Edição 1 649 -17/5/2000

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Dinheiro n'água

ONGs gastam milhões de dólares na
compra de áreas para preservação

Flávia Varella


Reuters
Atol de Palmyra, nos Estados Unidos: mais de 30 milhões de dólares

The Nature Conservancy, uma organização não governamental americana com 1 bilhão de dólares em caixa para proteger áreas naturais, está embarcando num negócio ambicioso: a compra do Atol Palmyra, o último refúgio marinho intato na região tropical dos Estados Unidos. Um conjunto de ilhotas de coral localizado a 1.700 quilômetros do Havaí, o atol constitui uma paisagem deslumbrante e selvagem, que abriga golfinhos, tartarugas, tubarões e serve de pouso para aves migratórias. Ali vive o maior invertebrado terrestre, o raro caranguejo-coco, assim chamado por ser capaz de abrir um coco com as patas. A nova dona de Palmyra agora só permitirá a entrada de grupos com trinta a quarenta visitantes por semana, a 4.000 dólares por cabeça. Impressiona que mais de 30 milhões de dólares (o valor exato pago aos proprietários, uma família de empreiteiros de Honolulu, é sigiloso) estejam sendo gastos em terras das quais se espera tão pequeno retorno financeiro. Comprar para deixar o mato crescer é, contudo, uma tendência que ganha impulso entre os preservacionistas.

Ed Viggiani
Pantanal mato-grossense: fazendas transformadas em reservas particulares


A ONG que está comprando Palmyra usa esse tipo de recurso desde sua fundação, em 1951. Graças às contribuições de mais de 1 milhão de sócios, empresas e fundações, já é dona de mais de 24 milhões de hectares, num total de 1.340 reservas espalhadas por vários pontos do planeta. "Comprar florestas e amostras de ecossistemas é, com certeza, o modo mais caro de proteger a natureza. Mas, acreditamos, muitas vezes é o melhor", diz Joe Keenan, um dos diretores da entidade. Um milionário americano, Douglas Tompkins, tirou do próprio bolso 12 milhões de dólares para arrematar 2.750 quilômetros quadrados de terras no sul do Chile. Ecologista radical, tudo o que pretende é preservar rios, lagos, montanhas e as últimas florestas virgens dos portentosos alerces, árvores com milhares de anos de idade. No Brasil, a TNC doou 1,5 milhão de dólares para que uma organização verde nacional comprasse duas fazendas de 60.000 hectares no Pantanal. Também financiou a compra de áreas na caatinga cearense e na Mata Atlântica do Paraná. A Conservation Internacional, ONG com sede em Washington, é dona da Fazenda Rio Negro, também no Pantanal.

São iniciativas bem-vindas, com excelente chance de sucesso. Esse tipo de aquisição é raro no Brasil. Mas é freqüente a transformação de áreas de matas em reservas, com o apoio do Ibama. O órgão federal responsável pelo meio ambiente criou o programa de Reservas Particulares do Patrimônio Natural em 1990 e já tem cadastradas 420. O cantor Ney Matogrosso e a escritora Rachel de Queiroz, por exemplo, são donos de reservas naturais. A Fundação O Boticário de Proteção à Natureza mantém uma reserva de 1.700 hectares no norte do Paraná. O dono da Rede Globo, Roberto Marinho, aguarda a conclusão do processo para transformar uma fazenda sua na Bahia em área protegida. A maioria das reservas é formada por trechos de fazendas que também abrigam atividades econômicas. A principal vantagem para o proprietário é a isenção do pagamento do imposto territorial rural para aquela área.

 
Saiba mais
Da internet
  The Nature Conservacy
  Conservation International
  Ibama