Chegou o pó da madame
Socialite detalha em livro como funcionam
os serviços de entrega de drogas em domicílio
Ronaldo França e
Silvia Rogar
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A sociedade carioca foi sacudida, na semana passada, por
mais um dos terremotos verbais que a socialite Narcisa Tamborindeguy
é capaz de provocar como ninguém. Narcisa
revelou com detalhes em seu recém-lançado
livro, Ai, que Loucura!, que existe no Rio de Janeiro
um serviço de entrega de drogas em domicílio
que funciona 24 horas. Disse também que os entregadores
muitas vezes são mulheres grávidas e velhinhas.
Elas transportariam cocaína com a tranqüilidade
de quem vai levar um pedaço de bolo para a vizinha
no final da tarde. Em praias sofisticadas como Angra dos
Reis e Búzios, a cocaína chega nos helicópteros
dos ricos, que mandam o piloto ao Rio buscar a encomenda.
Para quem olha de longe, pode parecer mais uma das estapafúrdias
declarações da quase sempre inacreditável
Narcisa. Não é. O "pó delivery",
como ela batizou o serviço, acontece livremente nas
ruas do Rio, abastecendo os salões da alta sociedade
e as festas da classe média. Subir os morros para
comprar cocaína dos traficantes se transformou em
hábito quase exclusivo dos viciados menos favorecidos.
A cidade, ensina Narcisa, curvou-se à evidência
de que, mesmo quando o assunto é drogas, a Zona Sul
gosta mesmo é de conforto.
O "pó delivery" não tem endereço
fixo, CGC e central de atendimento ao consumidor. Seria
ingênuo achar que qualquer um tem acesso a serviços
de entrega como esse. Não é assim. Para comprar
por esse sistema é preciso estabelecer um relacionamento
mínimo com quem vende. Ou seja, está acessível
somente para os iniciados. Os fornecedores da droga são,
geralmente, pessoas que começam como usuários
e vislumbram no comércio a perspectiva de algum ganho.
Cada um deles tem um seleto grupo de clientes, cujo prestígio
varia de acordo com a freqüência e a quantidade
que compram. Era justamente nesse quesito, segundo a própria
Narcisa, que ela se destacava até três anos
atrás, quando um tratamento especializado a livrou
do vício. Integrante de uma família tradicional,
Narcisa é uma personagem ímpar das colunas
sociais cariocas. Suas festas de réveillon, no edifício
Chopin, endereço nobre com vista para a Praia de
Copacabana, estão entre as mais badaladas da cidade,
e suas incursões noturnas alimentam o folclore carioca
de histórias picantes.
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"Para ter cocaína
no Rio bastava um
telefonema, era uma espécie
de pó delivery.
Esse
sistema existe há muito tempo, todo mundo conhece"
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Oscar Cabral
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Narcisa, a escritora:
nova colaboração à crônica
do Rio de Janeiro |
Na crônica do pó, há inevitavelmente
referências a seu uso escancarado em reuniões
de ricos e colunáveis. É um exagero, pelo
menos nas ocasiões em que há grupos com muita
gente na sala. "Sempre ouvi falar na tal bandeja de pó
que circularia pelos salões, mas nunca vi isso em
festa alguma. Ninguém é louco o suficiente
para passar com isso na frente de quem não está
na mesma onda", observa a colunista social Danuza Leão,
experimentada nas noites da alta-roda. Há os que
já assistiram ao espetáculo. "Quem freqüenta
já viu, sim", afirma o decorador Éder Meneghine.
Cenas desse tipo podem acontecer, mas apenas em festas organizadas
com essa finalidade. Nesses casos, são eventos inconfundíveis.
"Festa com pó é aquela que tem comida sobrando
e muita gente no banheiro", define a socialite Georgiana
Guinle, hoje evangélica e longe das carreiras de
cocaína. "Já fui a muitas festas e já
cheirei, mas nunca meti o pé na jaca nem comprei
por telefone."
A existência do "pó delivery" de que fala
Narcisa é conveniente para as pessoas viciadas, que
dessa forma ficam livres dos encontros clandestinos com
os vendedores originais da droga, em lugares suspeitos.
"Havia um senhor que fornecia cocaína para mim. Ele
era professor de um colégio elegante na Zona Sul
do Rio. Tinha aparência distintíssima. Eu telefonava
e em quarenta minutos ele chegava", diz um ex-usuário
com quem VEJA conversou na semana passada. Se fossem julgados
só pelo visual, os fornecedores seriam pessoas de
quem se compraria tranqüilamente um carro usado. Trabalham
com clientelas selecionadas, basicamente nos bairros da
Zona Sul da cidade. Há casos famosos. Um deles, que
vende apenas maconha, é conhecido na Zona Sul do
Rio porque atende exclusivamente mulheres. Se do outro lado
da linha estiver um homem, ele simplesmente desliga o telefone.
A entrega em domicílio se disseminou depois que
a disputa por pontos de drogas transformou as favelas em
campos de guerra entre grupos rivais. A droga passou a ser
entregue não apenas nas festas, mas dentro das empresas.
Esse mercado do asfalto cresceu desse modo também
porque é uma forma de evitar a movimentação
exagerada de pessoas na própria casa do traficante.
O esquema é descentralizado e praticado por gente
da classe média, que se abastece com traficantes
de médio porte. Como não têm capacidade
de financiar a compra de drogas, trabalham por consignação.
Pagam somente o que conseguem vender e devolvem o restante.
Muitos deles possuem emprego. Em geral, a família
não sabe da atividade. Esse perfil é que favorece
o convívio com pessoas da alta sociedade, que se
sentem mais tranqüilas por não ter contato com
bandidos e por despistar a polícia. Segundo Vera
Loyola, a compra de cocaína com entrega em casa e
a distribuição livre da droga em festas são
coisa restrita à parte desregrada da alta sociedade
tradicional. "É por isso que eu sou mesmo é
emergente", afirma a rainha da Barra da Tijuca.
João
Santos
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"Sempre ouvi falar
na tal bandeja de pó,
mas nunca vi. Ninguém
oferece a quem não está na mesma onda."
Danuza Leão,
colunista social
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Roberto Valverde
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"Festa que tem cocaína
é muito fácil de reconhecer.
Sobra comida e falta espaço
nos banheiros."
Georgiana Guinle,
socialite
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Oscar Cabral
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"Essa história
de coca em festa é coisa
da sociedade tradicional.
Emergente não se droga."
Vera Loyola,
emergente
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Com reportagem de
Marcelo Camacho
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