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| Moema Cavalcanti |
A era Juscelino sacudiu o Brasil e destravou a cabeça dos brasileiros. Os militares fizeram, desfizeram e deixaram de fazer, legando um saldo que ainda está por ser mais bem avaliado. Mas esses tempos tinham em comum as soluções centralizadas varrendo (ou tentando varrer) o país. Muitos desses vendavais tiveram êxito e, por isso, o país deixou de ser o gigante adormecido de outros tempos. Passou a ser o gigante desajeitado e trôpego.
A herança é descosida e cheia de altos e baixos. O país clama por consertos condizentes com a magnitude dos desastres. Mas nem tudo se resolve no atacado. Há a infinita lista de assuntos em que é o varejo que conta, como tentei mostrar no mês passado.
Quase ninguém presta atenção, mas há progressos nesse varejinho do cotidiano, e os pequenos dão os seus passinhos. Vejamos alguns:
Quando
cheguei a Brasília em 1979, ouvi as lamentações sobre
a total improdutividade das terras do cerrado. Pouco
depois, em modestos laboratórios, cientistas brasileiros
desenvolveram variedades de soja que foram postas em
simbiose com bactérias que fixam o nitrogênio no solo.
Graças a pequenos agricultores gaúchos, que para lá se
mudaram levando as novas sementes, o cerrado tornou-se um
dos grandes celeiros mundiais de soja.
"Doutor, vamos fazer um programa de qualidade
total." Com essas palavras foi recebido meu amigo
Hélio pelo encarregado de sua plantação de mamões em
Itapipoca, no Ceará.
Andando
em um táxi em Belo Horizonte, o motorista chamou a
central pelo rádio e pediu para avisar que estava
queimada a lâmpada do freio de um outro carro que
passava. É menos idealismo que medo da multa, mas o
efeito é o mesmo.
Quando
vi em Brasília um carro parar antes da faixa de
pedestre, achei que havia enguiçado. Mas, como o evento
se repetiu pelo dia afora, concluí que uma revolução
cultural estava acontecendo na cabeça dos candangos.
Isso foi antes do novo código de trânsito. Após sua
aprovação, os acidentes fatais no país caíram em mais
de 30%.
Passei o
Natal no Rio de Janeiro e fiz minha peregrinação de
voador inveterado, subindo às decolagens de vôo livre
(Pedra Bonita e Charitas). De quebra, subi o Morro do
Elefante. Em nenhum desses lugares havia lixo esparramado
pelo chão. Não há guardas nem fiscalização em nenhum
deles.
Em
meados de 1980, viajei em companhia de secretários de
Educação do Nordeste. Em momento algum consegui
engrenar uma conversação sobre educação, assunto que
não despertava o interesse dessas enaltecidas
autoridades. Hoje, os secretários de Educação se
encontram a cada mês e furiosamente discutem seu assunto
preferido: educação.
As
reformas educativas bem-sucedidas no Brasil (Minas e
Paraná) estão sendo feitas com a participação
indispensável dos grupos de pais que zangam,
ajudam e aplaudem.
Chegando
pela manhã ao Aeroporto de Guarulhos, hospedo-me em um
hotel próximo. Noto na entrada um enorme carro cheio de
alto-falantes, mirados para o hotel. Do quarto, posso
ouvir melhor o "trio elétrico" do sindicato.
Não denunciavam o capitalismo decadente, a
privatização ou a exploração do homem pelo homem.
Simplesmente acusavam dois participantes de um seminário
que se dava no hotel. Diziam que suas firmas estavam
tratando mal os empregados. Seu objetivo era colocá-los
em posição desconfortável diante de seus colegas,
outros patrões. Ou seja, queixavam-se de dois maus
capitalistas para os demais. Mais ainda, profusamente
pediam desculpa aos hóspedes do hotel que precisavam
descansar, sobretudo as tripulações que ali estavam
alojadas. Civilizado, pois não?
Há uma longa marcha pela frente. As grandes metrópoles deram para trás, mas houve significativos avanços, principalmente no interior do centro-sul. O caminho do civismo e da responsabilidade é penoso e lento. As fórmulas da produtividade não andam sem a contribuição dos pequenos. Precisamos de bons exemplos de cima e de baixo. Mas, no meu julgamento, há milhões de brasileiros que, com seus passinhos, puxam o país para a frente.
Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@earthlink.net)
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