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Brasil
"Na mala, na meia, na cueca"
Como vampiros, os mafiosos
sugavam dinheiro público e
distribuíam propina aos deputados

Leonardo Coutinho e
Marcelo Carneiro
Ana Araujo
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| Delatora premiada: presa, Maria da Penha acusou
81 parlamentares |
O ex-deputado Carlos Rodrigues
é um velho freqüentador do noticiário de escândalos
de Brasília. Conhecido como bispo Rodrigues, ele renunciou
ao mandato em setembro de 2005 depois de ser acusado de participar
de um esquema de corrupção na Loterj e de ter recebido
150.000 reais do valerioduto. Atualmente, o ex-deputado encontra-se
preso em Cuiabá (MT), sob a acusação de envolvimento
na máfia dos sanguessugas o esquema por meio do qual
parlamentares apresentavam emendas ao Orçamento da União,
solicitando a compra de ambulâncias para as suas regiões
em troca de propina paga pela empresa Planam, que vendia os carros
a preços superfaturados. Uma conversa telefônica captada
pela Polícia Federal entre funcionários da Planam
revelou que a quadrilha fez um pagamento de 9.000 reais para o ex-deputado.
Rodrigues prestou depoimento à PF na última quinta-feira.
Aos investigadores, não só admitiu ter recebido dinheiro
da Planam como revelou que a quantia era maior do que se pensava:
77.000 reais e em espécie. Perguntado sobre a origem
da bolada, respondeu: "Negócios com gado". Alguém
se lembra de como o hoje famoso publicitário carequinha de
Minas Gerais justificou, pela primeira vez, o hábito de andar
por aí com tanto dinheiro vivo no bolso? Tudo a ver.
As coincidências não
param por aí. Ganha uma estrelinha dourada do PT quem adivinhar
onde os donos da Planam transportavam o dinheiro da propina para
os deputados. Ora, ora na cueca, claro. E também nas
meias, em maletas e nos bolsos do paletó, conforme relatou
à PF a delatora premiada Maria da Penha Lino, ex-assessora
especial do Ministério da Saúde e tida como peça-chave
no esquema. Também em depoimento à PF, o motorista
Fernando Freitas, que costumava transportar os donos da Planam
Darci Vedoin e seu filho, Luiz Antônio em Brasília,
confirmou que os empresários andavam com maletas abarrotadas
de notas de 100 e 50 reais e, ao chegarem ao Congresso, deixavam
o carro com os bolsos e as meias forrados de notas. Às vezes,
completou o motorista, o dinheiro era tanto que os Vedoin tinham
de voltar ao carro para reabastecer-se de cédulas. E assim
bolsos, meias e cuecas recheados retomavam seu périplo
pelos gabinetes. Os quadrilheiros do PT estão mesmo fazendo
escola.
Esta não é a primeira
vez que o Congresso se vê às voltas com acusações
de roubalheiras envolvendo emendas parlamentares. O escândalo
dos anões do Orçamento, revelado em 1993, envolvia
um esquema similar ao dos sanguessugas: deputados cobravam propina
de empreiteiros e prefeituras para incluir previsão de recursos
destinados a obras públicas. Criou-se a CPI do Orçamento,
seis deputados perderam o mandato, outros quatro renunciaram e algumas
das regras que regulam a apresentação de emendas foram
modificadas não o suficiente, como se vê, para
evitar que o modelo continue sendo uma porta aberta para as fraudes.
Ana Araujo
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Marcello Casal Jr/ABR
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| O empresário Darci Vedoin, dono
da Planam: mais um homem-cueca. À direita, o presidente
da Câmara, Aldo Rebelo: contra a punição coletiva |
A participação do
Congresso nas decisões sobre o Orçamento da União
está na essência das democracias. Em países
como Estados Unidos e França, por exemplo, os parlamentares
também interferem no processo de distribuição
dos recursos federais por meio de emendas individuais. Mas com duas
diferenças fundamentais. A primeira é que, nesses
países, o orçamento aprovado no Congresso é
obrigatoriamente executado pelo governo. No Brasil, os recursos
empenhados pelo Legislativo não são obrigatoriamente
liberados pelo Executivo. Assim, depois de terem suas emendas aprovadas,
os parlamentares passam a depender da decisão dos ministérios
para que suas bases eleitorais recebam os recursos. "Dessa forma,
as emendas se transformam em moeda de troca e instrumento de barganha
entre o Executivo e o Legislativo", afirma o economista e especialista
em gastos públicos Gil Castelo Branco. Não é
por acaso que, às vésperas de votações
importantes, o governo fica mais generoso: nessas ocasiões,
a liberação de emendas de parlamentares é sempre
volumosa. A segunda diferença é que, nos modelos americano
e francês, a legislação é precisa e condiciona
a aprovação de emendas a indicadores objetivos de
prioridades e resultados, como afirma o professor Paulo Calmon,
do Instituto de Ciência Política da Universidade de
Brasília. Isso ajuda a fazer com que os municípios
sejam contemplados com aquilo de que de fato necessitam e
não com aquilo que facilite o desvio de dinheiro por parlamentares
e seus sócios empresários.
No caso dos sanguessugas, a principal
brecha explorada pela quadrilha foi a centralização
de recursos pelo governo federal. Como a maior parte dos hospitais
municipais e estaduais do país absorve seus recursos com
gastos de pessoal e manutenção, eles dependem do governo
federal para os investimentos necessários. O governo repassa
esse dinheiro por meio das emendas de parlamentares. "Para corrigir
o problema, seriam necessárias mudanças estruturais
que possibilitassem às prefeituras e aos governos recuperar
sua capacidade de investimento", diz o professor Calmon.
Na semana passada, o Congresso
e a Polícia Federal ficaram em pé de guerra por causa
da divulgação de uma lista com o nome de 64 deputados
citados nas conversas interceptadas na Operação Sanguessuga.
Investigadores e investigados passaram a semana acusando-se mutuamente
do vazamento da relação, que trazia nomes de suspeitos
e de inocentes. Três deputados choraram em plenário,
o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, acusou os investigadores
de não saber "separar o joio do trigo", e o líder
governista na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), chegou a
sugerir a convocação dos investigadores para "dar
explicações" sobre o vazamento. Por trás dessa
cortina de fumaça, uma coisa ficou clara: não haverá
CPI para investigar a participação dos nobres deputados
na máfia dos sanguessugas. Até sexta-feira, o deputado
Fernando Gabeira (PV-RJ) não tinha conseguido recolher nem
um terço das assinaturas necessárias para a instalação
da comissão. Em contrapartida, como sempre ocorre depois
de um escândalo, o Congresso e o governo apressaram-se em
anunciar a criação de uma comissão parlamentar
para estudar (de novo) mudanças nas regras do Orçamento.
Espera-se que não se contentem apenas em mudar as normas
mas que se preocupem também em banir os vícios
e os que incorrem neles.
Com reportagem de
Camila Pereira




Foto Ana Araujo, Ayrton Vignola/Folha
Imagem e Nelio Rodrigues |
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