Os passinhos do
gigante desajeitado

Claudio de Moura Castro

Moema Cavalcanti

A era Juscelino sacudiu o Brasil e destravou a cabeça dos brasileiros. Os militares fizeram, desfizeram e deixaram de fazer, legando um saldo que ainda está por ser mais bem avaliado. Mas esses tempos tinham em comum as soluções centralizadas varrendo (ou tentando varrer) o país. Muitos desses vendavais tiveram êxito e, por isso, o país deixou de ser o gigante adormecido de outros tempos. Passou a ser o gigante desajeitado e trôpego.

A herança é descosida e cheia de altos e baixos. O país clama por consertos condizentes com a magnitude dos desastres. Mas nem tudo se resolve no atacado. Há a infinita lista de assuntos em que é o varejo que conta, como tentei mostrar no mês passado.

Quase ninguém presta atenção, mas há progressos nesse varejinho do cotidiano, e os pequenos dão os seus passinhos. Vejamos alguns:

Quando cheguei a Brasília em 1979, ouvi as lamentações sobre a total improdutividade das terras do cerrado. Pouco depois, em modestos laboratórios, cientistas brasileiros desenvolveram variedades de soja que foram postas em simbiose com bactérias que fixam o nitrogênio no solo. Graças a pequenos agricultores gaúchos, que para lá se mudaram levando as novas sementes, o cerrado tornou-se um dos grandes celeiros mundiais de soja.

"Doutor, vamos fazer um programa de qualidade total." Com essas palavras foi recebido meu amigo Hélio pelo encarregado de sua plantação de mamões em Itapipoca, no Ceará.

Andando em um táxi em Belo Horizonte, o motorista chamou a central pelo rádio e pediu para avisar que estava queimada a lâmpada do freio de um outro carro que passava. É menos idealismo que medo da multa, mas o efeito é o mesmo.

Quando vi em Brasília um carro parar antes da faixa de pedestre, achei que havia enguiçado. Mas, como o evento se repetiu pelo dia afora, concluí que uma revolução cultural estava acontecendo na cabeça dos candangos. Isso foi antes do novo código de trânsito. Após sua aprovação, os acidentes fatais no país caíram em mais de 30%.

Passei o Natal no Rio de Janeiro e fiz minha peregrinação de voador inveterado, subindo às decolagens de vôo livre (Pedra Bonita e Charitas). De quebra, subi o Morro do Elefante. Em nenhum desses lugares havia lixo esparramado pelo chão. Não há guardas nem fiscalização em nenhum deles.

Em meados de 1980, viajei em companhia de secretários de Educação do Nordeste. Em momento algum consegui engrenar uma conversação sobre educação, assunto que não despertava o interesse dessas enaltecidas autoridades. Hoje, os secretários de Educação se encontram a cada mês e furiosamente discutem seu assunto preferido: educação.

As reformas educativas bem-sucedidas no Brasil (Minas e Paraná) estão sendo feitas com a participação indispensável dos grupos de pais — que zangam, ajudam e aplaudem.

Chegando pela manhã ao Aeroporto de Guarulhos, hospedo-me em um hotel próximo. Noto na entrada um enorme carro cheio de alto-falantes, mirados para o hotel. Do quarto, posso ouvir melhor o "trio elétrico" do sindicato. Não denunciavam o capitalismo decadente, a privatização ou a exploração do homem pelo homem. Simplesmente acusavam dois participantes de um seminário que se dava no hotel. Diziam que suas firmas estavam tratando mal os empregados. Seu objetivo era colocá-los em posição desconfortável diante de seus colegas, outros patrões. Ou seja, queixavam-se de dois maus capitalistas para os demais. Mais ainda, profusamente pediam desculpa aos hóspedes do hotel que precisavam descansar, sobretudo as tripulações que ali estavam alojadas. Civilizado, pois não?

Há uma longa marcha pela frente. As grandes metrópoles deram para trás, mas houve significativos avanços, principalmente no interior do centro-sul. O caminho do civismo e da responsabilidade é penoso e lento. As fórmulas da produtividade não andam sem a contribuição dos pequenos. Precisamos de bons exemplos de cima e de baixo. Mas, no meu julgamento, há milhões de brasileiros que, com seus passinhos, puxam o país para a frente.

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@earthlink.net)




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