Edição 1 649 -17/5/2000

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Em face dos últimos
acontecimentos

Os senadores e a ética da briga,
o MST e os "caras errados":
duas notas sobre eventos tormentosos

Ainda não se disparou arma de fogo, mas, tirante esse pormenor, a briga entre os senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho continua acesa. Em seu último movimento, ACM endereçou carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso denunciando irregularidades praticadas por aliados de Barbalho na Sudam. Jader Barbalho, em resposta, andou dizendo, entre outras coisas, que ACM age como alguém que bate a carteira do outro e depois sai gritando "Pega ladrão". Os brasileiros, graças à disputa, ficaram sabendo, se é que já não sabiam, que o Senado, a vetusta casa dos mais velhos, feita para preservar o equilíbrio, o bom senso e a continuidade da pátria, tem como líderes supremos pessoas que se consideram uma à outra dignas do xilindró na delegacia da esquina, mas não é esse o ponto em que aqui se deseja insistir. O ponto é desejar que essa briga continue, gere conseqüências e, sobretudo, resulte em inimizade eterna. É isso o que determinam os imperativos da moral e dos bons costumes.

Muitos se assombraram, e continuam se assombrando, com a troca de acusações iniciada pelos dois contendores na sessão do Senado do dia 5 de abril. Motivo muito maior de assombro haverá no entanto se, um dia, os dois aparecerem trocando elogios na TV. O país precisa estar vigilante. Deverá agir com indignação, e os estudantes de cara pintada estão convocados a sair às ruas, e os índios a acampar na Esplanada dos Ministérios, e os sem-terra a ocupar os prédios públicos, e a CUT a decretar greve geral, se houver qualquer tentativa de reconciliação. Os políticos precisam aprender a ter compostura, e nisso se inclui levar a sério as brigas.

Os exemplos de brigas espetaculares às quais se seguem desconcertantes reconciliações são abundantes. O mesmo ACM, depois de ter chamado Paulo Maluf de ladrão e coisas piores, na época da disputa entre Maluf e Tancredo Neves pela Presidência da República, apoiou Maluf em campanhas eleitorais recentes. Maluf, por seu lado, hoje chama ACM de "meu amigo". O presidente Fernando Henrique Cardoso, que fez toda a carreira do lado oposto ao de Maluf, não se vexou quando esse mesmo Maluf, candidato a governador de São Paulo, nas últimas eleições, espalhou cartazes sugerindo que tinha o apoio do presidente. Enfim, Fernando Henrique, recentemente, recebeu Orestes Quércia no Palácio. Orestes Quércia! Um inimigo tão acerbo quanto Maluf, de quem já falou as piores coisas e de quem recebeu os piores desaforos.

Na semana passada, o Senado aprovou uma moção de censura a Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho. Deve censurá-los, isso sim, em nome da decência, e, mais que isso, cassá-los, processá-los, prendê-los, confiná-los ou bani-los, se vierem um dia a trocar gentilezas.

O senador americano, ex-combatente no Vietnã e ex-pré-candidato a presidente John McCain esteve no mês passado em Hanói e visitou a prisão em que passou cinco anos e meio, ao tempo da guerra, depois de capturado pelo inimigo. "Os caras errados ganharam", disse na ocasião, lamentando o desfecho do conflito (para quem gosta de ler no original: "The wrong guys won"). Como "os caras errados", se os "caras certos", ou seja, a turma que mandava no Vietnã do Sul, e era apoiada pelos Estados Unidos, era um bando notório de corruptos? Como, se não passavam de exploradores do povo, conforme a própria imprensa americana na época não se cansava de denunciar? Como pôde o bom McCain dizer tal disparate?

Bem... Observa-se o que virou o Vietnã, conduzido pelos "bonzinhos" que combateriam a corrupção e instalariam uma sociedade de justiça e a igualdade... observa-se a pobreza, o atraso e a ditadura em que resultou a nova ordem... e chega-se à conclusão de que, vai ver, McCain tem razão. Eis um motivo de angústia e perplexidade. Que mundo é este em que, para combater os corruptos e aproveitadores, acaba-se freqüentemente caindo nas mãos dos promotores do atraso e destruidores das liberdades? Olha-se para a Coréia do Norte, olha-se para Cuba, e ganham-se outros exemplos da dialética cruel que, em nome do combate à corrupção, instala o atraso e em nome da Justiça entroniza a tirania.

Olha-se para o Brasil e percebe-se que, para muita gente, o bonzinho do momento é o Movimento dos Sem-Terra. Recomenda-se cautela a quem pensa assim. Há uma chispa de Pol Pot no olhar dos principais dirigentes do MST. E há um quê de aiatolá nos padres católicos que, nas sombras, impulsionam o movimento. Sabe-se o que foi feito do Camboja de Pol Pot e do Irã dos aiatolás. Nos dois lugares, por pior que fosse a situação anterior, fica-se com a impressão de que prevaleceu a doutrina McCain. Os caras errados ganharam.

  "Oh! Sejamos pornográficos/ (docemente pornográficos)./ Por que seremos mais castos/ que o nosso avô português?" (Carlos Drummond de Andrade, poema "Em face dos últimos acontecimentos")