Uma vida legendária
"Charles Boxer, o mestre de todos os historiadores,
titular de cinco cátedras nas maiores universidades
da
Europa e dos Estados Unidos, estudou história na
universidade do mundo"
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Ilustração Ale Setti
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Para escrever sobre o historiador inglês Charles Boxer,
falecido em Londres no final de abril, aos 96 anos, seria
preciso um livro inteiro. Aliás, um reputado historiador
americano está justamente redigindo a biografia de
Boxer, que, além de sua imponente obra intelectual,
teve uma vida "legendária no amor e na guerra", como
resumiu o jornal americano The New York Times no
título do necrológio publicado na semana passada.
No The Times, de Londres, a notícia do falecimento
também estampou um título sugestivo: "Professor
Charles Boxer, soldado, lingüista, historiador, bibliófilo,
antiquário".
Descendente de uma família de marinheiros e almirantes
ingleses, Boxer era fascinado pelo Extremo Oriente e, em
particular, pelo Japão. Buscando entender os contatos
dos navegadores lusos e holandeses com o Império
do Sol Nascente, estudou a história dos Países
Baixos e de Portugal. De fio a pavio, interessou-se pelas
missões jesuíticas, pelos indianos e chineses,
aprendeu a falar fluentemente japonês, holandês,
francês, alemão, português e deixou uma
refinada reflexão histórica consignada em
350 livros e artigos.
No meio tempo, Boxer entrou no Exército e foi servir
na Ásia. Seu conhecimento da cultura nipônica
o levou ao posto de chefe do serviço secreto britânico
em Hong Kong, no final dos anos 30. Nessa época,
casado com Ursula Churchill-Dawes, conhecida como "a mulher
mais bonita de Hong Kong", embarcou numa arrebatadora história
de amor com Emily Hahn, cujo apelido era "Mickey". Correspondente
da revista The New Yorker na China, Mickey também
tinha um caso com um importante intelectual chinês
e queimava ópio à beça. No meio dessa
confusão toda, estourou a II Guerra, Boxer foi gravemente
ferido e encarcerado pelos japoneses, enquanto Mickey fugia
para os Estados Unidos com a filha dos dois, Caroline. Quando
acabou a guerra, Boxer, já divorciado, reencontrou
a filha e casou com Mickey, numa movimentação
seguida pela imprensa americana. Na altura, Emily Hahn tinha
publicado o best-seller China to Me (1944), em que
contava seu romance com Boxer e outras coisas mais. Ela
prosseguiu a carreira de escritora feminista e, até
sua morte, em 1997, publicou 52 livros. Foi provavelmente
Mickey quem levou Boxer a escrever A Mulher na Expansão
Ultramarina Ibérica. Obra pioneira, como muitas
outras redigidas por ele.
Em The Christian Century in Japan (1951) e South
China in the Sixteenth Century (1953), ele renovou a
historiografia da Ásia moderna. Em Salvador de
Sá e a Luta pelo Brasil e Angola 1602-1686 (1952),
ele mostrou o contexto extraterritorial que a historiografia
brasileira, excessivamente presa às fronteiras sul-americanas,
havia negligenciado. Seguiram-se seus livros que se completavam,
The Dutch Seaborne Empire 1600-1800 (1965) e O
Império Colonial Português (1969).
Contudo, foi seu livro Relações Raciais
no Império Colonial Português 1415-1825
(1963) que causou maior celeuma, ao desmistificar a pretendida
docilidade das relações raciais existentes
no quadro ultramarino lusitano. No final das contas, os
artigos dos jornais de Nova York e Londres deixaram de assinalar
algo mais importante. Do fundo de seu terrível cárcere
de prisioneiro de guerra, por detrás da documentação
sobre o declínio português e holandês
na Ásia seiscentista, Boxer previu e anunciou o declínio
do império britânico no século XX.
Esse mestre de todos os historiadores, titular de cinco
cátedras nas maiores universidades da Europa e dos
Estados Unidos, nunca fez graduação em nenhuma
faculdade. Na realidade, como escreveu o padre Antônio
Vieira (cuja biografia Boxer contava escrever nestes últimos
anos) a respeito de frei Luís de Sousa, o escritor
seiscentista português que havia sido aventureiro
e mercador antes de se tornar dominicano e historiador,
Boxer estudou história, não nas academias,
mas "na universidade do mundo". Salve ele, salve Mickey.
Luiz Felipe de Alencastro
é historiador (lfa@workmail.com)