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Silvio ao vivo
Perto de completar 70 anos
e no auge de
sua carreira, Silvio Santos
chega à conclusão de que está
cansado de ser Silvio Santos
Ricardo Valladares
Fotos Claudio Rossi e álbum
de família
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| Silvio: ele está incomodando
a Globo mais do que nunca, com um pacote de grandes
filmes e sacadas como o Show do Milhão |
Silvio Santos é um ícone da televisão
brasileira. Os anos passam, os ídolos populares se
sucedem, os concorrentes mudam e ele permanece lá,
como a mais perfeita tradução de um domingo
à brasileira. É um dos rostos mais conhecidos
do país e também Rarraiiii!
a voz mais familiar aos ouvidos de milhões.
Silvio é ainda uma versão do self-made man,
o homem que conseguiu sozinho um lugar ao sol. É
até mesmo considerado por muitos um herói
do capitalismo nacional. De camelô tornou-se um grande
empresário, dono de nada menos que 33 empresas.
Seu patrimônio pessoal, declarado à Receita
Federal, totaliza 879 milhões de reais. Para completar,
no comando de sua rede de televisão, o SBT, Silvio
conseguiu a façanha de se transformar em um adversário
que incomoda de verdade a Rede Globo. Ele, que já
se transformara num adversário respeitável
aos domingos, agora está mordendo a emissora da família
Marinho durante a semana. O pacote de filmes dos estúdios
Warner e Disney, comprado por Silvio por 150 milhões
de dólares, tem-se revelado uma arma de calibre grosso.
Pelo acordo, que dura até 2005, o SBT poderá
exibir todas as fitas recentes produzidas por essas duas
gigantes do cinema. Entre elas, há títulos
de arrasar quarteirão, como 101 Dálmatas,
O Advogado do Diabo, Los Angeles Cidade Proibida,
O Carteiro e o Poeta e O Sexto Sentido. Os filmes
estão sendo veiculados desde o início de abril,
nas noites de terça e sexta-feira, e já catapultaram
o SBT para o primeiro lugar de audiência no horário
em que são exibidos. A fita Striptease, com
a beleza seminua da atriz Demi Moore, mostrada há
duas semanas, atingiu 32 pontos de ibope, contra apenas
12 da Globo no mesmo horário. Na semana passada,
The Glimmer Man O Homem das Sombras nocauteou
quatro atrações globais, alcançando
picos de até 30 pontos. A outra arma poderosa de
Silvio é o Show do Milhão, um programa
de perguntas e respostas que distribui prêmios polpudos
a seus participantes, conduzido por ele próprio.
A atração, que entra e sai do ar ao sabor
das conveniências, mostrou ser imbatível, independentemente
do dia e do horário em que é veiculada. O
SBT quer ainda arranhar a Globo no que ela faz melhor: telenovelas.
Silvio Santos fechou um acordo com a Televisa para produzir,
aqui, folhetins no padrão mexicano.
Por essas e outras, na média geral o ibope do SBT
no horário nobre, que era de 12 pontos em 1998, situa-se
atualmente na casa dos 17. O crescimento do SBT fez com
que algo raro acontecesse na média do mês de
abril. A audiência da Globo, na Grande São
Paulo, no filé que se estende das 18 horas até
a meia-noite foi menor que a soma dos índices de
suas concorrentes 31 pontos contra 34. A ascensão
do SBT preocupa sua poderosa concorrente, mas é preciso
relativizá-la. Apesar de derrotas aqui e ali, a Globo
está longe de ter sua hegemonia ameaçada.
O ibope da emissora dos Marinho permanece acachapante, e
os preços de seus intervalos comerciais são
a expressão mais concreta dessa liderança.
Trinta segundos de anúncio na Globo custam até
139.000 reais, enquanto no SBT
o mesmo tempo sai por no máximo 75.000
reais. A desproporção do faturamento é
abismal. Em 1999, o canal de Silvio movimentou 479 milhões
de reais, o equivalente a 25% daquilo que entrou no caixa
da emissora carioca, um portento de 1,8 bilhão de
reais ao ano.
Fotos Claudio Rossi
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Fi
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O ESCRITÓRIO
No saguão de entrada
de seu QG (à esq.) há uma escultura
de uma mulher nua que o apresentador considera
obra de arte de primeira linha. Ao lado de sua mesa,
destaca-se um boneco em trajes de mordomo
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Duas plásticas A Globo, enfim, continua
a ser a Globo, mas não há dúvida de
que Senor Abravanel, verdadeiro nome de Silvio, está
no auge de sua carreira como empresário e profissional
de televisão. Ele também se encontra às
portas da terceira idade: em 12 de dezembro fará
70 anos, bem camuflados por duas plásticas no rosto
(a segunda feita há um ano e meio, para tirar pés-de-galinha),
sessões de bronzeamento artificial (possui um equipamento
próprio em seu escritório, no bairro paulistano
do Ibirapuera) e os cabelos pintados a cada quinze dias.
A sua cor, aliás, não é o acaju, como
se pensa, mas uma mistura de dois tons de loiro, preparada
especialmente pelo cabeleireiro Jassa, seu melhor amigo.
Avesso a entrevistas Jô Soares permaneceu mais
de uma década no SBT e não o convenceu a ir
a seu programa , Silvio concordou em falar com exclusividade
a VEJA. Foram dezesseis horas de conversas, espaçadas
ao longo de duas semanas. Ressabiado no início, ele
se descontraiu aos poucos. Bem mais à vontade nas
últimas sessões, contou episódios desconhecidos
de sua trajetória e emitiu opiniões de uma
sinceridade desconcertante a respeito de TV, realidade social,
censura e política (veja
entrevista). Por fim, revelou que está cansado.
Cansado de ser Silvio Santos.
Fotos Claudio
Rossi
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Fo
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O ESTILO ABRAVANEL
Silvio gosta de dirigir ele mesmo seu Lincoln Continental
ano 93. No camarim, relógios de camelô
convivem com rascunhos de boletins do Ibope e orações
|
Não que ele esteja despreparado fisicamente para
agüentar o tranco. Embora não tenha mais o mesmo
fôlego da época em que ficava o domingo inteiro
no ar, Silvio mostra o vigor de um homem com pelo menos
vinte anos a menos. Para manter a forma e a silhueta de
82 quilos, distribuídos por 1,81 metro, ele acorda
às 6 da manhã, caminha uma hora na esteira,
faz trinta flexões de braços e sessenta de
joelhos. É adepto da ginástica desde os tempos
de Exército. Serviu durante um ano como pára-quedista
e diz ter aprendido lá a ser disciplinado. Para usar
uma expressão sua, o Exército o ensinou a
ter "uma força de vontade indômita". A força
de vontade pode ser indômita, mas de nada lhe valerá
diante da questão que agora se coloca à sua
frente: quando vier a hora da aposentadoria, quem sucederá
a ele no comando de suas empresas? Ao contrário de
Roberto Marinho, Silvio Santos não tem um sucessor
preparado para assumir seu lugar. As seis filhas do empresário,
na avaliação dele próprio, não
demonstraram ainda nem pendor nem vontade para tocar seus
negócios.

Sua maior fonte de angústia é
o SBT. Apesar de não ser a empresa mais rentável
do grupo, a emissora é a sua jóia mais cara.
"Eu diria que, numa avaliação clássica,
que considera a entrada líquida de dinheiro, o SBT
valeria de 1 bilhão a 1,5 bilhão de reais",
diz Antoninho Marmo Trevisan, presidente da Trevisan Auditores
e Consultores. Volta e meia o SBT é posto à
venda (a última vez foi em 1998), mas Silvio sempre
desiste na hora H. Tais rompantes talvez possam ser creditados
aos momentos em que seu stress está próximo
do limite do suportável, e não a uma razão
objetiva do ponto de vista financeiro. O SBT é importante
não só por seu valor intrínseco, mas
porque alavanca todos os outros negócios do empresário,
dando-lhes visibilidade e emprestando-lhes credibilidade.
O problema é que o SBT é sinônimo de
Silvio Santos. Não se conhece no Brasil outra empresa
tão dependente do carisma e das decisões diretas
de seu dono. Recentemente, Silvio partiu para a profissionalização
dos quadros executivos da emissora, afastando de cargos
de direção velhos amigos, como Luciano Callegari,
e parentes, como o sobrinho Guilherme Stoliar. A idéia
era tornar tudo mais impessoal e eficiente, ao estilo dos
conglomerados modernos, para que pudesse eliminar a sobrecarga
de trabalho e assim começar a tratar de sua almejada
aposentadoria. Uma aposentadoria, note-se, do tipo ativa,
que nada tem a ver com pijamas e chinelos. Ele comenta com
amigos que seu sonho é abrir um cassino no balneário
paulista do Guarujá, onde passaria a maior parte
do tempo. A profissionalização do SBT, no
entanto, foi um tiro que saiu pela culatra. Livre dos constrangimentos
com amigos e parentes, Silvio sentiu-se mais à vontade
para cobrar resultados com dureza e se enredou ainda mais
no dia-a-dia de seu negócio.
Boris não gostou Dado esse grau de
simbiose, há uma pergunta que atormenta a cabeça
dos que trabalham ao lado de Silvio: que impacto a sua ausência
causaria na saúde financeira, não apenas do
SBT, mas do grupo inteiro? "A figura de Silvio é
poderosa. Na minha avaliação, se ele pendurasse
as chuteiras hoje, perderíamos de imediato 40% do
nosso faturamento total, que está em 1,6 bilhão
de reais por ano", afirma Luiz Sebastião Sandoval,
presidente do Grupo Silvio Santos. Ou seja, só a
sua imagem garantiria às empresas que criou 640 milhões
de reais, o equivalente a 350 milhões de dólares.
Em troca de seu trabalho, Silvio tem uma retirada anual
bruta de 55 milhões de reais (30 milhões de
dólares), na condição formal de funcionário
do Baú da Felicidade e da Liderança Capitalização,
suas fontes pagadoras na declaração à
Receita Federal. Para se ter uma idéia, caso fosse
empregado de uma grande corporação, esse salário
o colocaria na nona posição entre os executivos
mais bem remunerados do mundo, listados pela revista americana
Forbes. Ele é a pessoa física que mais
paga imposto de renda no Brasil: no ano passado, deixou
com o Leão 15 milhões de reais.
Fotos álbum de
família
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lia
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ÁLBUM DE FAMÍLIA
Silvio não teve infância pobre. Era
o filho mais velho do dono de uma loja de artigos
para turistas no Rio de Janeiro (à dir.)
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Silvio pode estar cansado de seu papel, mas continua a
desempenhá-lo como sempre fez. É centralizador
e quer sempre resultados a curtíssimo prazo. Os artistas
do SBT nunca têm certeza de que suas atrações
serão transmitidas no dia e horário programados,
pela simples razão de que tudo depende dos números
da audiência. De olho no ibope de sua emissora e no
das concorrentes, Silvio tira programas do ar com a facilidade
de quem troca de roupa. É o tipo de procedimento
que cria embaraços. Para encaixar a última
série do Show do Milhão nas noites
de segunda-feira, ele suspendeu os programas da apresentadora
Hebe Camargo, que permaneceu três semanas fora do
vídeo. Irritada, ela foi reclamar do patrão
numa entrevista a Boris Casoy, na Rede Record. Em relação
ao próprio Boris, seu estilo de administrar foi determinante
para que o jornalista saísse do SBT. Silvio havia
acabado de comprar um pacote de programas infantis e decidiu
veiculá-los às 7 da noite, para fisgar as
crianças que chegam da escola e ligam a TV antes
do jantar. Boris, que ocupava o horário, seria obrigado
a passar para as 8, batendo de frente com o Jornal Nacional,
da Rede Globo. Boris não gostou e o fato precipitou
sua transferência para a Record. Silvio odeia ser
contestado em qualquer instância e, por isso, tem
dificuldade em lidar com estrelas. Adorava ter Jô
Soares no SBT, mas admite que se sente aliviado por não
ter de discutir com ele uma alteração de horário,
o que seria fatal com a compra dos filmes da Disney e da
Warner.
Uma passagem ilustrativa de seu estilo é a contratação
do apresentador Ratinho. Ao tirá-lo da Record, em
1998, uma de suas grandes tacadas, envolveu-se numa disputa
judicial por causa da multa rescisória de 44 milhões
de reais que a emissora da Igreja Universal queria receber.
Sem paciência para que o processo transcorresse normalmente
na Justiça, Silvio tentou falar com o bispo Edir
Macedo por diversas vezes. Até que no final do ano
passado recebeu um telefonema de um diretor da Record: "Se
quiser falar com o bispo, vá no domingo até
a sede da Universal, no bairro de Santo Amaro. Ele conversará
com você depois do culto". No dia marcado, Silvio
pegou seu carro e chegou ao templo meia hora antes do início
da celebração religiosa. Sentou-se na última
fileira, em meio aos fiéis, e assistiu a tudo. Foi
uma forma de conhecer o terreno em que estava pisando. Terminado
o culto, encontrou-se com Edir Macedo. Uma testemunha relatou
a VEJA o diálogo entre os dois:
"Bispo, estou aqui para resolver o problema da multa do
Ratinho", disse Silvio.
"São 44 milhões", respondeu Edir Macedo.
"Você sabe que, depois de anos de processo, vai
receber no máximo 22 milhões."
"O que você propõe, então?"
"Eu pago 14 milhões."
"O que você acha?", perguntou Edir a um de seus funcionários.
"Acho que tudo bem", respondeu o funcionário.
"Pense bastante, bispo. Se quiser voltar atrás,
me ligue amanhã", encerrou Silvio.
Na mesma semana, o acordo foi fechado. E o bispo Edir Macedo
ganhou um fã. Silvio ficou tão impressionado
com a oratória de Macedo durante o culto que, desde
então, pede a um dos empregados de sua casa
tem dezesseis que grave as falas do fundador da Igreja
Universal no rádio. Costuma ouvir as fitas no carro,
enquanto vai para o trabalho.
Novelas toscas O bordão de uma antiga
propaganda de biscoitos dizia que eles vendiam mais porque
estavam sempre fresquinhos e que, por estar sempre fresquinhos,
vendiam mais. No caso do empresário, a fórmula
é semelhante: Silvio Santos é Silvio Santos
porque sempre dá certo e, como dá sempre certo,
ele continua a ser Silvio Santos. Com o SBT, ele contrariou
todos os prognósticos que apontavam para a falência
de seu modelo e imprimiu outro rumo à televisão
brasileira. Até que sua rede entrasse no ar, em 1981,
com o nome de TVS, os canais concorrentes da Rede Globo
tentavam imitar o padrão global de qualidade. O resultado
invariavelmente era lamentável, já que eles
não contavam com os mesmos equipamentos e quadros
técnicos. Esse padrão, estabelecido na década
de 70 por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho,
o Boni, e Walter Clark, representou um salto qualitativo
impressionante ao abolir a improvisação que
marcava a televisão nacional desde o seu início,
em 1950. As imagens da Globo eram infinitamente mais bonitas
e seus programas mais bem costurados até porque
se reduziu ao mínimo o número de atrações
ao vivo, nas quais a possibilidade de haver deslizes aumenta
exponencialmente. Foi a Globo, ainda, que introduziu as
pesquisas de opinião na televisão brasileira
para balizar a sua programação. E estas, aliadas
aos estratosféricos índices de audiência,
mostravam que o caminho da emissora carioca era o caminho.
Silvio, no entanto, deu um nó na lógica
global. Seguindo apenas seu instinto, ele apostou nos programas
de auditório, em jornalísticos mambembes que
enfatizavam o mundo cão e em novelas mexicanas que,
produzidas de maneira tosca e com enredos que chafurdavam
no dramalhão desbragado, contrastavam com a modernidade
dos folhetins da Globo. Ou seja, colocou o povão
de volta na TV e, com isso, fisgou de imediato as classes
C e D, que não se reconheciam na edulcorada realidade
brasileira veiculada pela concorrente. O sucesso da popularização
da TV promovida por Silvio, que tanta discussão causou
na imprensa e entre os estudiosos dos meios de comunicação,
fez com que as demais emissoras enveredassem por uma trilha
parecida. Inclusive a própria Globo. Pode-se dizer
que programas como Linha Direta, Mais Você,
com Ana Maria Braga, Domingão do Faustão,
Sai de Baixo e Zorra Total têm algum parentesco
com o padrão SBT de qualidade ou da falta dela.
O reverso desse fenômeno é que, agora, Silvio
começa a seduzir também as classes A e B.
Isso é bom porque atrai anunciantes de peso e possibilita
que se aumente o preço dos comerciais. O pacote de
filmes da Disney e da Warner tem desempenhado papel fundamental
nesse sentido e, graças a iniciativas do tipo, muita
gente acredita que o SBT tem tudo para sair do gueto de
uma vez por todas. "Hoje, quem pertence a uma classe mais
abastada já não tem vergonha de dizer que
sintoniza o SBT", constata o publicitário Daniel
Barbará, diretor da agência DPZ. A quantidade
de pontos de ibope e a penetração de uma emissora
nas diversas camadas sociais ganham consistência quando
são traduzidas para a linguagem dos cifrões.
Estima-se que, se o SBT mantiver a atual posição,
o seu faturamento aumentará 25% até o final
deste ano.
Tédio nas barcas A sensibilidade do
empresário para lançar programas de apelo
popular deve-se em boa parte à sua história
de vida. Não por destino, mas por opção,
ele esteve em contato com os humildes desde o início
de sua carreira. Ao contrário do que se pensa, Silvio
não teve uma infância pobre nem precisou largar
os estudos para trabalhar. Seu pai, o grego Alberto Abravanel,
era proprietário de uma loja de artigos para turistas
e sua mãe, a imigrante turca Rebeca, era dona-de-casa.
A família, de origem judaica, morava perto do centro
do Rio de Janeiro, num imóvel confortável.
Silvio, o mais velho de uma prole de seis filhos, fez o
pré-primário quando isso era um luxo e prosseguiu
nos bancos escolares até se formar técnico
em contabilidade. Parou de estudar porque estava ansioso
para dar vazão ao talento de negociante que se manifestara
precocemente. Quando tinha 14 anos, Silvio viu o Estado
Novo de Getúlio Vargas cair e a democracia ser reimplantada
no Brasil. Alguns jovens aproveitaram a efervescência
da época para embarcar em projetos políticos.
Ele enxergou o momento sob outra perspectiva. Como as pessoas
tinham de renovar seus títulos de eleitor, resolveu
vender capinhas de plástico que servissem para guardar
os documentos. Lembra até hoje que elas custavam
3 cruzeiros e que as revendia por 5. Animado, passou a vender
canetas e outras bugigangas. Aos 18 anos, Silvio já
era um dos camelôs mais famosos do centro do Rio de
Janeiro. Ganhava três salários mínimos
por dia.
Não era o bastante. Ele percebeu que poderia explorar
comercialmente o tédio das pessoas que viajavam nas
barcas entre o Rio e Niterói. Convenceu, então,
os administradores do transporte a deixá-lo tocar
um serviço de alto-falantes em uma das barcas. Silvio
executava músicas durante o trajeto e, nos intervalos,
veiculava anúncios que vendia a bom preço.
O negócio começou a ir tão bem que
ele montou um bar para atender os passageiros. Mas a barca
quebrou e, com ela, também o negócio
de Silvio. Endividado, foi para São Paulo, onde se
pôs a trabalhar como locutor de comerciais radiofônicos.
Nos intervalos, vendia anúncios em calendários
que mandava confeccionar aos milhares. Aqui um parêntese:
ele já chegou à capital paulista com o pseudônimo
artístico. Quando morava no Rio, uma de suas maneiras
de ganhar dinheiro era participando de concursos de locução.
O vencedor sempre levava da rádio um prêmio
em dinheiro. Silvio ganhou doze seguidos, até que
se viu proibido de participar deles. Foi num desses concursos
que adotou o pseudônimo. Ao apresentar-se a um radialista
como Silvio Abravanel (sua mãe preferia Silvio a
Senor), ouviu que o nome não soava bem. "Vamos chamá-lo
de Silvio Santos", disse o sujeito, sem maiores explicações.
E assim foi.
Claudio Rossi
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| Ele brinca de ventríloquo
durante a entrevista: sonhando com o Guarujá
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Em São Paulo, com as finanças equilibradas,
Silvio voltou a ser dono de bar, no centro da cidade. Como
investia tudo o que ganhava em seus pequenos negócios,
não se permitia nenhum luxo, por menor que fosse.
Aluguel de casa, por exemplo, nem pensar. Dividia um quarto
de pensão com um ex-jogador de futebol. Foi expulso
de lá depois de ser pego pela proprietária
com uma mulher na escada. A grande virada veio no final
de 1957. Um ano antes, Manoel da Nóbrega, dono de
um programa na mesma rádio em que Silvio trabalhava,
a Nacional, tornou-se sócio de um comerciante chamado
Walter Scketer, que imaginara um projeto interessante: um
baú de brinquedos que seria vendido em forma de carnê
por doze meses. O alvo eram pais modestos, que assim poderiam
proporcionar a seus filhos um Natal inesquecível.
Nóbrega entraria com a sua credibilidade e com os
anúncios. Scketer, com a sua experiência em
administração. Quando chegou dezembro, porém,
dos 800 compradores, apenas 500 receberam os baús
que haviam comprado. Scketer sumiu do mapa, deixando Nóbrega
a ver navios. As rádios concorrentes e os jornais
passaram a referir-se ao sócio enganado como caloteiro
e picareta. Desesperado, Nóbrega vislumbrou a salvação
em Silvio Santos. A princípio hesitante, Silvio topou
assumir a encrenca, pressionado pela primeira mulher, Maria
Aparecida, que viu naquilo tudo uma boa possibilidade. Começava
aí a história de sucesso do Baú da
Felicidade, base do império do empresário.
"Peru que fala" Para impulsionar o Baú
nos primeiros tempos, Silvio bolou um esquema chamado Caravana
do Peru (como sempre ficava vermelho com as brincadeiras
que seus colegas faziam, seu apelido na rádio era
o "peru que fala"). A Caravana do Peru funcionava assim:
Silvio promovia shows em praças públicas,
no qual havia sorteios de prêmios e apresentações
de artistas conhecidos. Entre as atrações,
ele vendia carnês. Foi nas caravanas que Silvio lapidou
seu estilo de apresentador com o qual hipnotiza as platéias
até hoje. É um estilo que, por sinal, intriga
os estudiosos. "Ele tem a capacidade de mostrar o ridículo
e o patético da personalidade humana, usando uma
embalagem familiar, que não choca", diz o professor
Muniz Sodré, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A sua primeira experiência na televisão aconteceu
em 1958, como locutor de comerciais das finadas Lojas Clipper.
Quatro anos mais tarde, comprou seu primeiro horário
televisivo, na TV Paulista, para fazer o Vamos Brincar
de Forca. Silvio, aliás, jamais foi empregado
de emissora alguma. Sempre adquiriu espaços para
veicular seu programa e seu programa nunca deixou
de ser um pretexto para vender os produtos oferecidos por
suas empresas. É só com olhos de negociante
que ele enxerga o mundo. Isso explica por que não
constam de seu repertório conceitos como função
educativa da televisão, responsabilidade social dos
meios de comunicação ou atrações
que difundam cultura. Para muitos, trata-se de sua maior
limitação.
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OS
PRIMÓRDIOS
DO APRESENTADOR
Silvio começou na televisão
com o programa Vamos Brincar de Forca, em 1962.
Em 1971 (à dir.), donos de emissoras
teriam feito um complô contra ele
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Silvio faz circular a versão de que, em 1971, Roberto
Marinho, que comprara a TV Paulista e a transformara em
uma afiliada da Globo, se reuniu com outros barões
televisivos para combinar que ninguém venderia mais
horários a ele. Seria uma forma de pressioná-lo
a transformar-se em empregado, sem direito a vender comerciais
para terceiros ou a apresentar os anúncios dos seus
próprios produtos. Segundo essa história,
os patrões das TVs queriam embolsar eles próprios
o resultado dos comerciais e não deixar que
um jovem aventureiro ganhasse tanto dinheiro. A família
Marinho nega peremptoriamente que tenha havido essa reunião.
"Não, não é verdade", resume Roberto
Irineu Marinho, vice-presidente das Organizações
Globo. Com ou sem reunião, foi nessa época
que Silvio começou a alimentar a idéia de
ter uma emissora. Ao saber disso, a família de Paulo
Machado de Carvalho, dona da Rede Record, ofereceu-lhe 40%
do canal. Silvio aceitou fechar o negócio, sob uma
condição: seu nome não poderia aparecer.
Sociedade feita, ele continuou na Globo. Mas sua relação
com os diretores da emissora carioca atingira níveis
glaciais ele era o dono do domingo global, chegando
a ficar dez horas ininterruptas no ar, sem que houvesse
uma contrapartida financeira à altura para os Marinho.
Além do problema comercial, havia outra questão:
Silvio, apesar de líder absoluto de audiência,
não se encaixava no padrão da Globo. Boni
e Walter Clark tentavam interferir no seu programa, dando
sugestões de mudança de cenários e
de novos quadros. Mas jamais tiveram êxito. "Ele não
tinha o perfil que desejávamos. Tenho de reconhecer,
porém, que Silvio Santos nunca levou ao ar nada de
extremo mau gosto. Apesar de popularesco, não apelava",
diz Boni.
Simpático aos militares Em 1975, houve
um encontro entre a cúpula global e Silvio para decidir
a situação. A Globo já sabia de sua
sociedade na Record, na qual logo se tornaria majoritário
o empresário só iria desfazer-se da
emissora em 1989. O canal carioca não queria que
ele migrasse para lá. No plano estratégico,
seria como entregar ouro ao inimigo. Depois de horas de
discussão, não houve acordo. "O problema foi
puramente financeiro", conta Boni. "O departamento comercial
de Silvio não pagava comissões à Globo
e tinha uma tabela de preços paralela. A proposta
era que ele permanecesse na emissora, desde que o nosso
departamento comercial vendesse os anúncios do horário
e ele se contentasse com uma porcentagem das vendas." A
Globo estava realmente perdendo dinheiro. Um ex-diretor
do Grupo Silvio Santos confirma que o apresentador, com
a venda de anúncios, chegava a faturar até
cinco vezes mais do que pagava à emissora dos Marinho.
Silvio saiu da Globo em 5 de janeiro de 1976. Uma semana
depois, estreava seu programa na Record e na extinta Tupi.
Na Tupi, entrava em rede nacional e na Record transmitia
para São Paulo. A ubiqüidade no mercado paulista
era muito conveniente do ponto de vista comercial. Em 1981,
finalmente, Senor Abravanel chegou lá. Ganhou uma
concessão do general-presidente João Figueiredo
e lançou a TVS. A mulher de Figueiredo, Dulce, o
adorava. Silvio e ela costumavam manter longas conversas
telefônicas, nas quais ele se derramava em gentilezas.
Os militares, em geral, o viam com simpatia. Acreditavam
que ele poderia contrabalançar no âmbito nacional
o poder de Roberto Marinho. Silvio retribuía o apreço
com gentilezas. Por exemplo: criou em seu programa o quadro
A Semana do Presidente, em que mostrava imagens oficiais
de Figueiredo, como se isso fosse a coisa mais interessante
do planeta. Não que Silvio apoiasse politicamente
os militares. Beneficiava-se deles.
Por nunca ter demonstrado interesse pela política,
Silvio causou surpresa ao pretender cargos públicos
por três vezes. Em 1988, lançou-se à
prefeitura de São Paulo, depois de ter estrelado
um programa no qual fez uma catarse pública. Com
um edema nas cordas vocais, achava que havia chegado ao
fim de sua carreira como apresentador. "Estou devendo alguma
coisa ao povo que me deu tanto", disse ele no ar. Foi a
deixa para que políticos do PFL o procurassem, dizendo
que ele era "o Messias capaz de continuar a obra maravilhosa
de Jânio Quadros na prefeitura paulistana". O problema
de saúde e a voracidade do partido em relação
a seu dinheiro fizeram com que desistisse. Em 1989, o PFL
voltou a convidar Silvio só que agora para disputar
a Presidência da República. Em sua convenção,
o partido já havia escolhido Aureliano Chaves como
candidato. Mas as pesquisas de opinião mostravam
que se tratava de um nome sem chance. Para fazer frente
ao avanço de Fernando Collor entre os eleitores conservadores,
alguns pefelistas começaram, então, a apostar
suas fichas na candidatura do popular apresentador do SBT.
Os articuladores dessa idéia foram os senadores Hugo
Napoleão, Marcondes Gadelha e Edison Lobão,
que fizeram tal lambança em torno do assunto que,
por algum tempo, os adversários se referiam a eles
como "os três porquinhos".
Sondado por esses personagens, Silvio deu sinal verde
para que a proposta fosse levada adiante. Numa reunião
em Brasília, Aureliano aceitou ceder-lhe o lugar,
mas pediu que a decisão permanecesse em segredo,
até que ele conversasse com a família em Minas
Gerais. A manobra, porém, chegou aos ouvidos de Antonio
Carlos Magalhães, então ministro das Comunicações,
que não gostou da história e a divulgou aos
quatro ventos. Irritado, Aureliano manteve-se candidato.
"Antonio Carlos Magalhães prejudicou Silvio a pedido
de Roberto Marinho, que apoiava Collor e ficou alarmado
com a possibilidade de um concorrente chegar à Presidência
da República", acredita Arlindo Silva, ex-assessor
de Silvio. Arlindo contará essa versão no
livro A Fantástica História de Silvio Santos,
que deve ser publicado em agosto.
Espetáculo patético Diante
da impossibilidade de lançá-lo pelo PFL, os
senadores Napoleão, Gadelha e Lobão levaram
Silvio a inscrever-se no Partido Municipalista Brasileiro,
uma agremiação nanica que já apresentara
como candidato o pastor evangélico Armando Corrêa,
dono da legenda. Corrêa, é claro, cedeu aos
valiosos argumentos do trio e deixou Silvio concorrer em
seu lugar. O espetáculo daí por diante seria
patético. Como as cédulas já estavam
impressas, Silvio aparecia no horário eleitoral dizendo
aos eleitores: "Onde você lê Armando Corrêa,
você lê Silvio Santos". A musiquinha de fundo
era o refrão "Silvio Santos vem aí". A candidatura
acabaria sendo impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Em 1992, a novela se repetiu. Silvio Santos desistiu de
se candidatar a prefeito de São Paulo na última
hora. Quando se encaminhava para a convenção
do PFL, no ginásio do Corinthians, foi informado
de que os delegados do partido estavam resolvendo suas diferenças
na base de socos e pontapés. Chocado, Silvio Santos
voltou para casa dali mesmo. Hoje, está convencido
de que a atividade política é uma profissão
que, para ser bem exercida, exige pelo menos dezesseis anos
de experiência.
Antonio Milena
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| O amigo Jassa: dois
tons de loiro no cabelo do empresário
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Silvio, que faz parte da vida dos brasileiros há
quatro décadas, foi ao longo desse tempo mudando
de estatura. De vendedor passou a locutor, de locutor virou
apresentador e de apresentador tornou-se grande empresário,
cortejado por poderosos. Durante a escalada, nada de essencial
se alterou em suas preferências e hábitos.
Ele não vai a festas nem a eventos. Visita o salão
do cabeleireiro Jassa, para jogar conversa fora. Assiste
a filmes em vídeo nos fins de semana. Vê uma
média de vinte por mês. Prefere comédias.
Admira muito o ator e diretor americano Woody Allen e diz
que, se pudesse, o contrataria. Porque ele faz filmes bons
e baratos, justifica. Silvio veste-se há quase trinta
anos na mesma confecção, a Camelo, na Zona
Norte de São Paulo. Usa relógios comprados
em camelôs nos Estados Unidos, que custam no máximo
100 dólares. Em vez de guardar seus papéis
numa pasta de couro, usa uma sacola de papelão. Não
são extravagâncias de um milionário.
Silvio é assim mesmo. O carro que usa com mais freqüência
é um Lincoln Continental branco, de capota verde.
Tem sete anos de uso e ele próprio o dirige.
Seu escritório é repleto de objetos estranhos.
Ao lado da mesa de trabalho, mantém um boneco, em
trajes de mordomo, que segura uma bandeja. No hall de entrada,
há uma escultura de cera que retrata uma mulher nua
sentada num cubo. Silvio entusiasma-se mostrando a perfeição
de cada detalhe dela, enaltecendo o artista que se esmerou
para moldar uma mulher que parece de verdade. Uma de suas
manias é freqüentar consultórios médicos.
Faz exame de próstata a cada quatro meses, quando
o normal é uma checagem anual. Só consegue
dormir à base de Rohypnol, sonífero de tarja
preta que toma diariamente. E sonha. Sonha que não
é mais Silvio Santos e finalmente pode descansar,
tranqüilo.
O privilégio de amar
Claudio Rossi
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| Íris Abravanel: trabalho
voluntário numa escola de São Paulo
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Silvio Santos tem uma vida atribulada. Mas há
uma rotina que ele mantém por mais lotada que
esteja a sua agenda: jantar todos os dias em casa,
às 8 da noite, em companhia da família.
Esse compromisso foi assumido com sua mulher, Íris
Pássaro Abravanel, quando os dois se reconciliaram
em 1993, após seis meses de separação.
O motivo da desavença foi o ciúme doentio
de Silvio. A briga teve lances cômicos. Depois
de ir embora de casa, Silvio Santos mandou um caminhão
para pegar parte dos móveis. Íris, então,
mandou trocar as fechaduras da casa uma mansão
de 2 000 metros quadrados de área construída
no bairro paulistano do Morumbi. Irritado, Silvio
resolveu tomar satisfações pessoalmente.
Na porta, esbarrou com o pai de Íris, Rubens
Pássaro, que portava um revólver. O
caso foi parar na delegacia. "Caio na risada quando
me lembro dessa época", diz Íris. Jantar
em casa todas as noites foi a forma que ambos encontraram
para dar um ponto final no ciúme. Dessas refeições
costumam participar três das quatro filhas do
casal. Daniela, a mais velha, mora na Flórida.
Silvio tem ainda duas filhas do primeiro casamento,
com Maria Aparecida Abravanel, a Cidinha. Na semana
retrasada, sua prole aumentou por uma decisão
da Justiça. O gaúcho Hugo Sergio Marques,
de 43 anos, que recentemente se apresentou como filho
de Silvio, ganhou o direito de usar o sobrenome Abravanel
depois que o empresário se negou a fazer o
teste de paternidade. Hugo diz ter sido gerado num
namoro anterior ao casamento de Silvio com Cidinha,
união que durou quase vinte anos. Os advogados
de Silvio irão recorrer da decisão.
Em 1975, o apresentador se separou para ficar com
Íris, funcionária do Baú da Felicidade.
Dois anos mais tarde, recebeu a notícia de
que a ex-mulher estava com câncer terminal.
Diante da situação, voltou temporariamente
a morar com Cidinha, para passar ao lado dela os seus
últimos momentos. A atual mulher foi professora
primária e estudou jornalismo. Enquanto esteve
separada de Silvio, manteve uma coluna na revista
Contigo. Hoje, Íris divide seu tempo
entre uma loja de roupas chiques, da qual é
proprietária, e uma escola particular, a Escola
do Futuro, onde dá plantão como voluntária
duas vezes por semana. A instituição
reserva 40% das vagas para crianças carentes.
A função de Íris é divulgar
a escola e negociar com a iniciativa privada patrocínio
para bolsas de estudo. "Meu sonho é fazer com
que essas crianças tenham a mesma educação
das minhas filhas", diz.
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