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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A guerra perdida
O caso das ambulâncias
mostra que,
ao fim de várias lutas, no Congresso,
a corrupção garantiu sua
vitória
O escândalo das ambulâncias
prova, para quem ainda tinha dúvidas, que sob as cúpulas
generosas do Congresso Nacional se abriga uma das maiores concentrações
de gente disposta a delinqüir no país. Cento e setenta
parlamentares estariam envolvidos, segundo a ex-assessora do Ministério
da Saúde Maria da Penha Lino, que, incriminada e presa, concordou
em delatar os demais implicados para abrandar a própria pena.
Isso significa 33% da Câmara, ou 28% do Congresso como um
todo. Raras corporações abrigariam em seus quadros
semelhante fatia de foras-da-lei.
Ao escândalo das ambulâncias
se soma o do mensalão, no qual, entre os quarenta denunciados
pelo procurador-geral da República, treze são (ou
eram) deputados. Acrescente-se no caso do mensalão que, por
força do coleguismo entre os parlamentares, não foram
identificados senão os distribuidores das propinas. Ficou
de fora o bando, certamente bem mais numeroso, dos que estavam na
ponta de chegada do produto distribuído. Descontem-se os
casos de sobreposição entre um escândalo e outro
gente que estava tanto no mensalão quanto nas ambulâncias
e ainda assim a soma dos dois escândalos resultará
num acréscimo do número de pessoas voltadas para a
delinqüência. Não é absurdo supor, ainda
mais que aos escândalos maiores se devem juntar os do varejo,
como o "mensalinho" do deputado Severino Cavalcanti, que elas representem
40% da Câmara. Em outros países tal parcela faria desabar
o Estado, mas ainda não chegamos ao pior. Teremos eleição
neste ano. O leitor imagina que será eleito um corpo de deputados
melhor do que o atual? Será, na melhor hipótese, igual.
Eis o pior.
O sistema eleitoral brasileiro
é feito sob medida para ladrões, candidatos a ladrão
e mal-intencionados em geral. As eleições parlamentares
são simultâneas às de presidente e governador.
Começa aí uma laboriosa construção cujo
objetivo não pode ser outro senão fazer com que o
eleitor vote às cegas. Claro que a atenção
esmagadora dos meios de divulgação, inclusive o horário
obrigatório dos partidos, se deterá na disputa dos
peixes gordos Lula contra Alckmin ou outro qualquer, no plano
nacional, e candidatos a governador em cada um dos estados. Isso
não só ofusca como diminui a eleição
parlamentar. O eleitor é induzido a crer que se trata de
uma escolha menor.
A essa circunstância vem
se somar o diabólico sistema proporcional brasileiro. Cada
partido pode apresentar um número de candidatos a deputado
até uma vez e meia maior do que o número de vagas
em disputa. Isso significa que em São Paulo, que tem setenta
cadeiras de deputado na Câmara Federal, cada partido pode
apresentar 105 candidatos. Multiplicando-se esse número pelos
cerca de trinta partidos que devem registrar candidatos, tem-se
uma idéia de aonde se pode chegar. Nem todos os partidos
possuem quadros suficientes para preencher sua lista de candidatos
até o limite permitido ou têm interesse em fazê-lo.
Mesmo assim, alcançam-se cifras espantosas. Apresentaram-se
em São Paulo, em 2002, 724 candidatos a deputado federal
e praticamente o dobro 1.444 a deputado estadual.
É de tontear o pobre do eleitor. Não há possibilidade
de apresentação decente dos candidatos, muito menos
condições para debates entre eles e para exposição
de propostas. Já não bastasse a atenção
do público estar voltada para a eleição de
presidente e de governador, a arena lotada aponta para a certeza
de que a votação será a mais desinformada e
leviana possível.
Não é de estranhar
que pesquisas em Pernambuco apontem Severino Cavalcanti como o preferido
entre os candidatos a deputado federal. Se Paulo Maluf se candidatar
em São Paulo, é aposta fácil que estará
entre os mais votados. Maluf, hoje enredado em denúncias,
ganhará então a proteção de um instituto
que também tem papel crucial em fazer do Congresso o que
é a imunidade parlamentar. A imunidade foi criada,
no mundo, para garantir aos parlamentares a liberdade de opinião.
No Brasil protege até de processo por crime de morte. A turma
das ambulâncias não será processada tão
cedo. Tem a imunidade a garanti-la.
A experiência aconselha
concluir não que se venceu mais uma batalha contra a corrupção,
depois que vem à tona uma roubalheira como a das ambulâncias,
logo em seguida à roubalheira do mensalão mas,
muito ao contrário, que se perdeu a guerra. Nestes últimos
anos, a contar do impeachment de Collor, sucessivas vezes o país
teve a sensação de que aplicava um golpe mortal na
corrupção. A cada vez, reanimada por punições
insignificantes, quando havia punição, ela ressurgia
mais vigorosa e audaz. O prognóstico mais realista é
que, assim como o episódio de Collor, o dos anões
do Orçamento e o do mensalão, também o das
ambulâncias resultará em pouca coisa. Travou-se uma
guerra em vários capítulos nos últimos anos
no Brasil e, ao final, animada por satisfatórios cálculos
de custo-benefício e garantida pelo sistema, a corrupção
ganhou.
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