Edição 1 649 -17/5/2000

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Uma vida legendária

"Charles Boxer, o mestre de todos os historiadores,
titular de cinco cátedras nas maiores universidades da
Europa e dos Estados Unidos, estudou história na
universidade do mundo"

 

Ilustração Ale Setti


Para escrever sobre o historiador inglês Charles Boxer, falecido em Londres no final de abril, aos 96 anos, seria preciso um livro inteiro. Aliás, um reputado historiador americano está justamente redigindo a biografia de Boxer, que, além de sua imponente obra intelectual, teve uma vida "legendária no amor e na guerra", como resumiu o jornal americano The New York Times no título do necrológio publicado na semana passada. No The Times, de Londres, a notícia do falecimento também estampou um título sugestivo: "Professor Charles Boxer, soldado, lingüista, historiador, bibliófilo, antiquário".

Descendente de uma família de marinheiros e almirantes ingleses, Boxer era fascinado pelo Extremo Oriente e, em particular, pelo Japão. Buscando entender os contatos dos navegadores lusos e holandeses com o Império do Sol Nascente, estudou a história dos Países Baixos e de Portugal. De fio a pavio, interessou-se pelas missões jesuíticas, pelos indianos e chineses, aprendeu a falar fluentemente japonês, holandês, francês, alemão, português e deixou uma refinada reflexão histórica consignada em 350 livros e artigos.

No meio tempo, Boxer entrou no Exército e foi servir na Ásia. Seu conhecimento da cultura nipônica o levou ao posto de chefe do serviço secreto britânico em Hong Kong, no final dos anos 30. Nessa época, casado com Ursula Churchill-Dawes, conhecida como "a mulher mais bonita de Hong Kong", embarcou numa arrebatadora história de amor com Emily Hahn, cujo apelido era "Mickey". Correspondente da revista The New Yorker na China, Mickey também tinha um caso com um importante intelectual chinês e queimava ópio à beça. No meio dessa confusão toda, estourou a II Guerra, Boxer foi gravemente ferido e encarcerado pelos japoneses, enquanto Mickey fugia para os Estados Unidos com a filha dos dois, Caroline. Quando acabou a guerra, Boxer, já divorciado, reencontrou a filha e casou com Mickey, numa movimentação seguida pela imprensa americana. Na altura, Emily Hahn tinha publicado o best-seller China to Me (1944), em que contava seu romance com Boxer e outras coisas mais. Ela prosseguiu a carreira de escritora feminista e, até sua morte, em 1997, publicou 52 livros. Foi provavelmente Mickey quem levou Boxer a escrever A Mulher na Expansão Ultramarina Ibérica. Obra pioneira, como muitas outras redigidas por ele.

Em The Christian Century in Japan (1951) e South China in the Sixteenth Century (1953), ele renovou a historiografia da Ásia moderna. Em Salvador de Sá e a Luta pelo Brasil e Angola 1602-1686 (1952), ele mostrou o contexto extraterritorial que a historiografia brasileira, excessivamente presa às fronteiras sul-americanas, havia negligenciado. Seguiram-se seus livros que se completavam, The Dutch Seaborne Empire 1600-1800 (1965) e O Império Colonial Português (1969).

Contudo, foi seu livro Relações Raciais no Império Colonial Português 1415-1825 (1963) que causou maior celeuma, ao desmistificar a pretendida docilidade das relações raciais existentes no quadro ultramarino lusitano. No final das contas, os artigos dos jornais de Nova York e Londres deixaram de assinalar algo mais importante. Do fundo de seu terrível cárcere de prisioneiro de guerra, por detrás da documentação sobre o declínio português e holandês na Ásia seiscentista, Boxer previu e anunciou o declínio do império britânico no século XX.

Esse mestre de todos os historiadores, titular de cinco cátedras nas maiores universidades da Europa e dos Estados Unidos, nunca fez graduação em nenhuma faculdade. Na realidade, como escreveu o padre Antônio Vieira (cuja biografia Boxer contava escrever nestes últimos anos) a respeito de frei Luís de Sousa, o escritor seiscentista português que havia sido aventureiro e mercador antes de se tornar dominicano e historiador, Boxer estudou história, não nas academias, mas "na universidade do mundo". Salve ele, salve Mickey.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)