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André
Petry O código dos vinte
"Os
mensaleiros petistas podem voltar a Brasília a bordo de mandatos renovados.
Mas o PT terá ficado no caminho, como um cadáver pesado demais
para a tropa carregar"
Os dirigentes do PT em São Paulo resolveram consultar a militância
sobre os nomes preferenciais para candidatos na próxima eleição.
O resultado é um deboche. Em Osasco, mais de 900 petistas querem que o
candidato seja João Paulo Cunha, que mandou a mulher pegar 50.000 reais
no valerioduto. Outros 150 preferem José Genoíno, que avalizou os
empréstimos fajutos no Banco Rural. Gente como Professor Luizinho e José
Mentor aparecem muito bem cotados na preferência dos petistas. Em Ribeirão
Preto, 300 querem que a vaga de candidato fique com Antonio Palocci, indiciado
em oito crimes na violação da conta bancária do caseiro e
nas trambicagens como prefeito. O presidente do PT na cidade, Jorge Parada, explicou
que não há constrangimento em lançar um candidato indiciado
em oito crimes. "A pessoa só fica constrangida quando é condenada."
Por trás desse deboche, está
claro que os vinte petistas envolvidos em escândalos diversos, do mensalão
à quebra do sigilo bancário do caseiro, criaram um código:
ignorar tudo e lutar pelo poder, sempre. O que talvez não percebam é
que esse comportamento está completando a falência do PT o
que pode até ser bom para tucanos e outros adversários políticos,
mas não chega a ser bom para o Brasil. Era melhor que houvesse um partido
tentando ficar de pé, lutando para reunir seus cacos, empenhado em recuperar
alguma dignidade. Mas não. O PT dá sinais de que está confortável
no convívio com o crime. Nessa destruição ética, repete
o processo acrítico, e devastador, que conduziu à sua destruição
ideológica. Sob o comando de
José Dirceu, a quem os estudantes mineiros saúdam agora como "ladrão,
ladrão, ladrão", o PT renunciou à sua história política
para chegar ao poder e, nesse processo, não se preocupou em fazer autocrítica,
não analisou erros e acertos do passado e, portanto, não deu sentido
político real à sua mudança deu apenas sentido eleitoral.
Na época, desidratado de seu conteúdo político e transformado
numa convencional máquina de caçar votos, o PT só não
ficou igualzinho à maioria dos demais partidos porque resolveu erguer a
bandeira da ética. Virou um silêncio ideológico. Mas tinha
"ética". O drama, agora, não
está apenas no fato de que essa "ética" ruiu dentro do partido,
mas sobretudo na recusa petista em purgar seus erros, expiar seus pecados, proceder
enfim a uma autocrítica. Em vez disso, como demonstram as sondagens feitas
em São Paulo, o grosso dos petistas prefere ignorar o que aconteceu, esconder
os erros clamorosos e, no pináculo da farsa, premiar os mensaleiros.
Assim como renunciar à ideologia deu certo para chegar ao poder, talvez
a renúncia à recuperação ética também
dê certo e os mensaleiros acabem de volta a Brasília a bordo
de mandatos renovados. Pode ser, mas o PT terá ficado pelo caminho, como
um cadáver pesado demais para a tropa carregar. E não lhes restará
nem o consolo de dizer que ficaram apenas parecidos com os outros, parecidos com
as sanguessugas. Espelhar-se nos outros dá uma imagem que Narciso não
gosta de ver. |