Edição 1 649 -17/5/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
ONGs gastam milhões em áreas de preservação
Mau humor pode matar
A rede mundial facilita a vida de deficientes físicos
Judeus e árabes são parentes próximos
Decifrado o cromossomo causador da síndrome de Down
Brasileiros descobrem a Tunísia
Austrália se preocupa com a ecologia
Equipamento reproduz efeito do doping
A dieta dos adolescentes está perto da ideal
Perfume japonês combate odores da velhice
Presos do Carandiru sobem ao altar
Represa turca vai inundar monumentos romanos
Detroit redesenha modelos para enfrentar europeus
Olivier Anquier faz outros produtos matinais
Os dinossauros continuam evoluindo no cinema
O prédio giratório
O show de Narcisa Tamborindeguy
Silvio Santos

Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 
Veja também
Entrevista com o apresentador

Silvio ao vivo

Perto de completar 70 anos e no auge de sua carreira, Silvio Santos
chega à conclusão de que está
cansado de ser Silvio Santos

Ricardo Valladares


Fotos Claudio Rossi e álbum de família
Silvio: ele está incomodando a Globo mais do que nunca, com um pacote de grandes filmes e sacadas como o Show do Milhão


Silvio Santos é um ícone da televisão brasileira. Os anos passam, os ídolos populares se sucedem, os concorrentes mudam e ele permanece lá, como a mais perfeita tradução de um domingo à brasileira. É um dos rostos mais conhecidos do país e também – Rarraiiii! – a voz mais familiar aos ouvidos de milhões. Silvio é ainda uma versão do self-made man, o homem que conseguiu sozinho um lugar ao sol. É até mesmo considerado por muitos um herói do capitalismo nacional. De camelô tornou-se um grande empresário, dono de nada menos que 33 empresas. Seu patrimônio pessoal, declarado à Receita Federal, totaliza 879 milhões de reais. Para completar, no comando de sua rede de televisão, o SBT, Silvio conseguiu a façanha de se transformar em um adversário que incomoda de verdade a Rede Globo. Ele, que já se transformara num adversário respeitável aos domingos, agora está mordendo a emissora da família Marinho durante a semana. O pacote de filmes dos estúdios Warner e Disney, comprado por Silvio por 150 milhões de dólares, tem-se revelado uma arma de calibre grosso. Pelo acordo, que dura até 2005, o SBT poderá exibir todas as fitas recentes produzidas por essas duas gigantes do cinema. Entre elas, há títulos de arrasar quarteirão, como 101 Dálmatas, O Advogado do Diabo, Los Angeles – Cidade Proibida, O Carteiro e o Poeta e O Sexto Sentido. Os filmes estão sendo veiculados desde o início de abril, nas noites de terça e sexta-feira, e já catapultaram o SBT para o primeiro lugar de audiência no horário em que são exibidos. A fita Striptease, com a beleza seminua da atriz Demi Moore, mostrada há duas semanas, atingiu 32 pontos de ibope, contra apenas 12 da Globo no mesmo horário. Na semana passada, The Glimmer Man – O Homem das Sombras nocauteou quatro atrações globais, alcançando picos de até 30 pontos. A outra arma poderosa de Silvio é o Show do Milhão, um programa de perguntas e respostas que distribui prêmios polpudos a seus participantes, conduzido por ele próprio. A atração, que entra e sai do ar ao sabor das conveniências, mostrou ser imbatível, independentemente do dia e do horário em que é veiculada. O SBT quer ainda arranhar a Globo no que ela faz melhor: telenovelas. Silvio Santos fechou um acordo com a Televisa para produzir, aqui, folhetins no padrão mexicano.

Por essas e outras, na média geral o ibope do SBT no horário nobre, que era de 12 pontos em 1998, situa-se atualmente na casa dos 17. O crescimento do SBT fez com que algo raro acontecesse na média do mês de abril. A audiência da Globo, na Grande São Paulo, no filé que se estende das 18 horas até a meia-noite foi menor que a soma dos índices de suas concorrentes – 31 pontos contra 34. A ascensão do SBT preocupa sua poderosa concorrente, mas é preciso relativizá-la. Apesar de derrotas aqui e ali, a Globo está longe de ter sua hegemonia ameaçada. O ibope da emissora dos Marinho permanece acachapante, e os preços de seus intervalos comerciais são a expressão mais concreta dessa liderança. Trinta segundos de anúncio na Globo custam até 139.000 reais, enquanto no SBT o mesmo tempo sai por no máximo 75.000 reais. A desproporção do faturamento é abismal. Em 1999, o canal de Silvio movimentou 479 milhões de reais, o equivalente a 25% daquilo que entrou no caixa da emissora carioca, um portento de 1,8 bilhão de reais ao ano.

 
Fotos Claudio Rossi
Fi

O ESCRITÓRIO
No saguão de entrada de seu QG (à esq.) há uma escultura de uma mulher nua que o apresentador considera obra de arte de primeira linha. Ao lado de sua mesa, destaca-se um boneco em trajes de mordomo

Duas plásticas – A Globo, enfim, continua a ser a Globo, mas não há dúvida de que Senor Abravanel, verdadeiro nome de Silvio, está no auge de sua carreira como empresário e profissional de televisão. Ele também se encontra às portas da terceira idade: em 12 de dezembro fará 70 anos, bem camuflados por duas plásticas no rosto (a segunda feita há um ano e meio, para tirar pés-de-galinha), sessões de bronzeamento artificial (possui um equipamento próprio em seu escritório, no bairro paulistano do Ibirapuera) e os cabelos pintados a cada quinze dias. A sua cor, aliás, não é o acaju, como se pensa, mas uma mistura de dois tons de loiro, preparada especialmente pelo cabeleireiro Jassa, seu melhor amigo. Avesso a entrevistas – Jô Soares permaneceu mais de uma década no SBT e não o convenceu a ir a seu programa –, Silvio concordou em falar com exclusividade a VEJA. Foram dezesseis horas de conversas, espaçadas ao longo de duas semanas. Ressabiado no início, ele se descontraiu aos poucos. Bem mais à vontade nas últimas sessões, contou episódios desconhecidos de sua trajetória e emitiu opiniões de uma sinceridade desconcertante a respeito de TV, realidade social, censura e política (veja entrevista). Por fim, revelou que está cansado. Cansado de ser Silvio Santos.

 
Fotos Claudio Rossi
Fo

O ESTILO ABRAVANEL
Silvio gosta de dirigir ele mesmo seu Lincoln Continental ano 93. No camarim, relógios de camelô convivem com rascunhos de boletins do Ibope e orações

Não que ele esteja despreparado fisicamente para agüentar o tranco. Embora não tenha mais o mesmo fôlego da época em que ficava o domingo inteiro no ar, Silvio mostra o vigor de um homem com pelo menos vinte anos a menos. Para manter a forma e a silhueta de 82 quilos, distribuídos por 1,81 metro, ele acorda às 6 da manhã, caminha uma hora na esteira, faz trinta flexões de braços e sessenta de joelhos. É adepto da ginástica desde os tempos de Exército. Serviu durante um ano como pára-quedista e diz ter aprendido lá a ser disciplinado. Para usar uma expressão sua, o Exército o ensinou a ter "uma força de vontade indômita". A força de vontade pode ser indômita, mas de nada lhe valerá diante da questão que agora se coloca à sua frente: quando vier a hora da aposentadoria, quem sucederá a ele no comando de suas empresas? Ao contrário de Roberto Marinho, Silvio Santos não tem um sucessor preparado para assumir seu lugar. As seis filhas do empresário, na avaliação dele próprio, não demonstraram ainda nem pendor nem vontade para tocar seus negócios.





Sua maior fonte de angústia é o SBT. Apesar de não ser a empresa mais rentável do grupo, a emissora é a sua jóia mais cara. "Eu diria que, numa avaliação clássica, que considera a entrada líquida de dinheiro, o SBT valeria de 1 bilhão a 1,5 bilhão de reais", diz Antoninho Marmo Trevisan, presidente da Trevisan Auditores e Consultores. Volta e meia o SBT é posto à venda (a última vez foi em 1998), mas Silvio sempre desiste na hora H. Tais rompantes talvez possam ser creditados aos momentos em que seu stress está próximo do limite do suportável, e não a uma razão objetiva do ponto de vista financeiro. O SBT é importante não só por seu valor intrínseco, mas porque alavanca todos os outros negócios do empresário, dando-lhes visibilidade e emprestando-lhes credibilidade. O problema é que o SBT é sinônimo de Silvio Santos. Não se conhece no Brasil outra empresa tão dependente do carisma e das decisões diretas de seu dono. Recentemente, Silvio partiu para a profissionalização dos quadros executivos da emissora, afastando de cargos de direção velhos amigos, como Luciano Callegari, e parentes, como o sobrinho Guilherme Stoliar. A idéia era tornar tudo mais impessoal e eficiente, ao estilo dos conglomerados modernos, para que pudesse eliminar a sobrecarga de trabalho e assim começar a tratar de sua almejada aposentadoria. Uma aposentadoria, note-se, do tipo ativa, que nada tem a ver com pijamas e chinelos. Ele comenta com amigos que seu sonho é abrir um cassino no balneário paulista do Guarujá, onde passaria a maior parte do tempo. A profissionalização do SBT, no entanto, foi um tiro que saiu pela culatra. Livre dos constrangimentos com amigos e parentes, Silvio sentiu-se mais à vontade para cobrar resultados com dureza e se enredou ainda mais no dia-a-dia de seu negócio.

Boris não gostou – Dado esse grau de simbiose, há uma pergunta que atormenta a cabeça dos que trabalham ao lado de Silvio: que impacto a sua ausência causaria na saúde financeira, não apenas do SBT, mas do grupo inteiro? "A figura de Silvio é poderosa. Na minha avaliação, se ele pendurasse as chuteiras hoje, perderíamos de imediato 40% do nosso faturamento total, que está em 1,6 bilhão de reais por ano", afirma Luiz Sebastião Sandoval, presidente do Grupo Silvio Santos. Ou seja, só a sua imagem garantiria às empresas que criou 640 milhões de reais, o equivalente a 350 milhões de dólares. Em troca de seu trabalho, Silvio tem uma retirada anual bruta de 55 milhões de reais (30 milhões de dólares), na condição formal de funcionário do Baú da Felicidade e da Liderança Capitalização, suas fontes pagadoras na declaração à Receita Federal. Para se ter uma idéia, caso fosse empregado de uma grande corporação, esse salário o colocaria na nona posição entre os executivos mais bem remunerados do mundo, listados pela revista americana Forbes. Ele é a pessoa física que mais paga imposto de renda no Brasil: no ano passado, deixou com o Leão 15 milhões de reais.

 
Fotos álbum de família
lia

ÁLBUM DE FAMÍLIA
Silvio não teve infância pobre. Era o filho mais velho do dono de uma loja de artigos para turistas no Rio de Janeiro (à dir.)

Silvio pode estar cansado de seu papel, mas continua a desempenhá-lo como sempre fez. É centralizador e quer sempre resultados a curtíssimo prazo. Os artistas do SBT nunca têm certeza de que suas atrações serão transmitidas no dia e horário programados, pela simples razão de que tudo depende dos números da audiência. De olho no ibope de sua emissora e no das concorrentes, Silvio tira programas do ar com a facilidade de quem troca de roupa. É o tipo de procedimento que cria embaraços. Para encaixar a última série do Show do Milhão nas noites de segunda-feira, ele suspendeu os programas da apresentadora Hebe Camargo, que permaneceu três semanas fora do vídeo. Irritada, ela foi reclamar do patrão numa entrevista a Boris Casoy, na Rede Record. Em relação ao próprio Boris, seu estilo de administrar foi determinante para que o jornalista saísse do SBT. Silvio havia acabado de comprar um pacote de programas infantis e decidiu veiculá-los às 7 da noite, para fisgar as crianças que chegam da escola e ligam a TV antes do jantar. Boris, que ocupava o horário, seria obrigado a passar para as 8, batendo de frente com o Jornal Nacional, da Rede Globo. Boris não gostou e o fato precipitou sua transferência para a Record. Silvio odeia ser contestado em qualquer instância e, por isso, tem dificuldade em lidar com estrelas. Adorava ter Jô Soares no SBT, mas admite que se sente aliviado por não ter de discutir com ele uma alteração de horário, o que seria fatal com a compra dos filmes da Disney e da Warner.

Uma passagem ilustrativa de seu estilo é a contratação do apresentador Ratinho. Ao tirá-lo da Record, em 1998, uma de suas grandes tacadas, envolveu-se numa disputa judicial por causa da multa rescisória de 44 milhões de reais que a emissora da Igreja Universal queria receber. Sem paciência para que o processo transcorresse normalmente na Justiça, Silvio tentou falar com o bispo Edir Macedo por diversas vezes. Até que no final do ano passado recebeu um telefonema de um diretor da Record: "Se quiser falar com o bispo, vá no domingo até a sede da Universal, no bairro de Santo Amaro. Ele conversará com você depois do culto". No dia marcado, Silvio pegou seu carro e chegou ao templo meia hora antes do início da celebração religiosa. Sentou-se na última fileira, em meio aos fiéis, e assistiu a tudo. Foi uma forma de conhecer o terreno em que estava pisando. Terminado o culto, encontrou-se com Edir Macedo. Uma testemunha relatou a VEJA o diálogo entre os dois:

"Bispo, estou aqui para resolver o problema da multa do Ratinho", disse Silvio.

"São 44 milhões", respondeu Edir Macedo.

"Você sabe que, depois de anos de processo, vai receber no máximo 22 milhões."

"O que você propõe, então?"

"Eu pago 14 milhões."

"O que você acha?", perguntou Edir a um de seus funcionários.

"Acho que tudo bem", respondeu o funcionário.

"Pense bastante, bispo. Se quiser voltar atrás, me ligue amanhã", encerrou Silvio.

Na mesma semana, o acordo foi fechado. E o bispo Edir Macedo ganhou um fã. Silvio ficou tão impressionado com a oratória de Macedo durante o culto que, desde então, pede a um dos empregados de sua casa – tem dezesseis – que grave as falas do fundador da Igreja Universal no rádio. Costuma ouvir as fitas no carro, enquanto vai para o trabalho.

Novelas toscas – O bordão de uma antiga propaganda de biscoitos dizia que eles vendiam mais porque estavam sempre fresquinhos e que, por estar sempre fresquinhos, vendiam mais. No caso do empresário, a fórmula é semelhante: Silvio Santos é Silvio Santos porque sempre dá certo e, como dá sempre certo, ele continua a ser Silvio Santos. Com o SBT, ele contrariou todos os prognósticos que apontavam para a falência de seu modelo e imprimiu outro rumo à televisão brasileira. Até que sua rede entrasse no ar, em 1981, com o nome de TVS, os canais concorrentes da Rede Globo tentavam imitar o padrão global de qualidade. O resultado invariavelmente era lamentável, já que eles não contavam com os mesmos equipamentos e quadros técnicos. Esse padrão, estabelecido na década de 70 por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e Walter Clark, representou um salto qualitativo impressionante ao abolir a improvisação que marcava a televisão nacional desde o seu início, em 1950. As imagens da Globo eram infinitamente mais bonitas e seus programas mais bem costurados – até porque se reduziu ao mínimo o número de atrações ao vivo, nas quais a possibilidade de haver deslizes aumenta exponencialmente. Foi a Globo, ainda, que introduziu as pesquisas de opinião na televisão brasileira para balizar a sua programação. E estas, aliadas aos estratosféricos índices de audiência, mostravam que o caminho da emissora carioca era o caminho.

Silvio, no entanto, deu um nó na lógica global. Seguindo apenas seu instinto, ele apostou nos programas de auditório, em jornalísticos mambembes que enfatizavam o mundo cão e em novelas mexicanas que, produzidas de maneira tosca e com enredos que chafurdavam no dramalhão desbragado, contrastavam com a modernidade dos folhetins da Globo. Ou seja, colocou o povão de volta na TV e, com isso, fisgou de imediato as classes C e D, que não se reconheciam na edulcorada realidade brasileira veiculada pela concorrente. O sucesso da popularização da TV promovida por Silvio, que tanta discussão causou na imprensa e entre os estudiosos dos meios de comunicação, fez com que as demais emissoras enveredassem por uma trilha parecida. Inclusive a própria Globo. Pode-se dizer que programas como Linha Direta, Mais Você, com Ana Maria Braga, Domingão do Faustão, Sai de Baixo e Zorra Total têm algum parentesco com o padrão SBT de qualidade – ou da falta dela.

O reverso desse fenômeno é que, agora, Silvio começa a seduzir também as classes A e B. Isso é bom porque atrai anunciantes de peso e possibilita que se aumente o preço dos comerciais. O pacote de filmes da Disney e da Warner tem desempenhado papel fundamental nesse sentido e, graças a iniciativas do tipo, muita gente acredita que o SBT tem tudo para sair do gueto de uma vez por todas. "Hoje, quem pertence a uma classe mais abastada já não tem vergonha de dizer que sintoniza o SBT", constata o publicitário Daniel Barbará, diretor da agência DPZ. A quantidade de pontos de ibope e a penetração de uma emissora nas diversas camadas sociais ganham consistência quando são traduzidas para a linguagem dos cifrões. Estima-se que, se o SBT mantiver a atual posição, o seu faturamento aumentará 25% até o final deste ano.

Tédio nas barcas – A sensibilidade do empresário para lançar programas de apelo popular deve-se em boa parte à sua história de vida. Não por destino, mas por opção, ele esteve em contato com os humildes desde o início de sua carreira. Ao contrário do que se pensa, Silvio não teve uma infância pobre nem precisou largar os estudos para trabalhar. Seu pai, o grego Alberto Abravanel, era proprietário de uma loja de artigos para turistas e sua mãe, a imigrante turca Rebeca, era dona-de-casa. A família, de origem judaica, morava perto do centro do Rio de Janeiro, num imóvel confortável. Silvio, o mais velho de uma prole de seis filhos, fez o pré-primário quando isso era um luxo e prosseguiu nos bancos escolares até se formar técnico em contabilidade. Parou de estudar porque estava ansioso para dar vazão ao talento de negociante que se manifestara precocemente. Quando tinha 14 anos, Silvio viu o Estado Novo de Getúlio Vargas cair e a democracia ser reimplantada no Brasil. Alguns jovens aproveitaram a efervescência da época para embarcar em projetos políticos. Ele enxergou o momento sob outra perspectiva. Como as pessoas tinham de renovar seus títulos de eleitor, resolveu vender capinhas de plástico que servissem para guardar os documentos. Lembra até hoje que elas custavam 3 cruzeiros e que as revendia por 5. Animado, passou a vender canetas e outras bugigangas. Aos 18 anos, Silvio já era um dos camelôs mais famosos do centro do Rio de Janeiro. Ganhava três salários mínimos por dia.

Não era o bastante. Ele percebeu que poderia explorar comercialmente o tédio das pessoas que viajavam nas barcas entre o Rio e Niterói. Convenceu, então, os administradores do transporte a deixá-lo tocar um serviço de alto-falantes em uma das barcas. Silvio executava músicas durante o trajeto e, nos intervalos, veiculava anúncios que vendia a bom preço. O negócio começou a ir tão bem que ele montou um bar para atender os passageiros. Mas a barca quebrou – e, com ela, também o negócio de Silvio. Endividado, foi para São Paulo, onde se pôs a trabalhar como locutor de comerciais radiofônicos. Nos intervalos, vendia anúncios em calendários que mandava confeccionar aos milhares. Aqui um parêntese: ele já chegou à capital paulista com o pseudônimo artístico. Quando morava no Rio, uma de suas maneiras de ganhar dinheiro era participando de concursos de locução. O vencedor sempre levava da rádio um prêmio em dinheiro. Silvio ganhou doze seguidos, até que se viu proibido de participar deles. Foi num desses concursos que adotou o pseudônimo. Ao apresentar-se a um radialista como Silvio Abravanel (sua mãe preferia Silvio a Senor), ouviu que o nome não soava bem. "Vamos chamá-lo de Silvio Santos", disse o sujeito, sem maiores explicações. E assim foi.


Claudio Rossi
Ele brinca de ventríloquo durante a entrevista: sonhando com o Guarujá

Em São Paulo, com as finanças equilibradas, Silvio voltou a ser dono de bar, no centro da cidade. Como investia tudo o que ganhava em seus pequenos negócios, não se permitia nenhum luxo, por menor que fosse. Aluguel de casa, por exemplo, nem pensar. Dividia um quarto de pensão com um ex-jogador de futebol. Foi expulso de lá depois de ser pego pela proprietária com uma mulher na escada. A grande virada veio no final de 1957. Um ano antes, Manoel da Nóbrega, dono de um programa na mesma rádio em que Silvio trabalhava, a Nacional, tornou-se sócio de um comerciante chamado Walter Scketer, que imaginara um projeto interessante: um baú de brinquedos que seria vendido em forma de carnê por doze meses. O alvo eram pais modestos, que assim poderiam proporcionar a seus filhos um Natal inesquecível. Nóbrega entraria com a sua credibilidade e com os anúncios. Scketer, com a sua experiência em administração. Quando chegou dezembro, porém, dos 800 compradores, apenas 500 receberam os baús que haviam comprado. Scketer sumiu do mapa, deixando Nóbrega a ver navios. As rádios concorrentes e os jornais passaram a referir-se ao sócio enganado como caloteiro e picareta. Desesperado, Nóbrega vislumbrou a salvação em Silvio Santos. A princípio hesitante, Silvio topou assumir a encrenca, pressionado pela primeira mulher, Maria Aparecida, que viu naquilo tudo uma boa possibilidade. Começava aí a história de sucesso do Baú da Felicidade, base do império do empresário.

"Peru que fala" – Para impulsionar o Baú nos primeiros tempos, Silvio bolou um esquema chamado Caravana do Peru (como sempre ficava vermelho com as brincadeiras que seus colegas faziam, seu apelido na rádio era o "peru que fala"). A Caravana do Peru funcionava assim: Silvio promovia shows em praças públicas, no qual havia sorteios de prêmios e apresentações de artistas conhecidos. Entre as atrações, ele vendia carnês. Foi nas caravanas que Silvio lapidou seu estilo de apresentador com o qual hipnotiza as platéias até hoje. É um estilo que, por sinal, intriga os estudiosos. "Ele tem a capacidade de mostrar o ridículo e o patético da personalidade humana, usando uma embalagem familiar, que não choca", diz o professor Muniz Sodré, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A sua primeira experiência na televisão aconteceu em 1958, como locutor de comerciais das finadas Lojas Clipper. Quatro anos mais tarde, comprou seu primeiro horário televisivo, na TV Paulista, para fazer o Vamos Brincar de Forca. Silvio, aliás, jamais foi empregado de emissora alguma. Sempre adquiriu espaços para veicular seu programa – e seu programa nunca deixou de ser um pretexto para vender os produtos oferecidos por suas empresas. É só com olhos de negociante que ele enxerga o mundo. Isso explica por que não constam de seu repertório conceitos como função educativa da televisão, responsabilidade social dos meios de comunicação ou atrações que difundam cultura. Para muitos, trata-se de sua maior limitação.

 

OS PRIMÓRDIOS DO APRESENTADOR
Silvio começou na televisão com o programa Vamos Brincar de Forca, em 1962. Em 1971 (à dir.), donos de emissoras teriam feito um complô contra ele

Silvio faz circular a versão de que, em 1971, Roberto Marinho, que comprara a TV Paulista e a transformara em uma afiliada da Globo, se reuniu com outros barões televisivos para combinar que ninguém venderia mais horários a ele. Seria uma forma de pressioná-lo a transformar-se em empregado, sem direito a vender comerciais para terceiros ou a apresentar os anúncios dos seus próprios produtos. Segundo essa história, os patrões das TVs queriam embolsar eles próprios o resultado dos comerciais – e não deixar que um jovem aventureiro ganhasse tanto dinheiro. A família Marinho nega peremptoriamente que tenha havido essa reunião. "Não, não é verdade", resume Roberto Irineu Marinho, vice-presidente das Organizações Globo. Com ou sem reunião, foi nessa época que Silvio começou a alimentar a idéia de ter uma emissora. Ao saber disso, a família de Paulo Machado de Carvalho, dona da Rede Record, ofereceu-lhe 40% do canal. Silvio aceitou fechar o negócio, sob uma condição: seu nome não poderia aparecer. Sociedade feita, ele continuou na Globo. Mas sua relação com os diretores da emissora carioca atingira níveis glaciais – ele era o dono do domingo global, chegando a ficar dez horas ininterruptas no ar, sem que houvesse uma contrapartida financeira à altura para os Marinho. Além do problema comercial, havia outra questão: Silvio, apesar de líder absoluto de audiência, não se encaixava no padrão da Globo. Boni e Walter Clark tentavam interferir no seu programa, dando sugestões de mudança de cenários e de novos quadros. Mas jamais tiveram êxito. "Ele não tinha o perfil que desejávamos. Tenho de reconhecer, porém, que Silvio Santos nunca levou ao ar nada de extremo mau gosto. Apesar de popularesco, não apelava", diz Boni.

Simpático aos militares – Em 1975, houve um encontro entre a cúpula global e Silvio para decidir a situação. A Globo já sabia de sua sociedade na Record, na qual logo se tornaria majoritário – o empresário só iria desfazer-se da emissora em 1989. O canal carioca não queria que ele migrasse para lá. No plano estratégico, seria como entregar ouro ao inimigo. Depois de horas de discussão, não houve acordo. "O problema foi puramente financeiro", conta Boni. "O departamento comercial de Silvio não pagava comissões à Globo e tinha uma tabela de preços paralela. A proposta era que ele permanecesse na emissora, desde que o nosso departamento comercial vendesse os anúncios do horário e ele se contentasse com uma porcentagem das vendas." A Globo estava realmente perdendo dinheiro. Um ex-diretor do Grupo Silvio Santos confirma que o apresentador, com a venda de anúncios, chegava a faturar até cinco vezes mais do que pagava à emissora dos Marinho.

Silvio saiu da Globo em 5 de janeiro de 1976. Uma semana depois, estreava seu programa na Record e na extinta Tupi. Na Tupi, entrava em rede nacional e na Record transmitia para São Paulo. A ubiqüidade no mercado paulista era muito conveniente do ponto de vista comercial. Em 1981, finalmente, Senor Abravanel chegou lá. Ganhou uma concessão do general-presidente João Figueiredo e lançou a TVS. A mulher de Figueiredo, Dulce, o adorava. Silvio e ela costumavam manter longas conversas telefônicas, nas quais ele se derramava em gentilezas. Os militares, em geral, o viam com simpatia. Acreditavam que ele poderia contrabalançar no âmbito nacional o poder de Roberto Marinho. Silvio retribuía o apreço com gentilezas. Por exemplo: criou em seu programa o quadro A Semana do Presidente, em que mostrava imagens oficiais de Figueiredo, como se isso fosse a coisa mais interessante do planeta. Não que Silvio apoiasse politicamente os militares. Beneficiava-se deles.

Por nunca ter demonstrado interesse pela política, Silvio causou surpresa ao pretender cargos públicos por três vezes. Em 1988, lançou-se à prefeitura de São Paulo, depois de ter estrelado um programa no qual fez uma catarse pública. Com um edema nas cordas vocais, achava que havia chegado ao fim de sua carreira como apresentador. "Estou devendo alguma coisa ao povo que me deu tanto", disse ele no ar. Foi a deixa para que políticos do PFL o procurassem, dizendo que ele era "o Messias capaz de continuar a obra maravilhosa de Jânio Quadros na prefeitura paulistana". O problema de saúde e a voracidade do partido em relação a seu dinheiro fizeram com que desistisse. Em 1989, o PFL voltou a convidar Silvio – só que agora para disputar a Presidência da República. Em sua convenção, o partido já havia escolhido Aureliano Chaves como candidato. Mas as pesquisas de opinião mostravam que se tratava de um nome sem chance. Para fazer frente ao avanço de Fernando Collor entre os eleitores conservadores, alguns pefelistas começaram, então, a apostar suas fichas na candidatura do popular apresentador do SBT. Os articuladores dessa idéia foram os senadores Hugo Napoleão, Marcondes Gadelha e Edison Lobão, que fizeram tal lambança em torno do assunto que, por algum tempo, os adversários se referiam a eles como "os três porquinhos".

Sondado por esses personagens, Silvio deu sinal verde para que a proposta fosse levada adiante. Numa reunião em Brasília, Aureliano aceitou ceder-lhe o lugar, mas pediu que a decisão permanecesse em segredo, até que ele conversasse com a família em Minas Gerais. A manobra, porém, chegou aos ouvidos de Antonio Carlos Magalhães, então ministro das Comunicações, que não gostou da história e a divulgou aos quatro ventos. Irritado, Aureliano manteve-se candidato. "Antonio Carlos Magalhães prejudicou Silvio a pedido de Roberto Marinho, que apoiava Collor e ficou alarmado com a possibilidade de um concorrente chegar à Presidência da República", acredita Arlindo Silva, ex-assessor de Silvio. Arlindo contará essa versão no livro A Fantástica História de Silvio Santos, que deve ser publicado em agosto.

Espetáculo patético – Diante da impossibilidade de lançá-lo pelo PFL, os senadores Napoleão, Gadelha e Lobão levaram Silvio a inscrever-se no Partido Municipalista Brasileiro, uma agremiação nanica que já apresentara como candidato o pastor evangélico Armando Corrêa, dono da legenda. Corrêa, é claro, cedeu aos valiosos argumentos do trio e deixou Silvio concorrer em seu lugar. O espetáculo daí por diante seria patético. Como as cédulas já estavam impressas, Silvio aparecia no horário eleitoral dizendo aos eleitores: "Onde você lê Armando Corrêa, você lê Silvio Santos". A musiquinha de fundo era o refrão "Silvio Santos vem aí". A candidatura acabaria sendo impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Em 1992, a novela se repetiu. Silvio Santos desistiu de se candidatar a prefeito de São Paulo na última hora. Quando se encaminhava para a convenção do PFL, no ginásio do Corinthians, foi informado de que os delegados do partido estavam resolvendo suas diferenças na base de socos e pontapés. Chocado, Silvio Santos voltou para casa dali mesmo. Hoje, está convencido de que a atividade política é uma profissão que, para ser bem exercida, exige pelo menos dezesseis anos de experiência.


Antonio Milena
O amigo Jassa: dois tons de loiro no cabelo do empresário


Silvio, que faz parte da vida dos brasileiros há quatro décadas, foi ao longo desse tempo mudando de estatura. De vendedor passou a locutor, de locutor virou apresentador e de apresentador tornou-se grande empresário, cortejado por poderosos. Durante a escalada, nada de essencial se alterou em suas preferências e hábitos. Ele não vai a festas nem a eventos. Visita o salão do cabeleireiro Jassa, para jogar conversa fora. Assiste a filmes em vídeo nos fins de semana. Vê uma média de vinte por mês. Prefere comédias. Admira muito o ator e diretor americano Woody Allen e diz que, se pudesse, o contrataria. Porque ele faz filmes bons e baratos, justifica. Silvio veste-se há quase trinta anos na mesma confecção, a Camelo, na Zona Norte de São Paulo. Usa relógios comprados em camelôs nos Estados Unidos, que custam no máximo 100 dólares. Em vez de guardar seus papéis numa pasta de couro, usa uma sacola de papelão. Não são extravagâncias de um milionário. Silvio é assim mesmo. O carro que usa com mais freqüência é um Lincoln Continental branco, de capota verde. Tem sete anos de uso e ele próprio o dirige.

Seu escritório é repleto de objetos estranhos. Ao lado da mesa de trabalho, mantém um boneco, em trajes de mordomo, que segura uma bandeja. No hall de entrada, há uma escultura de cera que retrata uma mulher nua sentada num cubo. Silvio entusiasma-se mostrando a perfeição de cada detalhe dela, enaltecendo o artista que se esmerou para moldar uma mulher que parece de verdade. Uma de suas manias é freqüentar consultórios médicos. Faz exame de próstata a cada quatro meses, quando o normal é uma checagem anual. Só consegue dormir à base de Rohypnol, sonífero de tarja preta que toma diariamente. E sonha. Sonha que não é mais Silvio Santos e finalmente pode descansar, tranqüilo.

 

O privilégio de amar



Claudio Rossi
Íris Abravanel: trabalho voluntário numa escola de São Paulo


Silvio Santos tem uma vida atribulada. Mas há uma rotina que ele mantém por mais lotada que esteja a sua agenda: jantar todos os dias em casa, às 8 da noite, em companhia da família. Esse compromisso foi assumido com sua mulher, Íris Pássaro Abravanel, quando os dois se reconciliaram em 1993, após seis meses de separação. O motivo da desavença foi o ciúme doentio de Silvio. A briga teve lances cômicos. Depois de ir embora de casa, Silvio Santos mandou um caminhão para pegar parte dos móveis. Íris, então, mandou trocar as fechaduras da casa – uma mansão de 2 000 metros quadrados de área construída no bairro paulistano do Morumbi. Irritado, Silvio resolveu tomar satisfações pessoalmente. Na porta, esbarrou com o pai de Íris, Rubens Pássaro, que portava um revólver. O caso foi parar na delegacia. "Caio na risada quando me lembro dessa época", diz Íris. Jantar em casa todas as noites foi a forma que ambos encontraram para dar um ponto final no ciúme. Dessas refeições costumam participar três das quatro filhas do casal. Daniela, a mais velha, mora na Flórida.

Silvio tem ainda duas filhas do primeiro casamento, com Maria Aparecida Abravanel, a Cidinha. Na semana retrasada, sua prole aumentou por uma decisão da Justiça. O gaúcho Hugo Sergio Marques, de 43 anos, que recentemente se apresentou como filho de Silvio, ganhou o direito de usar o sobrenome Abravanel depois que o empresário se negou a fazer o teste de paternidade. Hugo diz ter sido gerado num namoro anterior ao casamento de Silvio com Cidinha, união que durou quase vinte anos. Os advogados de Silvio irão recorrer da decisão. Em 1975, o apresentador se separou para ficar com Íris, funcionária do Baú da Felicidade. Dois anos mais tarde, recebeu a notícia de que a ex-mulher estava com câncer terminal. Diante da situação, voltou temporariamente a morar com Cidinha, para passar ao lado dela os seus últimos momentos. A atual mulher foi professora primária e estudou jornalismo. Enquanto esteve separada de Silvio, manteve uma coluna na revista Contigo. Hoje, Íris divide seu tempo entre uma loja de roupas chiques, da qual é proprietária, e uma escola particular, a Escola do Futuro, onde dá plantão como voluntária duas vezes por semana. A instituição reserva 40% das vagas para crianças carentes. A função de Íris é divulgar a escola e negociar com a iniciativa privada patrocínio para bolsas de estudo. "Meu sonho é fazer com que essas crianças tenham a mesma educação das minhas filhas", diz.