Em face dos últimos
acontecimentos
Os senadores e a ética da briga,
o MST e os "caras errados":
duas notas sobre eventos tormentosos
Ainda não se disparou arma de fogo, mas, tirante
esse pormenor, a briga entre os senadores Antonio Carlos
Magalhães e Jader Barbalho continua acesa. Em seu
último movimento, ACM endereçou carta ao presidente
Fernando Henrique Cardoso denunciando irregularidades praticadas
por aliados de Barbalho na Sudam. Jader Barbalho, em resposta,
andou dizendo, entre outras coisas, que ACM age como alguém
que bate a carteira do outro e depois sai gritando "Pega
ladrão". Os brasileiros, graças à disputa,
ficaram sabendo, se é que já não sabiam,
que o Senado, a vetusta casa dos mais velhos, feita para
preservar o equilíbrio, o bom senso e a continuidade
da pátria, tem como líderes supremos pessoas
que se consideram uma à outra dignas do xilindró
na delegacia da esquina, mas não é esse o
ponto em que aqui se deseja insistir. O ponto é desejar
que essa briga continue, gere conseqüências e,
sobretudo, resulte em inimizade eterna. É isso o
que determinam os imperativos da moral e dos bons costumes.
Muitos se assombraram, e continuam se assombrando, com
a troca de acusações iniciada pelos dois contendores
na sessão do Senado do dia 5 de abril. Motivo muito
maior de assombro haverá no entanto se, um dia, os
dois aparecerem trocando elogios na TV. O país precisa
estar vigilante. Deverá agir com indignação,
e os estudantes de cara pintada estão convocados
a sair às ruas, e os índios a acampar na Esplanada
dos Ministérios, e os sem-terra a ocupar os prédios
públicos, e a CUT a decretar greve geral, se houver
qualquer tentativa de reconciliação. Os políticos
precisam aprender a ter compostura, e nisso se inclui levar
a sério as brigas.
Os exemplos de brigas espetaculares às quais se
seguem desconcertantes reconciliações são
abundantes. O mesmo ACM, depois de ter chamado Paulo Maluf
de ladrão e coisas piores, na época da disputa
entre Maluf e Tancredo Neves pela Presidência da República,
apoiou Maluf em campanhas eleitorais recentes. Maluf, por
seu lado, hoje chama ACM de "meu amigo". O presidente Fernando
Henrique Cardoso, que fez toda a carreira do lado oposto
ao de Maluf, não se vexou quando esse mesmo Maluf,
candidato a governador de São Paulo, nas últimas
eleições, espalhou cartazes sugerindo que
tinha o apoio do presidente. Enfim, Fernando Henrique, recentemente,
recebeu Orestes Quércia no Palácio. Orestes
Quércia! Um inimigo tão acerbo quanto Maluf,
de quem já falou as piores coisas e de quem recebeu
os piores desaforos.
Na semana passada, o Senado aprovou uma moção
de censura a Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho.
Deve censurá-los, isso sim, em nome da decência,
e, mais que isso, cassá-los, processá-los,
prendê-los, confiná-los ou bani-los, se vierem
um dia a trocar gentilezas.
O senador americano, ex-combatente no Vietnã e ex-pré-candidato
a presidente John McCain esteve no mês passado em
Hanói e visitou a prisão em que passou cinco
anos e meio, ao tempo da guerra, depois de capturado pelo
inimigo. "Os caras errados ganharam", disse na ocasião,
lamentando o desfecho do conflito (para quem gosta de ler
no original: "The wrong guys won"). Como "os caras errados",
se os "caras certos", ou seja, a turma que mandava no Vietnã
do Sul, e era apoiada pelos Estados Unidos, era um bando
notório de corruptos? Como, se não passavam
de exploradores do povo, conforme a própria imprensa
americana na época não se cansava de denunciar?
Como pôde o bom McCain dizer tal disparate?
Bem... Observa-se o que virou o Vietnã, conduzido
pelos "bonzinhos" que combateriam a corrupção
e instalariam uma sociedade de justiça e a igualdade...
observa-se a pobreza, o atraso e a ditadura em que resultou
a nova ordem... e chega-se à conclusão de
que, vai ver, McCain tem razão. Eis um motivo de
angústia e perplexidade. Que mundo é este
em que, para combater os corruptos e aproveitadores, acaba-se
freqüentemente caindo nas mãos dos promotores
do atraso e destruidores das liberdades? Olha-se para a
Coréia do Norte, olha-se para Cuba, e ganham-se outros
exemplos da dialética cruel que, em nome do combate
à corrupção, instala o atraso e em
nome da Justiça entroniza a tirania.
Olha-se para o Brasil e percebe-se que, para muita gente,
o bonzinho do momento é o Movimento dos Sem-Terra.
Recomenda-se cautela a quem pensa assim. Há uma chispa
de Pol Pot no olhar dos principais dirigentes do MST. E
há um quê de aiatolá nos padres católicos
que, nas sombras, impulsionam o movimento. Sabe-se o que
foi feito do Camboja de Pol Pot e do Irã dos aiatolás.
Nos dois lugares, por pior que fosse a situação
anterior, fica-se com a impressão de que prevaleceu
a doutrina McCain. Os caras errados ganharam.
"Oh! Sejamos pornográficos/ (docemente pornográficos)./
Por que seremos mais castos/ que o nosso avô português?"
(Carlos Drummond de Andrade, poema "Em face dos últimos
acontecimentos")