Edição 1 649 -17/5/2000

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Doping high tech

Novos equipamentos que melhoram desempenho
reproduzem os efeitos dos aditivos proibidos

Sérgio Ruiz Luz

Reuters

Dois equipamentos criados para vitaminar a performance dos atletas nas Olimpíadas de Sydney, em setembro, estão provocando a seguinte discussão: até que ponto a tecnologia representa uma nova forma de doping? Uma das inovações questionadas é o novo maiô de natação fabricado pela Speedo. Batizada de fast skin (pele rápida), a roupa adere ao corpo do atleta e diminui o atrito na água. O ganho hidrodinâmico é de 3% em relação à pele humana. É a diferença entre receber uma medalha de ouro e ficar fora da final. A Federação Internacional de Natação liberou o modelito. Mas equipes de respeito, como a da Austrália, temem que o traje seja declarado ilegal. O outro aparelho que está gerando controvérsia é a tenda que simula as condições de ar rarefeito encontradas em altitudes elevadas. Conhecida como câmara hipóxica, a engenhoca faz com que esportistas produzam mais glóbulos vermelhos. Isso aumenta a captação de oxigênio e melhora seu transporte pelo sangue. O resultado é um valioso fôlego extra para as provas de longa duração. "Não vejo como podemos impedir isso", afirma John Coates, presidente do Comitê Olímpico Australiano. "Mas é um assunto para pensar, não?"

O uso da câmara hipóxica tem deixado as autoridades esportivas de cabelo em pé porque produz os mesmos efeitos da eritropoetina. Também conhecida pela sigla EPO, a substância está na lista de drogas proibidas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). A entidade ainda não encontrou um mecanismo para detectar o uso desse aditivo. Para piorar o constrangimento geral, surgiu agora a tal tenda de oxigênio, que mira nos mesmos objetivos da droga proibida. No Brasil, a novidade já faz parte da preparação do triatleta Leandro Macedo, 32 anos. Macedo montou uma barraca em sua casa, em Brasília, e vai dormir dentro dela até as vésperas dos Jogos. A expectativa é de que consiga melhorar em até 2% sua performance com a ajuda da máquina. Parece pouco, mas equivale a 2 minutos de vantagem numa prova que pode ser decidida pela diferença de segundos. "Seria ingênuo descartar a tenda quando os outros competidores a estão utilizando", afirma o professor de educação física Roberto Landwehr, responsável pelo treinamento do triatleta.

 
Ana Araujo
Ana Ara
O triatleta Leandro: "É como treinar nas montanhas"

Os estudos dos efeitos da altitude sobre a performance física começaram a ser realizados depois dos Jogos Olímpicos de 1968. A competição realizada na Cidade do México, a 2.400 metros de altitude, registrou nas corridas de média e longa distância o triunfo de atletas de países montanhosos, como Tunísia, Etiópia e Quênia, enquanto australianos e americanos, tidos como favoritos, mal conseguiam alcançar a linha de chegada. Pesquisas confirmaram que o treinamento em altitude elevada produzia um ganho de desempenho em provas de resistência, e alguns países, como os Estados Unidos, começaram a levar seus atletas para se condicionar em cidades montanhosas. "A única coisa que a tenda de oxigênio faz é reproduzir essas condições naturais", acredita Leandro Macedo.

A tenda de oxigênio e o maiô de natação da Speedo entraram no fogo cruzado da polêmica exatamente porque não são naturais. Como o doping químico, alteram de forma artificial o desempenho dos atletas. Os especialistas da Speedo desenvolveram o fast skin com base na observação da forma de nadar dos tubarões. A textura da pele do peixe minimiza o atrito com a água. A roupa de malha inteiriça, com jeito de uniforme do Batman, reproduz esse efeito. "O maiô é apenas um instrumento para facilitar o desenvolvimento das habilidades dos atletas", afirma Alberto Klar, técnico do Clube Pinheiros, em São Paulo. Por serem patrocinados por uma marca esportiva diferente, Gustavo Borges e outras estrelas nacionais das piscinas ainda não sabem se vão poder cair nas águas de Sydney com a roupa high tech.

As invenções de Sydney

Divulgação
A camisa da Nike: tecido de garrafa plástica reciclada

Os fabricantes de produtos esportivos vão lançar nas Olimpíadas de Sydney vários equipamentos mirabolantes. Uma das novidades é a camiseta para corredores confeccionada com garrafas plásticas de refrigerante recicladas. O produto da Nike apresenta vários poros para facilitar a transpiração dos maratonistas. Será o uniforme oficial da delegação americana dessa prova. A empresa estuda lançá-la comercialmente em julho do próximo ano. Outras modalidades também mostrarão novidades. A Adidas desenvolveu uma bola de futebol com seis camadas de espuma sintética. No momento do chute, ela fica ligeiramente deformada, para em seguida voltar ao normal. Esse efeito "sanfona" permite que seja 5% mais rápida que as antigas. A sofisticação chega a tal ponto que os principais nomes do atletismo competem hoje com sapatilhas feitas sob medida, levando em consideração o formato dos pés e o peso e a altura de cada atleta. A Olympikus, fornecedora oficial do Comitê Olímpico Brasileiro, preparou para a delegação os primeiros modelos nacionais feitos com essa concepção.

 

 
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