Entre o véu e as grades
Carandiru, o maior presídio do país,
prepara-se para casar 150 detentos
Eduardo Nunomura
Claudio Rossi
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| Sueli Messes da Silva: ansiosa para
casar com seu amor da adolescência |
Falta menos de um mês para Sueli Messes da Silva
realizar um sonho antigo. Em 14 de junho, uma quarta-feira,
trocará alianças com Romualdo Barbosa da Silva,
um namorado de adolescência. Ambos têm 28 anos
e vão casar de papel passado, apesar de Romualdo,
condenado por assalto, ainda ter cinco anos de pena por
cumprir. Sueli, que há duas semanas comprou seu vestido
com véu e grinalda de segunda mão por 200
reais, em três vezes, é uma das 150 noivas
do megacasamento marcado para realizar-se no salão
nobre do Pavilhão 6 no famigerado complexo do Carandiru,
o maior presídio da América Latina. Depois
da festa, prevista para durar cinco horas, as noivas voltarão
para casa e os noivos para a cela. A noite de núpcias
só ocorrerá no final da semana e com
tempo marcado. Dependendo do número de presos com
direito a visita íntima em cada xadrez, pode variar
de apenas quarenta minutos a sete horas. Para muitas dessas
noivas, vida de casada de verdade só daqui a cinco,
dez, quinze anos.
Foto Claudio Rossi
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| Ronny e Glauce, com o filho Luan:
os dois se conheceram nas visitas dela a um irmão
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O mundo por trás dos muros do Carandiru é
daqueles que a maioria das pessoas só ouve falar
quando há rebeliões ou fugas. No mais famoso
motim, em outubro de 1992, a Polícia Militar massacrou
111 detentos no Pavilhão 9. É um lugar de
horrores. A capacidade é para 3.500
presos, mas vivem amontoados 7.500.
Oito em dez detentos estão contaminados pelo bacilo
da tuberculose. Um em cada seis é portador do vírus
da Aids. O tráfico de drogas corre solto, quadrilhas
disputam o controle dos corredores e presos ameaçados
de morte vivem isolados em celas insalubres. O que faz com
que uma mulher decida atrelar formalmente seu futuro ao
de um condenado? Os noivos não somente são
pessoas de comprovados maus antecedentes como raros dispõem
de qualquer fonte de renda. A maioria das noivas conheceu
o futuro marido fora da cadeia e muitas estão apenas
aproveitando a oportunidade para oficializar uma relação
de longa data. "Quando tomei oito tiros e fui preso pela
segunda vez, pedi para ela me abandonar", conta Romualdo.
Sueli manteve-se firme e fiel. "Jamais o largaria", declara
a noiva. "Ele é o homem da minha vida."
Claudio Rossi
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| Cartório na Detenção:
as pretendentes cuidam da papelada |
Aos 24 anos, Claudinéia Silva Zoranti de Souza está
grávida de seis meses. O pai é Devair Felipe
dos Santos, 34 anos, o "Careca" do Pavilhão 8, e
a concepção ocorreu durante uma visita íntima.
O nome do futuro rebento já foi escolhido: dependendo
do sexo, será Victor ou Vitória. Claudinéia
e Devair estão juntos há oito anos. Só
se separaram um ano atrás, quando ele foi preso por
assalto a mão armada. Com experiência anterior
como escriturário, ele se encarrega de orientar os
colegas sobre a papelada necessária para o casório.
"Apesar de nossos erros, o casamento é uma forma
de mostrar que podemos amar como todos os outros", filosofa
o noivo. A liberdade só virá dentro de dois
anos. O casamento coletivo é uma iniciativa da missionária
Antonina Di Croce Andriotto, da Igreja Pentecostal Brasil
para Cristo, que há catorze anos visita diariamente
a Casa de Detenção. Amiga de noivos e noivas,
ela será a madrinha no civil de todos eles. A adesão
em massa ao casamento reflete o intenso trabalho das igrejas
evangélicas dentro das cadeias. Na maioria, os presos
no Carandiru são católicos, mas os evangélicos
conquistam almas em ritmo acelerado. Por trás dos
imensos portões de ferro, circulam todos os dias
cerca de 200 voluntários de dezenove credos.
Ricardo Benichio
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Claudinéia,
grávida de seis meses, em dia de visita: o
noivo só vai sair da cadeia em 2002
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A conversão deixa o fiel numa saia-justa, pois os
evangélicos são severos quanto ao sexo fora
do casamento. O tapeceiro Silas de Oliveira, 38 anos, condenado
a setenta anos por estelionato e há cinco no Carandiru,
converteu-se à Igreja Universal do Reino de Deus
em 1997. Um ano mais tarde se tornou o pastor Silas e agora
se prepara para casar com uma mulher que conheceu por um
anúncio de uma revista encartada num jornal. O texto
dizia: "Nelita, de 37 anos, gostaria de se corresponder
com homens de mais de 30 anos, solteiros, viúvos
ou divorciados, com filhos ou sem. É capricorniana".
O que chamou a atenção foi o endereço,
"Cartas para a Rua Coração de Maçã",
na periferia de São Paulo. Ele escreveu e duas cartas
mais tarde a empregada doméstica mineira Nelita de
Caldas Leite apareceu para uma visita. Ela declara-se apaixonadíssima
e até alimenta bons sentimentos em relação
ao soturno complexo penitenciário. "A sinceridade
do Silas não se encontra em homem nenhum aqui fora",
emociona-se. "O Carandiru me traz uma coisa especial. Foi
lá que conheci o homem da minha vida e é lá
que, nos fins de semana, sou a mulher mais feliz do mundo."
Como já cumpriu parte da pena e conseguiu a redução
de outro tanto com recursos à Justiça, o pastor
espera ganhar o direito de passar o dia fora da cadeia ainda
neste ano e, enfim, viver uma vida de marido e mulher com
Nelita. "Ela é tudo para mim", derrete-se. "Só
penso em ficar em prisão perpétua nos braços
dela."
"Coisa maravilhosa" Glauce Rosália
Veloso só encontrou "o verdadeiro amor", como diz,
atrás das grades. Em 1997, ela tinha apenas 17 anos
quando conheceu Ronny Clay Chaves, na época com 21.
"Vinha visitar meu irmão e da primeira vez que vi
Ronny foi como um encanto", conta. Fiel à ética
da cadeia, antes de iniciar o namoro Ronny pediu permissão
ao irmão dela. A família torceu o nariz ao
relacionamento com o presidiário, mas logo se viu
que o caso era sério. O futuro do casal é
incerto, pois o marido só cumpriu cinco dos 22 anos
de uma pena por cumplicidade num latrocínio. O compromisso
entre os dois, contudo, foi selado com o nascimento de um
filho, Luan, hoje com 1 ano e 7 meses. "Desde o início
do namoro, o Ronny queria casar, mas eu achava cedo", diz
Glauce. "Então ele me pediu um filho. Foi uma coisa
maravilhosa."
Ricardo Benichio
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| Noivos no pátio
do Carandiru: mais de 1 000 convidados |
Com exceção das noivas, de alguns padrinhos
e madrinhas, da missionária Antonina e do pastor
Charles Ribeiro de Moraes, o religioso do Carandiru que
vai celebrar a cerimônia, todos os envolvidos nos
preparativos do casamento são detentos. O bolo para
os 1.500 convidados foi encomendado
a Rubens Lima da Silva, 44 anos e há dez na cadeia
por assalto. Silva é também um dos noivos.
Os 6.000 salgadinhos e 2.500
sanduíches, acompanhados de refrigerantes, serão
servidos por quinze presos, vestidos de garçom. Falta
ainda encontrar quem doe ou empreste os blazers azul-marinho
dos noivos. A calça será bege, a cor do uniforme
dos detentos. Diferentemente do que em geral ocorre num
casamento, serão as noivas a esperar por eles no
altar. Os noivos entrarão todos juntos no salão,
ao som da música Meu Presente. Composta por
Elienai Messias, da banda gospel Sal da Terra, tem um refrão
que diz: "O amor nunca se acabará na vida de quem
sabe amar".