|
|
Tecnologia
O grátis saiu mais caro
Ao insistir no software livre, o governo
deixa de melhorar os serviços eletrônicos
aos cidadãos e desperdiça dinheiro

Duda Teixeira
Paulo Liebert/AE
 |
| Retirada de passaporte em São Paulo: o serviço
on-line poderia eliminar as filas e os atrasos |
Um critério para avaliar
a eficiência da administração pública
é o uso da informática para reduzir a burocracia estatal
e facilitar a vida do cidadão. Quatro anos atrás,
o Brasil pertencia à elite mundial nesse quesito, à
frente do Japão. Brasileiros eram convidados para descrever
em congressos internacionais a experiência nacional com as
compras públicas pela internet, com a declaração
on-line do imposto de renda e com o voto eletrônico. O governo
Lula mudou radicalmente as prioridades nessa área. Em lugar
de ampliar as experiências bem-sucedidas, passou a priorizar
a implantação do software livre na administração
federal. O resultado: o Brasil caiu dezenove posições
no ranking das Nações Unidas que avalia o uso da informática
pelos governos, ficando atrás do Chile e do México.
A oposição aos
programas comerciais leia-se aí a Microsoft, fabricante
do sistema operacional Windows e a maior empresa mundial de software
é uma bandeira do PT. A posição está
baseada, em parte, na desconfiança ideológica que
o partido nutre em relação às grandes corporações
capitalistas. "Não podemos depender dos programas vendidos
por uma ou outra empresa privada", explica Rogério Santanna,
secretário do Comitê Executivo de Governo Eletrônico,
subordinado ao Ministério do Planejamento. O software livre
é um programa ou sistema operacional que pode ser modificado
por qualquer um e, em princípio, pode ser obtido gratuitamente
na internet. Em teoria, é uma boa idéia usar e não
pagar. Na prática, talvez seja um problemão, sobretudo
se o uso se transformar em obrigação. "Ao optar por
um programa, é preciso pesar cuidadosamente os prós
e os contras", diz Fernando Parra, presidente da DTS, empresa de
São Paulo que desenvolve softwares e presta serviços
de tecnologia. "Não se podem tomar, com base em motivos ideológicos,
decisões que deveriam ser técnicas."
Lucas Nunez/Reuters
 |
| Urnas brasileiras no Paraguai: presente do
governo prejudica empresas brasileiras |
A migração para
o software livre custou caro para os cofres públicos. O governo
federal precisou contratar 2.000 técnicos em informática.
Só os salários e os encargos trabalhistas desses programadores
ultrapassam 56 milhões de reais por ano o dobro do
que o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação,
vinculado à Casa Civil, estima que o governo federal economizou
com os programas que deixou de comprar em 2004. Nem sempre o software
livre é pior que o comercial, mas sua adoção
pelo governo brasileiro revelou-se ineficiente. Os técnicos
do Serpro, empresa de processamento de dados subordinada ao Ministério
da Fazenda, tentaram em vão substituir por software livre
os programas que funcionavam com perfeição mas estavam
sendo rejeitados apenas porque operavam em Windows, o sistema da
Microsoft. Foram feitas versões em código aberto do
programa de imposto de renda on-line e do portal de compras públicas
ComprasNet. O resultado foi tão ruim que os dois programas
continuam funcionando no sistema Windows. "A cruzada ideológica
pelo software livre é apenas a ponta do iceberg", diz Florencia
Ferrer, diretora-presidente da FF Pesquisa & Consultoria, de
São Paulo, especializada em governo eletrônico. "O
governo também foi incapaz de inovar na administração
pública usando a tecnologia."
O governo do Paraná envia
mensagens para o celular de desempregados informando sobre vagas
disponíveis. Em São Paulo, já é possível
preencher o boletim de ocorrência policial pela internet e
pedir segunda via do documento de identidade. O governo federal
nem sequer conseguiu fazer o mesmo com a emissão de passaportes.
Um dos principais atrasos refere-se à licitação
on-line. O governo federal faz apenas 46% de suas compras públicas
de material de escritório a papel higiênico
pela internet, contra 80% do governo de São Paulo.
Em uma licitação on-line, a União informa que
bens deseja comprar, e fornecedores de todo o país e do exterior
se engalfinham para ganhar a concorrência com o menor preço.
O comprador sempre sai ganhando, porque o número de ofertas
é muito maior, e a transparência no processo diminui
os riscos de corrupção. Se o governo federal tivesse
o mesmo padrão de compras on-line que o estado de São
Paulo, teria economizado 3 bilhões de reais nos últimos
três anos, segundo estudo da FF Pesquisa & Consultoria.
Algumas promessas de governo
eletrônico foram cumpridas apenas parcialmente, como a de
fazer com que as bases de dados dos diversos órgãos
públicos conversem entre si. O governo tenta sem sucesso
fazer o cruzamento de dados entre as secretarias de Segurança,
da Receita Federal e dos tribunais eleitorais. Em lugar de investir
para oferecer serviços aos cidadãos e melhorar a eficiência
da máquina burocrática, o governo Lula usou as conquistas
eletrônicas da administração anterior em sua
desastrada campanha para se tornar líder sul-americano. A
conseqüência dessa política foi um banho de água
fria nas aspirações comerciais de muitas empresas
sediadas no Brasil que desenvolvem software e urnas eletrônicas.
A Unisys e a Diebold Procomp, fabricantes de urnas eletrônicas
de São Paulo, tinham planos de exportar a tecnologia para
os países vizinhos. Em vez de emprestar algumas poucas urnas
para fazer propaganda, o governo Lula decidiu bancar as eleições
alheias. Só para o Paraguai foram emprestadas 15.000 urnas
para as eleições de 2005 e 2006. A empresa Vesta,
de São Paulo, deixou de vender softwares de compras públicas
on-line para a Bolívia porque Lula, em seu primeiro ano no
poder, resolveu oferecer ao país, de graça, um programa
com a mesma função. "O governo federal não
só reinventou a roda com o software livre à custa
do contribuinte, como prejudicou a competição no mercado
de tecnologia", diz Paula Santos, sócia da Vesta. É
a política do software livre contra o livre mercado.
 |
|