Edição 1 649 -17/5/2000

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Slide-show de cenas do filme

Recriando a criatura

Animação por computadores, análise de
laboratório e novas descobertas mostram
detalhes surpreendentes dos dinossauros

Walt Disney Pictures

A FICÇÃO E A REALIDADE
Os produtores do filme da Disney (acima) encheram 70 000 CDs-ROM para desenhar as cenas hiper-realistas da saga de Aladar

Mesmo extintos há 65 milhões de anos, os dinossauros continuam evoluindo. A cada ano ficam mais espertos, coloridos, revelam comportamentos insuspeitos e até sua forma ganha novos contornos. Na versão comemorativa da virada do milênio, esses monstruosos répteis estão mais sedutores e surpreendentes do que nunca justamente no habitat onde estão conseguindo sobreviver para sempre, o cinema. No novo filme produzido pelos estúdios Walt Disney e em pelo menos duas grandes exposições nos Estados Unidos, os gigantescos lagartos pré-históricos estão de volta. Nesta semana estréia nos cinemas americanos o épico Dinossauro, um arroubo cinematográfico de 200 milhões de dólares, três vezes mais caro do que Parque dos Dinossauros, de Steven Spielberg, e recheado de truques e detalhes jamais vistos. Em Nova York será exibida pela primeira vez uma versão coberta de penas de um exemplar do velociraptor, um bicho ardiloso e traiçoeiro que no filme de Spielberg queria devorar as criancinhas. À beira do Lago Michigan, em Chicago, será a vez de ser exibida ao público Sue, a mais perfeita ossada do temível tiranossauro rex já encontrada. Ela ficou dez anos guardada em laboratórios e só agora será possível examiná-la no Field Museum. Sue tem vestígios de articulação e musculatura fossilizados mas praticamente intactos.



AMNH/D. Finnin
Em Nova York, fósseis de dinossauros em luta (acima) são exibidos ao lado de ninhos onde pais morreram protegendo seus ovos


Principal estrela da temporada de verão e com estréia prevista para junho no Brasil, o filme Dinossauro é uma revolução na forma de usar a tecnologia para reconstruir o passado. Totalmente gerado nos computadores do estúdio da Disney na Califórnia, tem historinha edificante, bichos falantes e simpáticos. Mas nunca uma fita de animação foi tão longe na combinação de recursos digitais e pesquisas paleontológicas para contar uma fábula infantil. "O filme só funcionaria se o público visse os bichos como personagens reais e não como produtos de animação", resume um dos diretores do filme, Ralph Zontag. Para chegar a esse resultado, 900 pessoas empregaram 550 computadores e produziram um volume de dados suficiente para entupir 70000 CDs-ROM em seis anos. Enquanto em seu filme Spielberg misturou computação gráfica com bonecos miniaturizados e em tamanho natural, os técnicos da Disney só abriram mão da digitalização para produzir os cenários. A espetacular seqüência de abertura, em que um oviraptor rouba do ninho um ovo onde está o herói da história – um iguanodonte chamado Aladar –, é uma demonstração do que se desenrolará na tela. Começa aí uma viagem de tirar o fôlego em que o ovo passa pelas garras de um pteranodonte e voa sobre cenários filmados nos quatro cantos do planeta e enxertados com trinta espécies de dinossauro.

 

Walt Disney Pictures
Walt Disney Pictures
Walt Disney Pictures/Reuters
Walt Disney Pictures/Reuters
Pesquisas paleontológicas e estudos realizados com elefantes ajudaram a equipe da Disney a reconstruir o passado dos dinossauros. A anatomia de cada um dos bichos foi estudada em detalhes antes de ser digitalizada

 

AMNH/D. Finnin
O bisavô dos pássaros: cientistas descobriram que os velociraptores eram cobertos de penas


Aladar é um herbívoro de 5 metros de altura adotado por uma família de lêmures, primatas pré-históricos cujos descendentes vivem hoje em ilhas remotas. Para conseguir desenhá-lo nos computadores, o diretor Eric Leighton passou semanas enfiado em um museu estudando o esqueleto de um tenontossauro de 100 milhões de anos, bastante parecido com o iguanodonte. Com a ajuda do fóssil e de paleontologistas, pôde reconstituir o tipo de movimento que a criatura era capaz de fazer. Descobriu ainda que um dos três dedos da pata do réptil podia funcionar como uma garra, tornando-o capaz de segurar ramos de árvores. Para fazer o iguanodonte se mexer com perfeição, um grupo de designers foi enviado a reservas de elefantes para analisar seus movimentos e usá-los como modelo para os répteis do passado. No caso de outro dinossauro, um braquiossauro, os cálculos baseados no tamanho do animal, seu possível peso e o estudo dos elefantes produziram uma forma de andar bastante peculiar: o bicho gira e balança as patas enquanto se move. O monstruoso carnotauro, um carnívoro parecido com o tiranossauro, teve sua pele desenhada tendo como padrão uma raríssima ossada envolvida com tecido fossilizado. Nunca houve antes uma reconstrução tão criteriosa desses bichos extintos.


Walt Disney Pictures


Como não podia deixar de ser, a Disney tomou liberdades ficcionais que já provocaram queixas dos dinomaníacos e cientistas. Os animadores enfiaram uma musculatura refinada no focinho dos dinossauros para recriar lábios salientes que nunca existiram. Tudo foi feito para dar expressão aos bichos e permitir que eles falassem. O ressurgimento dos dinossauros nos museus obviamente não faz concessões a enredos. Mas não é menos surpreendente. Na exposição Fighting Dinosaurs, no Museu de História Natural, em Nova York, topa-se com um estranhíssimo bicho com bico repleto de dentes e penas coloridas. É um tipo de velociraptor, aquele mesmo dinossauro inteligente, de garras e dentes afiados, que perseguia os netos do criador do Parque dos Dinossauros. O modelo foi construído com base nas pesquisas paleontológicas feitas com fósseis do Deserto de Gobi, na Mongólia, e é um passo decisivo em direção à teoria de que alguns dinossauros evoluíram na forma de pássaros. Os pesquisadores acharam nos fósseis uma substância conhecida como queratina, comum nas penas das aves, o que os leva a crer que o réptil tinha penas. "O animal real é bem diferente do velociraptor que virou estrela de cinema", diz o chefe do departamento de paleontologia de vertebrados do museu, Mark Norell. E não apenas no aspecto externo. Ainda dentro da categoria dos raptores, a exposição exibe um ninho fossilizado, cheio de ovos e com um oviraptor adulto que parece tentar proteger suas futuras crias. O achado embaralha a teoria de que os dinossauros eram bichos individualistas que punham ovos e os deixavam ao léu, largando os filhotes à própria sorte. É um sinal de que os produtores da Disney não foram tão delirantes assim ao mostrar que seus répteis gigantes podiam ter emoções ternas.

 
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Da internet
  Walt Disney Pictures presents Dinosaur