PT não pretende criar nenhum tipo de sobressalto. "Não temos nada preparado para reagir ao terrorismo eleitoral do governo, mas temos conversado sobre o tema", diz o petista Tarso Genro, ex-prefeito de Porto Alegre.
O PT também reagiu em outro ponto sensível. Apressou a elaboração de um programa de governo. Uma comissão, composta de representantes de todos os partidos da aliança de esquerda, está encarregada de preparar duas versões do programa uma longa, de vinte páginas, e outra mais sucinta, de cinco páginas. Ali, se falará de quarentena para o capital estrangeiro, taxação de lucro extraordinário de empresas privatizadas e interrupção do processo de privatização de estatais consideradas estratégicas petróleo, energia e telecomunicações. "Teremos regras claras", afirma Marco Aurélio Garcia, um dos membros da comissão. "Podem não ser as regras que o capital deseja, mas serão claras." O programa deverá estar pronto depois da Copa do Mundo. A idéia é mostrar que a eleição de Lula não provocará a volta da inflação nem a fuga de capitais pela adoção de medidas econômicas estapafúrdias. Pelo visto, o tema central da briga já está definido de ambos os lados.
O PFL ataca o PT
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A miragem do terceiro mandato
Na semana passada, durante uma conversa informal com um amigo em Brasília, o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou escapar que, caso venha a ser reeleito, irá apresentar uma proposta para introduzir no Brasil o parlamentarismo e o voto distrital. Ela estaria no âmbito de uma reforma política mais ampla, que vem sendo discutida há mais de dois anos pelo Congresso Nacional. Além de apresentar a proposta, Fernando Henrique disse que iria empenhar-se pessoalmente na aprovação da mudança que, se vitoriosa, poderia entrar em vigor no fim de seu eventual novo mandato, em 2002. Os amigos com os quais o presidente já tratou do assunto especulam que seu desejo é fazer aprovar o parlamentarismo com o possível objetivo de ser chefe de Estado, tendo tempo para fazer aquilo de que realmente gosta: representar o Brasil lá fora. Um outro político, o primeiro-ministro, se preocuparia com os problemas internos do país. Falar de um projeto ambicioso como esse sem ter a reeleição assegurada pode parecer falta de realismo. Tratando-se de FHC, faz sentido. Antes de ser eleito pela primeira vez à Presidência da República, em 1994, Fernando Henrique já falava a amigos sobre a possibilidade de um segundo mandato para o cargo. Debate recorrente O debate sobre o sistema de governo é recorrente na História política brasileira. Ele existiu entre 1962 e 1963, após a renúncia de Jânio Quadros, mas foi abandonado depois de um plebiscito em 1963. A volta do sistema foi proposta na Constituição de 1988, mas não emplacou. Na época, decidiu-se adiar a discussão para um plebiscito em 1993 quando a proposta foi derrotada. Se FHC conseguisse a aprovação do parlamentarismo e realmente tentasse ser presidente num regime parlamentarista, estaria caminhando para um terceiro mandato. Seria uma maneira mais sutil de conseguir o que outros presidentes sul-americanos vêm tentando por outras vias. Carlos Menem, da Argentina, entrou na Justiça buscando permissão para concorrer novamente, mas não teve sucesso. Alberto Fujimori, do Peru, tentou manobra semelhante com sucesso, mas para completá-la precisa de uma aprovação do Congresso. O maior defensor dessa proposta, até agora, era o deputado Franco Montoro, do PSDB de São Paulo. Ele propõe a imediata votação de um substitutivo estabelecendo o sistema a partir do ano que vem. Mas há oposição no próprio PSDB. "É um momento impróprio para esse tipo de discussão", diz o senador Sérgio Machado, do PSDB do Ceará, relator do projeto da reforma política. |
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