Edição 1 649 -17/5/2000

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Chegou o pó da madame

Socialite detalha em livro como funcionam
os serviços de entrega de drogas em domicílio

Ronaldo França e Silvia Rogar

 

A sociedade carioca foi sacudida, na semana passada, por mais um dos terremotos verbais que a socialite Narcisa Tamborindeguy é capaz de provocar como ninguém. Narcisa revelou com detalhes em seu recém-lançado livro, Ai, que Loucura!, que existe no Rio de Janeiro um serviço de entrega de drogas em domicílio que funciona 24 horas. Disse também que os entregadores muitas vezes são mulheres grávidas e velhinhas. Elas transportariam cocaína com a tranqüilidade de quem vai levar um pedaço de bolo para a vizinha no final da tarde. Em praias sofisticadas como Angra dos Reis e Búzios, a cocaína chega nos helicópteros dos ricos, que mandam o piloto ao Rio buscar a encomenda. Para quem olha de longe, pode parecer mais uma das estapafúrdias declarações da quase sempre inacreditável Narcisa. Não é. O "pó delivery", como ela batizou o serviço, acontece livremente nas ruas do Rio, abastecendo os salões da alta sociedade e as festas da classe média. Subir os morros para comprar cocaína dos traficantes se transformou em hábito quase exclusivo dos viciados menos favorecidos. A cidade, ensina Narcisa, curvou-se à evidência de que, mesmo quando o assunto é drogas, a Zona Sul gosta mesmo é de conforto.

O "pó delivery" não tem endereço fixo, CGC e central de atendimento ao consumidor. Seria ingênuo achar que qualquer um tem acesso a serviços de entrega como esse. Não é assim. Para comprar por esse sistema é preciso estabelecer um relacionamento mínimo com quem vende. Ou seja, está acessível somente para os iniciados. Os fornecedores da droga são, geralmente, pessoas que começam como usuários e vislumbram no comércio a perspectiva de algum ganho. Cada um deles tem um seleto grupo de clientes, cujo prestígio varia de acordo com a freqüência e a quantidade que compram. Era justamente nesse quesito, segundo a própria Narcisa, que ela se destacava até três anos atrás, quando um tratamento especializado a livrou do vício. Integrante de uma família tradicional, Narcisa é uma personagem ímpar das colunas sociais cariocas. Suas festas de réveillon, no edifício Chopin, endereço nobre com vista para a Praia de Copacabana, estão entre as mais badaladas da cidade, e suas incursões noturnas alimentam o folclore carioca de histórias picantes.

 

"Para ter cocaína no Rio bastava um telefonema, era uma espécie de pó delivery.
Esse sistema existe há muito tempo, todo mundo conhece"

Oscar Cabral
  Narcisa, a escritora: nova colaboração à crônica do Rio de Janeiro

 

Na crônica do pó, há inevitavelmente referências a seu uso escancarado em reuniões de ricos e colunáveis. É um exagero, pelo menos nas ocasiões em que há grupos com muita gente na sala. "Sempre ouvi falar na tal bandeja de pó que circularia pelos salões, mas nunca vi isso em festa alguma. Ninguém é louco o suficiente para passar com isso na frente de quem não está na mesma onda", observa a colunista social Danuza Leão, experimentada nas noites da alta-roda. Há os que já assistiram ao espetáculo. "Quem freqüenta já viu, sim", afirma o decorador Éder Meneghine. Cenas desse tipo podem acontecer, mas apenas em festas organizadas com essa finalidade. Nesses casos, são eventos inconfundíveis. "Festa com pó é aquela que tem comida sobrando e muita gente no banheiro", define a socialite Georgiana Guinle, hoje evangélica e longe das carreiras de cocaína. "Já fui a muitas festas e já cheirei, mas nunca meti o pé na jaca nem comprei por telefone."

A existência do "pó delivery" de que fala Narcisa é conveniente para as pessoas viciadas, que dessa forma ficam livres dos encontros clandestinos com os vendedores originais da droga, em lugares suspeitos. "Havia um senhor que fornecia cocaína para mim. Ele era professor de um colégio elegante na Zona Sul do Rio. Tinha aparência distintíssima. Eu telefonava e em quarenta minutos ele chegava", diz um ex-usuário com quem VEJA conversou na semana passada. Se fossem julgados só pelo visual, os fornecedores seriam pessoas de quem se compraria tranqüilamente um carro usado. Trabalham com clientelas selecionadas, basicamente nos bairros da Zona Sul da cidade. Há casos famosos. Um deles, que vende apenas maconha, é conhecido na Zona Sul do Rio porque atende exclusivamente mulheres. Se do outro lado da linha estiver um homem, ele simplesmente desliga o telefone.

A entrega em domicílio se disseminou depois que a disputa por pontos de drogas transformou as favelas em campos de guerra entre grupos rivais. A droga passou a ser entregue não apenas nas festas, mas dentro das empresas. Esse mercado do asfalto cresceu desse modo também porque é uma forma de evitar a movimentação exagerada de pessoas na própria casa do traficante. O esquema é descentralizado e praticado por gente da classe média, que se abastece com traficantes de médio porte. Como não têm capacidade de financiar a compra de drogas, trabalham por consignação. Pagam somente o que conseguem vender e devolvem o restante. Muitos deles possuem emprego. Em geral, a família não sabe da atividade. Esse perfil é que favorece o convívio com pessoas da alta sociedade, que se sentem mais tranqüilas por não ter contato com bandidos e por despistar a polícia. Segundo Vera Loyola, a compra de cocaína com entrega em casa e a distribuição livre da droga em festas são coisa restrita à parte desregrada da alta sociedade tradicional. "É por isso que eu sou mesmo é emergente", afirma a rainha da Barra da Tijuca.

 
João Santos

"Sempre ouvi falar na tal bandeja de pó, mas nunca vi. Ninguém oferece a quem não está na mesma onda."

Danuza Leão, colunista social

Roberto Valverde

"Festa que tem cocaína é muito fácil de reconhecer. Sobra comida e falta espaço nos banheiros."

Georgiana Guinle, socialite

Oscar Cabral

"Essa história de coca em festa é coisa da sociedade tradicional. Emergente não se droga."

Vera Loyola, emergente

 

Com reportagem de Marcelo Camacho

 

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  Ai, que loucura!