Edição 1 649 -17/5/2000

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O sucesso do
padeiro francês

Olivier Anquier, mardio da atriz
Débora Bloch, já tem 32 lojas

Rachel Campello

Antonio Milena

Anquier: o modelo e padeiro que usa sapato antigo e gosta de pão velho


As garotinhas não vacilariam em dizer que o rapaz da foto ao lado é um gato. As mais maduras acertariam melhor a definição: ele é um pão. Melhor: uma padaria inteira. Olivier Anquier, acredite quem quiser, tem 40 anos com essa carinha de garotão, é francês, não usa perfume e não fuma. Ele tinha tudo para fazer uma carreira de vida toda como modelo. Largou as passarelas por uma mesa de tábua enfarinhada. Chegou ao Brasil em 1979, aos 20 anos de idade. Desfilou e fotografou um pouco, conheceu a atriz Débora Bloch, casou e sua vida mudou completamente. Por mais de três anos, ficou com a mão na massa dezoito horas por dia. Chegava a dormir sobre sacos de farinha. Essa fase passou. Hoje, Olivier Anquier, o padeiro mais famoso de São Paulo, não usa avental nem tem farinha sob as unhas. Mas fatura 400.000 reais por mês em 32 butiques de pães instaladas dentro de supermercados da rede Pão de Açúcar. Ainda neste mês lançará o Café Olivier, um pó especial em três versões – fortíssimo, para degustação, clássico, para coador, e orgânico, para os naturalistas. Está desenvolvendo, também, geléias, achocolatados e manteigas. E em julho porá à venda um conjunto de oito facas com estojo e uma bandejinha especial apelidada de "migalheira", para não sujar a toalha da mesa com farelos de pão. Tudo com a marca Olivier Anquier.

O garoto é uma surpresa. Tem uma fábrica que funciona em três turnos, administra a produção e as contas de perto e trata seus funcionários, aos quais ensina todos os segredos da cozinha, como colaboradores. Formado em letras e filosofia, ele tem se mostrado esperto em matéria de números. E de marketing. Sim, porque seu pão é bom, mas é apenas pão. Não tem nada de tão sensacionalmente diferente de pães feitos por boas padarias de portugueses ou italianos. "Ser francês, ter meu físico, ser casado com a Débora Bloch e gostar de trabalhar são as chaves do meu sucesso", diz com surpreendente sinceridade. "Mas, antes de mim, ser padeiro era pejorativo. Agora virou uma profissão charmosa."

Olivier foi um menino meio rebelde. Saiu de casa aos 16 anos. Vendeu frutas na rua, lavou pratos, foi operador numa sala de cinema alternativo e embarcou para o Brasil cheio de fantasias sobre o paraíso tropical. Mimado, filho de pai médico e mãe dona-de-casa, ele podia ter embarcado na pior viagem de sua vida quando tomou o avião para o Rio de Janeiro. "Não vi nada de cartão-postal quando desci na cidade", conta. Para encurtar a história, é o seguinte: Olivier caiu nas graças de um olheiro de modelos, fez sucesso nas passarelas e nos catálogos de moda, ganhou um dinheirão e torrou quase tudo na farra. Abriu um restaurante de frutos do mar na Praia de Jericoacoara, a 325 quilômetros de Fortaleza, no Ceará, e passou uma temporada de papo para o ar. Naquele tempo, Jericoacoara não tinha nem luz elétrica. Era um ponto turístico para lá de alternativo. Olivier começou a perceber que ia embotar se ficasse parado por ali. Mudou-se de mala, cuia e panela para Florianópolis, onde ficou dois anos.

Cansado da vida de dono de restaurante, o rapaz, que, como já se viu, é inquieto, decidiu ser padeiro. Antes, passou uma temporada de seis meses tomando aulas com sua mãe, hoje uma padeira de sucesso em Sydney, na Austrália. Sim, porque Olivier descobriu os prazeres do pão na cozinha de sua casa em Montfermeil, nas vizinhanças de Paris. Quando ainda era criança, seu pai fazia o almoço do domingo. Ele picava o alho e a cebola. Sua mãe e um tio faziam o pão. De volta ao Brasil, depois do curso rápido com dona Myriam Cordellier, Olivier mudou-se para o Rio e passou a abastecer os moradores do prédio em que morava com fornadas de pães. Em 1995 instalou-se em São Paulo e abriu sua primeira loja numa casinha minúscula no bairro de Higienópolis, um dos mais tradicionais da cidade. E aí deslanchou de vez. "Agora, depois de quase vinte anos de batalha, estou voltando a ter o nível de vida que tinha na casa dos meus pais", diz.

Hoje Olivier tem dois filhos, mora num apartamento enorme em Higienópolis, toma seu vinho todos os dias, tem um carrão na garagem e morre de medo de seqüestro. Guarda alguma coisa do passado. É pão-duro. Ainda usa um sapato de adolescente, com chapinha na sola para economizar e preservar o calçado. E uma caneta antiga guardada num estojo de um material que um dia deve ter sido couro. Mais: adora pão. Dormido.

 

Pãozinho gelado a toda hora

Ricardo Benichio

Zuzzi: vendas de 20 milhões de reais num ano


É voz corrente no Brasil que se há um negócio que dá dinheiro esse negócio é padaria. Há entre 45 000 e 50 000 espalhadas pelo país. São balcões tradicionais que, vendendo miúdo, pãozinho, leite, frios e outros produtos, fazem uma fortuna. Faturam 16 bilhões de reais por ano – quase o mesmo que vendem, anualmente, todas as lojas dos supermercados Carrefour e Pão de Açúcar somadas. Pois estão acontecendo novidades nesse setor. Há um movimento que tende a reduzir o número de padeiros e substituí-los por superpadarias, fornecedoras de pães congelados que, levados ao forno, saem crocantes e com o miolo macio como aqueles das panificadoras mais antigas. O sistema já existe em outros países. E é especialmente prático para supermercados, que podem vender pães sem ter de manter uma estrutura de produção e de cálculo de custos no fundo da loja. A multinacional Unilever, que vende pães congelados na Holanda, entre outros países, já esteve estudando a possibilidade de entrar nesse ramo no Brasil. A americana Pillsbury, que comprou a fabricante de pães de queijo Forno de Minas no ano passado, por 80 milhões de reais, também anda sondando o mercado.

Já há, no Brasil, um pioneiro. É Alberto Zuzzi, um italiano naturalizado brasileiro, de 62 anos de idade, que há dezoito meses investiu 10 milhões de reais na construção de uma fábrica de pães congelados em Tatuí, no interior paulista, a Big Foods. No primeiro ano de operação sua empresa faturou 20 milhões de reais com a venda diária de 1,1 milhão de pães franceses, croissants, baguetes e massas folhadas. Por seus prognósticos, as vendas crescerão 25% neste ano. "Acabou-se o tempo em que supermercados e padarias viviam na dependência do humor de seu próprio padeiro", diz Zuzzi. "A maioria dos estabelecimentos ainda encontra dificuldades em computar os volumes de ingredientes e as perdas, sem saber se pão, afinal, dá lucro ou prejuízo. Isso não tem sentido." A Big Foods vende pães congelados às redes Carrefour, Lojas Americanas e Sam's Club.

A superpadaria de Zuzzi tende a crescer mesmo. Segundo pesquisa feita pela Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria, o consumo per capita do brasileiro é de 27 quilos de pão por ano. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que, numa dieta saudável, se deve comer pelo menos o dobro. Com a produção de pães congelados, o pãozinho, que já tem um preço bastante baixo – de 10 a 15 centavos a unidade – pode baratear ainda mais. Mas há um consenso, entre os que entendem de comércio no Brasil, de que a velha padaria não desaparecerá. "O Brasil é o único país do mundo onde a padaria, além de vender pão, vende sorvetes, refrigerantes, é lanchonete, restaurante e mercearia. É, na verdade, uma loja de conveniência", diz Tadeu Masano, consultor especialista em geografia de mercado, de São Paulo. "Os supermercados tendem a terceirizar os serviços básicos, mas no país há espaço para tudo", diz Sônia Bittar, sócia da Gouvêa de Souza & MD, especializada em varejo. Zuzzi, que já foi sondado por estrangeiros interessados em comprar sua fábrica, ainda não cedeu. "Sei o valor do que tenho em mãos. Investimento em pão não tem risco. É lucro certo", afirma.

Edilson Coelho

 

 
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