Edição 1 649 -17/5/2000

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VÍDEO

Tudo sobre Minha Mãe (Todo sobre Mi Madre, Espanha/França, 1999. Fox Vídeo) – A cada filme que faz, o espanhol Pedro Almodóvar aprimora um estilo que funde humor mordaz com melodrama basgado, tudo mostrado na tela com fotografia sensacional e interpretações impecáveis. Com este 14º longa-metragem, o diretor não só se manteve nessa trilha como também realizou feito inédito em sua carreira: ganhou um merecidíssimo Oscar. O filme conta a história de uma mulher de meia-idade (a argentina Cecilia Roth), que, depois da trágica morte do filho, viaja de Madri a Barcelona em busca do pai do rapaz. Na trama saborosa cabem travestis, freiras grávidas e atrizes drogadas. Mas, longe do deboche de outros tempos, o Almodóvar maduro está mais interessado em emocionar. Prepare o lenço.

 

LIVROS

Eu, Malika Oufkir, Prisioneira do Rei, de Malika Oufkir e Michèle Fitoussi (tradução de Eduardo Brandão; Companhia das Letras; 363 páginas; 29 reais) – A história narrada aqui é chocante. Malika Oufkir tem uma juventude de princesa. Filha de um poderoso general, ainda pequena ela cai nas graças do rei do Marrocos, usufruindo as benesses da corte: roupas de grife, viagens, festas de arromba. Aos 18 anos, sua vida sofre uma guinada. O pai é executado após liderar uma tentativa de golpe de Estado e o rei manda Malika, sua mãe e seus irmãos para uma fétida masmorra por vinte anos. Perdeu o fôlego? Pois tudo isso é real. A protagonista só saiu da prisão nos anos 90, depois de uma fuga espetacular. Narradas com realismo, suas revelações alcançam neste livro um registro estarrecedor.

 

Autobiografia – 1809-1882, de Charles Darwin (tradução de Vera Ribeiro; Contraponto Editora; 127 páginas; 19 reais) – O autor de A Origem das Espécies, uma das obras que mais influenciaram o pensamento do século XX, expõe sua dimensão de homem comum nesta autobiografia. Embora escrito há mais de 100 anos, o texto conserva-se leve e gostoso de ler. O relato abre espaço para revelações curiosas, como a de que o genial inglês era um aluno medíocre na escola primária. É também interessante o trecho em que Darwin descreve sua angústia antes de publicar A Origem das Espécies. Ele temia a reação furibunda dos fundamentalistas religiosos, que de fato ocorreria e que dura até hoje.

 

Poesia Completa de João Cabral: dois volumes e CD com 21 poemas declamados pelo artista

Poesia Completa, de João Cabral de Melo Neto (Nova Fronteira, 325 e 385 páginas; 56 reais) – Morto em outubro do ano passado, aos 79 anos, o poeta pernambucano bem que merecia uma edição de luxo de sua obra, com capa dura, papel-bíblia e tudo o mais a que tem direito. Enquanto isso não vem, vale a pena comprar essa caixa que reúne os versos do autor em dois volumes – Serial e Antes e A Educação pela Pedra e Depois. É desnecessário entrar em considerações sobre a obra em si, já que João Cabral é unanimemente considerado um dos três grandes poetas brasileiros do século, ao lado de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Mas há um detalhe interessante. Junto com os livros, vem encartado um CD em que o artista recita 21 poemas, numa gravação datada de 1994.

 

DISCOS

Made in USA, Happy End of the World e Remix Album, Pizzicato Five (Trama) – Apesar de japoneses, os integrantes dessa dupla lembram muito pouco os sons de sua terra natal. Sua principal influência são os temas do cinema americano das décadas de 50 e 60 (em especial as trilhas de Henry Mancini e Burt Bacharach). O resultado é saboroso, mesmo para quem não entende patavina de japonês. Os três principais trabalhos da dupla estão sendo lançados de uma tacada só. Made in USA e Happy End of the World trazem um Pizzicato mais leve. Já Remix Album é indicado para quem gosta de chacoalhar nas discotecas.

 

Punishing Kiss, Ute Lemper (Universal) – A cantora alemã Ute Lemper ficou famosa por suas atuações em musicais compostos por Kurt Weill, parceiro inseparável do dramaturgo Bertolt Brecht. Em Punishing Kiss, além de seu repertório habitual, ela interpreta compositores atuais, como Elvis Costello, Tom Waits e Nick Cave. O charme de Ute é que ela canta esses sucessos pop à maneira de Weill, ou seja, transforma-os em baladas próprias para ouvir em cabarés enfumaçados. A fusão soa particularmente convincente em Little Water Song, de Nick Cave, já que o compositor australiano foi influenciado pela música alemã do começo do século. Para os fãs da Ute Lemper tradicional, há um clássico de Kurt Weill, Tango Ballad, num arranjo que conta com a participação especial de Neil Hannon, da cultuada banda pop Divine Comedy.


OS MAIS VENDIDOS — Crítica

Para que as feministas queimaram tantos sutiãs? É esta a pergunta que fica na cabeça de quem atravessa as 444 páginas de Bridget Jones -- No Limite da Razão (tradução de Alda Porto; Record; 28 reais), livro que alcançou, nesta semana, o segundo lugar na lista de mais vendidos de VEJA. Com a personagem Bridget Jones, que em 1998 inspirou o primeiro best-seller da série, a jornalista britânica Helen Fielding queria fazer, em tese, um retrato da mulher moderna, que dá duro para sair vitoriosa na carreira e ainda se realizar na vida afetiva. Ao final da leitura, no entanto, o que Fielding sugere é que, depois de décadas de feminismo, as mulheres não mudaram nada. A personagem-título até trabalha fora, mas passa o tempo todo com uma idéia fixa na cabeça: arranjar um homem para chamar de seu, como se fosse uma heroína de romance açucarado do século XIX. Se ainda existissem feministas, elas provavelmente, em vez de sutiãs, estariam queimando os livros de Helen Fielding em praça pública.

Para piorar as coisas, Bridget Jones é uma chata de galochas. Daquelas do tipo obsessivo. Em perpétua crise de auto-estima, anota em seu diário quantos quilinhos (de celulite!) ganhou de um dia para outro, há quanto tempo está em jejum sexual e por aí afora. Na tentativa de soar moderninha, a autora bem que disfarça. Enfileira tipos estereotipados da época atual (as amigas solteironas, o chefe mala-sem-alça, o colega gay...). Tudo perfumaria. Nelson Rodrigues conquistou a antipatia de boa parte do público feminino ao declarar que toda mulher gostava de apanhar. Helen Fielding proclama aos quatro ventos que tudo o que as mulheres querem na vida é ler livros de auto-ajuda e arrumar namorado. Com isso, arrebanhou milhões de leitoras no mundo inteiro. Pensando bem, o tal do feminismo não serviu mesmo para muita coisa.

Marcelo Marthe

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano. Esta lista não inclui livros vendidos em bancas.