VÍDEO
Tudo
sobre Minha Mãe (Todo
sobre Mi Madre, Espanha/França,
1999. Fox Vídeo) A cada filme que faz, o espanhol
Pedro Almodóvar aprimora um estilo que funde humor
mordaz com melodrama basgado, tudo mostrado na tela com
fotografia sensacional e interpretações impecáveis.
Com este 14º longa-metragem, o diretor não só
se manteve nessa trilha como também realizou feito
inédito em sua carreira: ganhou um merecidíssimo
Oscar. O filme conta a história de uma mulher de
meia-idade (a argentina Cecilia Roth), que, depois da trágica
morte do filho, viaja de Madri a Barcelona em busca do pai
do rapaz. Na trama saborosa cabem travestis, freiras grávidas
e atrizes drogadas. Mas, longe do deboche de outros tempos,
o Almodóvar maduro está mais interessado em
emocionar. Prepare o lenço.
LIVROS
Eu,
Malika Oufkir, Prisioneira do Rei, de
Malika Oufkir e Michèle Fitoussi (tradução
de Eduardo Brandão; Companhia das Letras; 363 páginas;
29 reais) A história narrada aqui é
chocante. Malika Oufkir tem uma juventude de princesa. Filha
de um poderoso general, ainda pequena ela cai nas graças
do rei do Marrocos, usufruindo as benesses da corte: roupas
de grife, viagens, festas de arromba. Aos 18 anos, sua vida
sofre uma guinada. O pai é executado após
liderar uma tentativa de golpe de Estado e o rei manda Malika,
sua mãe e seus irmãos para uma fétida
masmorra por vinte anos. Perdeu o fôlego? Pois tudo
isso é real. A protagonista só saiu da prisão
nos anos 90, depois de uma fuga espetacular. Narradas com
realismo, suas revelações alcançam
neste livro um registro estarrecedor.
Autobiografia
1809-1882, de
Charles Darwin (tradução de Vera Ribeiro;
Contraponto Editora; 127 páginas; 19 reais)
O autor de A Origem das Espécies,
uma das obras que mais influenciaram o pensamento do século
XX, expõe sua dimensão de homem comum nesta
autobiografia. Embora escrito há mais de 100 anos,
o texto conserva-se leve e gostoso de ler. O relato abre
espaço para revelações curiosas, como
a de que o genial inglês era um aluno medíocre
na escola primária. É também interessante
o trecho em que Darwin descreve sua angústia antes
de publicar A Origem das Espécies.
Ele temia a reação
furibunda dos fundamentalistas religiosos, que de fato ocorreria
e que dura até hoje.
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Poesia Completa
de
João Cabral: dois volumes e CD com 21
poemas declamados pelo
artista
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Poesia Completa,
de João Cabral
de Melo Neto (Nova Fronteira, 325 e 385 páginas;
56 reais) Morto em outubro do ano passado, aos 79
anos, o poeta pernambucano bem que merecia uma edição
de luxo de sua obra, com capa dura, papel-bíblia
e tudo o mais a que tem direito. Enquanto isso não
vem, vale a pena comprar essa caixa que reúne os
versos do autor em dois volumes Serial
e Antes e A
Educação pela Pedra e Depois. É
desnecessário entrar em considerações
sobre a obra em si, já que João Cabral é
unanimemente considerado um dos três grandes poetas
brasileiros do século, ao lado de Manuel Bandeira
e Carlos Drummond de Andrade. Mas há um detalhe interessante.
Junto com os livros, vem encartado um CD em que o artista
recita 21 poemas, numa gravação datada de
1994.
DISCOS
Made
in USA, Happy End of the World e
Remix Album, Pizzicato
Five (Trama) Apesar de japoneses, os integrantes
dessa dupla lembram muito pouco os sons de sua terra natal.
Sua principal influência são os temas do cinema
americano das décadas de 50 e 60 (em especial as
trilhas de Henry Mancini e Burt Bacharach). O resultado
é saboroso, mesmo para quem não entende patavina
de japonês. Os três principais trabalhos da
dupla estão sendo lançados de uma tacada só.
Made in USA
e Happy End of the World
trazem um Pizzicato mais leve. Já Remix
Album é indicado para
quem gosta de chacoalhar nas discotecas.
Punishing
Kiss, Ute Lemper (Universal)
A cantora alemã Ute Lemper ficou famosa por
suas atuações em musicais compostos por Kurt
Weill, parceiro inseparável do dramaturgo Bertolt
Brecht. Em Punishing Kiss,
além de seu repertório habitual, ela interpreta
compositores atuais, como Elvis Costello, Tom Waits e Nick
Cave. O charme de Ute é que ela canta esses sucessos
pop à maneira de Weill, ou seja, transforma-os em
baladas próprias para ouvir em cabarés enfumaçados.
A fusão soa particularmente convincente em Little
Water Song, de Nick Cave,
já que o compositor australiano foi influenciado
pela música alemã do começo do século.
Para os fãs da Ute Lemper tradicional, há
um clássico de Kurt Weill, Tango
Ballad, num arranjo que conta
com a participação especial de Neil Hannon,
da cultuada banda pop Divine Comedy.
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OS
MAIS VENDIDOS Crítica
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Para
que as feministas queimaram tantos sutiãs?
É esta a pergunta que fica na cabeça
de quem atravessa as 444 páginas de Bridget
Jones -- No Limite da Razão (tradução
de Alda Porto; Record; 28 reais), livro que alcançou,
nesta semana, o segundo lugar na lista de mais vendidos
de VEJA. Com a personagem Bridget Jones, que em 1998
inspirou o primeiro best-seller da série, a
jornalista britânica Helen Fielding queria fazer,
em tese, um retrato da mulher moderna, que dá
duro para sair vitoriosa na carreira e ainda se realizar
na vida afetiva. Ao final da leitura, no entanto,
o que Fielding sugere é que, depois de décadas
de feminismo, as mulheres não mudaram nada.
A personagem-título até trabalha fora,
mas passa o tempo todo com uma idéia fixa na
cabeça: arranjar um homem para chamar de seu,
como se fosse uma heroína de romance açucarado
do século XIX. Se ainda existissem feministas,
elas provavelmente, em vez de sutiãs, estariam
queimando os livros de Helen Fielding em praça
pública.
Para piorar as coisas, Bridget
Jones é uma chata de galochas. Daquelas do
tipo obsessivo. Em perpétua crise de auto-estima,
anota em seu diário quantos quilinhos (de celulite!)
ganhou de um dia para outro, há quanto tempo
está em jejum sexual e por aí afora.
Na tentativa de soar moderninha, a autora bem que
disfarça. Enfileira tipos estereotipados da
época atual (as amigas solteironas, o chefe
mala-sem-alça, o colega gay...). Tudo perfumaria.
Nelson Rodrigues conquistou a antipatia de boa parte
do público feminino ao declarar que toda mulher
gostava de apanhar. Helen Fielding proclama aos quatro
ventos que tudo o que as mulheres querem na vida é
ler livros de auto-ajuda e arrumar namorado. Com isso,
arrebanhou milhões de leitoras no mundo inteiro.
Pensando bem, o tal do feminismo não serviu
mesmo para muita coisa.
Marcelo
Marthe
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